Daniel Vorcaro não procurava apenas Alexandre de Moraes no Supremo Trambique Familiar (STF). Conversas obtidas pelo Estado de S. Paulo mostram que pessoas do círculo do dono do Banco Master também trabalhavam para aproximá-lo de Gilmar Mendes. Houve reuniões, contatos em eventos, uma audiência no Supremo e até uma tentativa de levar o banqueiro para jantar na casa do ministro.
A cena mais reveladora ocorreu em 17 de junho de 2024. Ciro Soares, advogado que fazia a ponte com Vorcaro, procurou o banqueiro durante a noite. Avisou que Chiquinho Feitosa, então cunhado de Gilmar, o esperava e estava indo para a casa do ministro. Vorcaro só respondeu depois das 23 horas. Ciro então explicou:
“O GM queria que vc fosse jantar com ele. Aí fomos só nós quatro.”
Gilmar nega ter feito o convite e afirma que o jantar com Vorcaro não ocorreu. Sua assessoria argumenta que a conversa foi mantida entre terceiros e que o ministro não pode responder pelo que Ciro disse. Segundo o gabinete, Gilmar havia participado naquela noite de atividades no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e de uma reunião religiosa em sua residência.
O problema é que o jantar perdido não apareceu do nada. Meses de conversas mostram Ciro tentando abrir portas para Vorcaro junto a Gilmar.
Em 31 de janeiro de 2024, o banqueiro disse que iria a um almoço do grupo Esfera em homenagem ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, no qual Gilmar também estaria. Ciro respondeu: “Procure ele. No meu nome e do Chiquinho Feitosa. GM já está ciente da sua ida”. Em 5 de junho, voltou ao assunto depois de encontrar o ministro: “Eu e chiquinho tivemos ótima reunião com GM. Espetacular”. Uma semana depois, informou que estava no IDP com os dois e pediu que Vorcaro telefonasse com urgência.
No fim daquele mesmo mês, durante o Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo IDP, o entusiasmo de Ciro era ainda maior. Depois de participar de um evento com Gilmar, escreveu ao banqueiro:
“Dani. Ontem foi do caralho. Ontem foi muito bom. GM é foda.”
Mais tarde, informou que estava novamente com o ministro e pediu outro telefonema.
As conversas seriam apenas demonstrações de tráfico de influência tentado por intermediários se não viessem acompanhadas de negócios concretos. Chiquinho Feitosa, personagem constante dessas articulações, tinha um contrato milionário com uma empresa de Vorcaro. O acordo com a Super Empreendimentos previa R$ 500 mil líquidos por mês e mais R$ 800 mil líquidos na primeira parcela. À época das negociações, Chiquinho ainda era cunhado de Gilmar Mendes.
Também não era um contratado distante dos problemas do Master no Judiciário. As conversas mostram Chiquinho acompanhando interesses do banqueiro que dependiam de decisões judiciais e mantendo contato com pessoas envolvidas nos processos. Em 11 de abril de 2024, ele enviou a Vorcaro o contato da secretária de Gilmar e informações sobre uma audiência no gabinete do ministro. Gilmar confirmou que recebeu o banqueiro e advogados do Master naquele dia.
A audiência tratou, segundo o próprio ministro, de créditos da Destilaria Alcídia contra a União. Fundos ligados ao Master haviam comprado precatórios de usinas e tinham interesse nas disputas judiciais sobre esses valores. Uma semana depois da reunião, Chiquinho escreveu ao banqueiro que a conversa de Bruno Bianco com Gilmar havia ficado “perfeita”. Vorcaro respondeu: “Que otimo”.
Outro interesse do grupo aparecia na abertura de cursos de medicina. O Master tinha negócios no setor de ensino, enquanto Gilmar era relator de uma disputa no STF sobre as regras aplicáveis às faculdades. Depois de uma das votações, Maurício Quadrado escreveu a Vorcaro: “Acabou a votação das medicinas! Ganhamos”.
