7 de Outubro

Há três anos, Hamas mostrava como combater o fascismo de verdade

Dilúvio de al-Aqsa rompeu o cerco de Gaza, abalou a imagem de invencibilidade de “Israel” e abriu uma nova etapa da luta do povo palestino

Há três anos, em 7 de outubro de 2023, começava a Operação Dilúvio de al-Aqsa. Combatentes do Hamas, liderando uma frente composta por outras organizações palestinas de luta, atravessaram as barreiras que cercavam a Faixa de Gaza, atacaram bases militares, capturaram soldados e penetraram em localidades invadidas por “Israel”. Em poucas horas, desmoronou a imagem de um Estado capaz de vigiar cada movimento dos palestinos e esmagar qualquer tentativa de resistência antes mesmo de ela começar.

O 7 de outubro abriu uma nova etapa da Revolução Palestina. A comparação mais próxima são as duas Intifadas, mas com uma diferença decisiva. A resistência que enfrenta “Israel” desde 2023 já não está limitada às pedras e às armas improvisadas que marcaram principalmente a primeira grande insurreição, iniciada em 1987. Depois de anos de bloqueio, bombardeios e ocupação, os palestinos haviam organizado forças capazes de enfrentar militarmente um dos exércitos mais equipados do mundo.

Essa mudança também corresponde a uma transformação internacional. A ofensiva ocorreu depois de uma longa sequência de derrotas do imperialismo no Oriente Médio e na Ásia Central. Os Estados Unidos foram expulsos do Afeganistão em 2021 depois de 20 anos de ocupação. A invasão do Iraque destruiu o país, mas não produziu o domínio político estável pretendido por Washington e os americanos tiveram de retirar suas tropas gradualmente, fortalecendo a resistência armada xiita. O Iêmen resistiu durante anos à guerra conduzida pela Arábia Saudita com apoio norte-americano e desde 2023 o Ansar Alá realiza uma ofensiva tanto contra o regime títere que ocupa parte do país como contra os sauditas e o próprio território israelense, além de bloqueios marítimos no Mar Vermelho.

A enorme superioridade tecnológica de “Israel” depende diretamente dessa estrutura. O Estado sionista recebe armas, dinheiro e proteção diplomática das grandes potências, sobretudo dos Estados Unidos. Quando centenas de combatentes palestinos conseguiram romper as linhas israelenses em 7 de outubro, não atingiram apenas unidades militares na fronteira de Gaza. Demonstraram os limites de uma máquina de repressão sustentada pelo imperialismo.

A operação não foi recebida pelos palestinos como uma ação isolada de um pequeno grupo. Pesquisa realizada pelo Palestinian Center for Policy and Survey Research entre 22 de novembro e 2 de dezembro de 2023 mostrou que 72% dos palestinos consideravam correta a decisão do Hamas de lançar a ofensiva. Na Cisjordânia, eram 82%; em Gaza, 57%. O resultado não deixa dúvida sobre o enorme respaldo político inicial à ruptura de 7 de outubro.

Esse apoio é fundamental para compreender a propaganda montada imediatamente pelo governo israelense. Era necessário apagar a existência de uma revolta nacional palestina contra décadas de ocupação e apresentar o acontecimento apenas como uma irrupção de barbárie sem causa política. Nas semanas seguintes, histórias cada vez mais chocantes passaram a circular pela imprensa internacional, frequentemente antes de qualquer investigação.

Essas acusações desmoronaram depois. Relatório da Sexual Violence Prevention Association analisou a utilização de denúncias de violência sexual como justificativa para a guerra em Gaza e apontou falsidades e informações sem comprovação difundidas pela imprensa. Um dos casos mais conhecidos foi o de Gal Abdush, apresentada pelo New York Times como vítima de estupro. Segundo o relatório, a família rejeitou essa conclusão e afirmou que sequer havia sido informada de que a reportagem trataria a morte de Abdush como um caso de violência sexual.

O documento também examinou 65 matérias do New York Times e do Politico publicadas entre outubro de 2023 e outubro de 2024. Segundo o levantamento, 66% concentravam-se em acusações de violência sexual contra israelenses e apenas 22% tratavam da violência sexual israelense contra palestinos. O relatório mostrou que as autoridades israelenses e a imprensa imperialista utilizam histórias não comprovadas para legitimar a ofensiva contra Gaza.

Há ainda outra parte da história que a propaganda inicial deixou praticamente de fora: israelenses também foram mortos pelas próprias forças de “Israel”, que jogaram a culpa no Hamas.

A Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU investigou a aplicação da chamada Diretriz Hannibal, procedimento militar formulado para impedir que soldados fossem capturados, mesmo que isso colocasse em risco a vida do próprio militar. Segundo a comissão, as forças israelenses provavelmente aplicaram a diretriz em pelo menos dois episódios de 7 de outubro nos quais civis israelenses morreram. A investigação concluiu que uma mulher foi morta por fogo de helicóptero enquanto era levada de Nir Oz e que disparos de tanque mataram alguns ou todos os 13 reféns mantidos numa casa em Be’eri. Ao todo, a comissão atribuiu pelo menos 14 mortes de civis israelenses a situações relacionadas à aplicação da diretriz.

Depois vieram três anos de guerra. Gaza foi devastada. Dezenas de milhares de palestinos morreram, bairros inteiros foram destruídos e hospitais, escolas, redes de água e outras estruturas civis ficaram fora de funcionamento. Trata-se da manifestação concreta da política fascista do sionismo: ocupação militar, expropriação territorial, leis e direitos diferentes segundo a origem nacional, prisões em massa e emprego de violência extrema contra uma população submetida.

Toda essa destruição tampouco eliminou o Hamas. Em outubro de 2026, a organização continua armada e governa as áreas densamente povoadas de Gaza que permanecem fora do controle direto das tropas israelenses. “Israel”, por sua vez, ainda mantém presença militar sobre aproximadamente dois terços do território. O desarmamento do Hamas, um dos pontos centrais dos planos apresentados para Gaza, permanece sem solução. “Israel”, portanto, não conseguiu seus dois objetivos centrais ao realizar o genocídio de ao menos 72 mil palestinos de Gaza: ocupar toda a Faixa e destruir o Hamas. Foi uma derrota estratégica do regime fascista e terrorista israelense e uma vitória da resistência.

É precisamente nesse ponto que o aniversário da operação ajuda a expor a falência da chamada “luta contra o fascismo” promovida pela esquerda brasileira, propaganda que é amplificada neste início de segundo turno quando os carreiristas tentam desesperadamente manter seus cargos no governo federal.

Durante anos, a maioria da esquerda apresentou Alexandre de Moraes, o STF, a Polícia Filial do Mossad e outros organismos repressivos do Estado como uma barreira contra o bolsonarismo. A perseguição judicial foi aceita porque atingia adversários de direita. O bloqueio de contas, a retirada de publicações e a ampliação dos poderes do Judiciário foram tratados como instrumentos legítimos de defesa da democracia. Quando, em 2022, o próprio PCO teve suas redes sociais bloqueadas por decisão de Moraes, parte dessa esquerda na verdade apoiou a medida.

Não existe atualmente no Brasil uma situação semelhante à ascensão do fascismo clássico. O fascismo alemão e o italiano foram movimentos de massas financiados e apoiados por setores decisivos da burguesia para esmagar organizações operárias e impedir a revolução. O bolsonarismo atual está muito mais domesticado pelo próprio regime do que estava em 2018 e seu apoio popular não transforma automaticamente seus eleitores em fascistas.

Grande parte desse eleitorado expressa uma rejeição real ao regime político. O trabalhador que desconfia do STF, rejeita a censura ou se opõe à política identitária defendida pela esquerda não se transforma, por isso, em fascista. Quando a esquerda responde chamando essa parcela da população de gado fascista e simultaneamente abraça ministros, tribunais e órgãos policiais, entrega à direita o descontentamento legítimo produzido pelo próprio sistema político.

Essa política converte a esquerda em apoiadora da repressão estatal. A censura contra bolsonaristas foi aceita em nome do combate ao fascismo; depois alcançou o PCO, Breno Altman e os defensores resolutos da Causa Palestina. O Supremo acumulou poderes extraordinários enquanto a esquerda o apresentava como defensor das liberdades democráticas.

A Palestina apresenta uma situação radicalmente diferente. Ali não há um “fascismo” descoberto numa postagem de rede social ou num eleitor que votou no candidato errado. Há ocupação militar, expulsão de moradores, assentamentos, prisões, bloqueio territorial, dezenas de milhares de mortos, milhares de presos políticos sendo torturados e executados. É nesse sentido concreto que o sionismo deve ser combatido como uma política fascista originada do imperialismo.

E a resistência palestina não depositou sua esperança nos tribunais do ocupante. Organizou o povo, acumulou armas, construiu uma estrutura clandestina e enfrentou militarmente a ocupação. Três anos depois, apesar da destruição gigantesca imposta a Gaza, “Israel” não conseguiu eliminar o Hamas nem impor seus objetivos ao território.

É essa a diferença política contida no 7 de outubro: enquanto a esquerda brasileira chama de “antifascismo” o apoio ao aparelho repressivo do Estado contra seus adversários, os palestinos enfrentam com suas próprias organizações uma ocupação militar concreta.

O Dilúvio de al-Aqsa permanece como uma demonstração de que o fascismo não é derrotado fortalecendo juízes, policiais e censores, mas pela organização independente e pela luta do próprio povo contra o Estado opressor. É um exemplo a ser seguido o da Gloriosa Operação Dilúvio de al-Aqsa!

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