Bastou Lula terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro para aparecer uma nova explicação para o resultado. Em Lula não é Neo, publicado nesta terça-feira (6) no Brasil 247, Emerson Barros de Aguiar afirma que “o poder mudou de endereço” e passou dos palácios, parlamentos e partidos para centros de dados, servidores, plataformas e algoritmos. A imagem escolhida pelo autor é a de Matrix: o cidadão acredita que circula livremente, mas estaria preso num labirinto construído por empresas que controlam aquilo que ele vê.
As bigtechs realmente concentram dados, infraestrutura, publicidade e meios de comunicação utilizados por bilhões de pessoas. O problema é converter esse fato numa explicação geral para uma derrota eleitoral. O artigo afirma que “a luta hoje é na arena digital” e que as grandes empresas de tecnologia têm na direita, sobretudo na extrema direita, seus “representantes políticos formais”, favorecendo-os por meio dos algoritmos.
Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos, enquanto Lula obteve 53.876.617, ou 45,16%. A diferença ultrapassou 2,2 milhões de votos. Antes de procurar uma Matrix capaz de conduzir milhões de pessoas às urnas, seria preciso perguntar por que uma parcela tão grande do eleitorado, inclusive trabalhadores, não votou no presidente depois de quatro anos de governo.
O argumento de Aguiar praticamente transforma o trabalhador em um ser quase desprovido de vontade própria. O cidadão “pensa que está navegando livremente”, escreve ele, mas estaria circulando num ambiente cuja arquitetura desconhece. O eleitor desaparece como pertencente a determinada classe social, com interesses, experiências e opiniões próprias e reaparece como produto do algoritmo.
“A luta hoje é na arena digital, mas a esquerda e o campo democrático e progressista entram nela desarmados”, afirma o autor. Se isso for tomado ao pé da letra, a conclusão é pessimista para a própria esquerda. Como uma organização popular poderia competir, no terreno material, com corporações que dispõem de centenas de bilhões de dólares e controlam plataformas utilizadas diariamente por bilhões de pessoas? A saída não pode ser imaginar uma pequena versão progressista de Google ou Meta.
Partidos operários sempre enfrentaram meios de comunicação controlados por grandes capitalistas. Antes dos algoritmos vieram os grandes jornais, as redes de rádio e televisão, editoras e agências de notícias. A desigualdade material não começou com o telefone celular. A resposta histórica foi organização, militância, imprensa própria e disputa política direta.
A Internet modifica a velocidade, o alcance e os mecanismos de distribuição da informação. Não transforma, porém, seres humanos em autômatos. Um entregador de aplicativo sofre impacto do mal pagamento, preço do combustível, aluguel, escola, saúde e impostos. O algoritmo pode influenciar o que chega a sua tela; não substitui automaticamente sua experiência social nem sua avaliação de um governo.
Essa avaliação o artigo deixa em segundo plano. Durante quatro anos, o governo Lula governou em aliança com partidos de direita, manteve Geraldo Alckmin na Vice-Presidência, conviveu com juros elevados e aceitou regras fiscais que limitam o crescimento das despesas. Não é necessário supor que um motorista de aplicativo tenha sido conduzido por uma máquina para explicar por que ele pode ter se decepcionado com o governo.
O autor escreve ainda que a esquerda precisa “criar suas próprias redes de comunicação, formar comunidades digitais, disputar os algoritmos com conteúdo de qualidade e organizar uma comunicação capaz de furar as bolhas”. Mas a comunicação Foi a causa principal da derrota? Ou perdeu votos porque sua política decepcionou os trabalhadores.
Aguiar denuncia o enorme poder privado das plataformas. Mas se esquece que parte importante da esquerda apoiou decisões que ampliaram a responsabilidade dessas próprias empresas sobre conteúdos publicados por terceiros. Em 2025, o STF declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet. Pela regra original, em termos gerais, uma plataforma só seria responsabilizada civilmente por conteúdo de terceiros caso descumprisse uma ordem judicial específica de retirada.
O Supremo mudou esse regime. Em junho de 2026, ao concluir o julgamento dos recursos, determinou que as plataformas implementassem obrigações estruturais relacionadas ao chamado “dever de cuidado” e estas podem ser responsabilizadas por falha sistêmica caso não adotem medidas para prevenir ou remover imediatamente determinados conteúdos classificados como crimes graves.
As plataformas já podiam moderar conteúdos de acordo com suas próprias regras antes dessa decisão. A decisão alterou o regime de responsabilidade jurídica. Essa alteração, praticamente obriga que as privadas retirem preventivamente conteúdos temendo responder judicialmente por sua permanência. Quem denuncia o poder dessas empresas deveria discutir também o problema de ampliar seu papel prático na definição daquilo que permanece publicado.
É uma enorme contradião pois o STF é apresentado por setores da esquerda como proteção da democracia. De um lado, denunciam que corporações privadas controlam o “megafone”. De outro, aceitam que o Judiciário imponha a essas corporações novas obrigações de vigilância e retirada de conteúdos.
Também não existe um “Neo” capaz de derrotar sozinho estruturas dessa dimensão. Nenhum presidente muda sozinho uma sociedade, assim como nenhum dirigente partidário substitui a ação coletiva das massas.
A metáfora tecnológica não resolve o problema que apareceu nas urnas. Lula perdeu cerca de 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022. E isso se deve ao custo de vida, os juros, o endividamento, as alianças do governo, suas prioridades econômicas e a relação do PT com as instituições golpistas. Dizer que os algoritmos favoreceram a direita não adianta nada.