Isso não significa que Gilmar tenha votado sistematicamente a favor do banco. O próprio material publicado registra decisões contrárias a interesses defendidos por empresas envolvidas nesses processos.
Mas um parente próximo recebia centenas de milhares de reais por mês de uma empresa de Vorcaro; esse parente acompanhava assuntos de interesse do banqueiro; intermediários relatavam repetidamente encontros com o ministro; Gilmar recebeu o próprio Vorcaro em seu gabinete; e havia negócios do grupo submetidos ao Supremo.
As revelações também dão outro significado à conduta de Gilmar no faroeste interno do STF pelo caso Master.
Quando a Corte discutiu, em 15 de setembro, a abertura de investigação sobre Alexandre de Moraes, Gilmar foi um dos ministros que tentou mudar o rumo da sessão. Sua proposta era juntar o caso de Moraes a outro procedimento, relacionado ao conflito entre André Mendonça e a Polícia Federal. Moraes, parte no assunto, e Cristiano Zanin, acompanharam Gilmar. Com a proposta caminhando para derrota, Flávio Dino pediu vista e suspendeu o julgamento por até 90 dias.
Gilmar, Moraes, Zanin e Dino formam uma quadrilha que trabalha para impedir o avanço das apurações contra Moraes. É o “Bando dos Quatro” que tenta realizar manobras desde que o escândalo atingiu diretamente o ministro.
Até então, a proteção oferecida por Gilmar a Moraes podia ser apresentada apenas como resultado da aliança política que os dois mantêm no STF. Ambos estiveram juntos em algumas das principais ofensivas que ampliaram o poder político do Supremo nos últimos anos. As novas revelações acrescentam um interesse mais imediato: o próprio Gilmar tem relações com personagens e episódios que aparecem no material apreendido de Vorcaro.
A hipótese de que Gilmar tenha tentado proteger Moraes para impedir que a investigação chegasse até ele deixou de ser uma especulação desligada dos fatos. O ministro que trabalha para alterar o caminho das apurações também aparece no círculo de aproximação construído pelo banqueiro investigado.
E Moraes não é uma companhia qualquer nesse assunto. As revelações sobre sua relação com Vorcaro incluem contratos milionários com o escritório de sua mulher, contatos entre o banqueiro e o ministro e encontros mantidos antes da prisão do dono do Master. Em dezembro de 2023, Vorcaro chegou a preparar um almoço de luxo para Moraes em Campos do Jordão, descrevendo-o numa mensagem como seu “convidado mais importante até hoje”.
O caso já não permite separar confortavelmente os ministros que estão sendo investigados daqueles que decidem como a investigação deve prosseguir. Gilmar não é um observador externo da crise. Seu nome aparece associado a Vorcaro por diferentes caminhos, enquanto ele intervém diretamente nas decisões do tribunal sobre o escândalo.
É precisamente aí que está o interesse de Gilmar em manter de pé a proteção a Moraes. Se a barreira romper e todas as relações de Vorcaro dentro do Supremo forem investigadas sem proteção corporativa, a apuração não terá motivo para parar no gabinete de Alexandre de Moraes. Gilmar Mendes também terá de explicar o contrato de seu então cunhado, a audiência com o banqueiro e a sequência de encontros que seus intermediários comemoravam com tamanho entusiasmo.
O STF é uma instituição podre, composta por ditadores que usurparam o poder no Brasil e que mantêm relações extremamente promíscuas com banqueiros. O STF é um verdadeiro balcão de negócios e um antro de corrupção para encher o bolso dos que mandam no País, ao passo que o cidadão comum perde a cada dia os seus direitos mais elementares. Deve ser extinto e esse processo deve ser acompanhado por uma ampla reforma democrática do Judiciário, com a eleição popular de todos os juízes, procuradores, promotores, desembargadores e cujos mandatos devem ser revogáveis a qualquer desvio de conduta.





