No artigo O mundo não pode perder o Brasil, publicado nesta terça-feira (6) no Brasil 247, Márcio Pochmann parte dos seguintes dado: Lula passou de 57,26 milhões de votos no primeiro turno de 2022 para 53,88 milhões em 2026, uma perda de aproximadamente 3,38 milhões. Sua participação nos votos válidos caiu de 48,43% para 45,16%, e a votação diminuiu em 25 das 27 unidades da Federação. Porém, em vez de perguntar por que milhões de trabalhadores se afastaram do PT depois de quatro anos de governo, o artigo procura a resposta na transformação do trabalho, nas plataformas digitais e na chamada “datacracia”.
Pochmann começa pelos Estados Unidos. Donald Trump conservou em 2024 uma parcela maior de seus eleitores de 2020 do que Kamala Harris conseguiu manter entre os que haviam votado em Joe Biden. Por que o Partido Democrata perdeu parte de sua própria base? O governo Biden ficou associado à continuidade das guerras, ao financiamento da Ucrânia e ao apoio a “Israel”. Trump explorou esse descontentamento, apresentou-se como adversário das “guerras eternas” e prometeu recuperar empregos e a economia.
Há outra lição norte-americana que a esquerda brasileira se recusou a aprender. A perseguição judicial contra Trump não liquidou o trumpismo. Ao contrário, permitiu que ele aparecesse diante de milhões como alguém perseguido pelo sistema. Aconteceu algo semelhante no Brasil. Lula foi preso, impedido de disputar a eleição de 2018 e, poucos anos depois, saiu da cadeia para voltar à Presidência. Jair Bolsonaro foi tornado inelegível, condenado e preso, mas o bolsonarismo não desapareceu. Em 2026, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula.
A esquerda institucional teve anos para perceber que tribunal não substitui luta política. Preferiu o caminho contrário. Apostou no STF, no TSE, na Polícia Federal, em processos, condenações e cassações. Agora recebe a conta dessa política e procura explicações cada vez mais complicadas para o resultado eleitoral.
O autor passa da eleição para a transformação do trabalhador. O entregador de aplicativo, o vendedor pela Internet e o trabalhador que combina diferentes fontes de renda seriam expressões de uma nova sociedade que já não caberia nas antigas categorias do trabalho. O autor lembra que cerca de 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais em 2024, 25,4% a mais que em 2022. O crescimento existe, mas não explica o voto.
O trabalhador sempre mudou. O operário do começo do século XX não vivia como o metalúrgico do ABC de 1980, que por sua vez não vive como um motorista de aplicativo em 2026. Mudam a tecnologia, o local de trabalho, a jornada e a forma de contratação. Mas permanece a divisão entre quem precisa vender sua força de trabalho para viver e quem controla o capital.
Dizer que o trabalhador agora recebe ordens de um algoritmo em vez de um chefe sentado numa sala não resolve o problema político. A questão é saber por que esse trabalhador, que passa horas na rua, paga aluguel caro, compra comida cara e se endivida, deveria enxergar no PT um partido que luta por seus interesses. A economia digital não obriga ninguém a votar em Flávio Bolsonaro.
O problema está no governo, que não rompeu com a política de juros altos, não enfrentou os banqueiros, não realizou uma auditoria da dívida pública e aceitou limites fiscais para os gastos públicos. Poderia ter mobilizado os trabalhadores por aumento geral dos salários, expansão dos gastos sociais, redução da jornada, empregos e moradia. No entanto, preferiu demonstrar “responsabilidade” para os capitalistas.
Também não se apoiou politicamente em sua base social. O PT governou em acordo com o Centrão, manteve Geraldo Alckmin na Vice-Presidência, incorporou figuras da direita ao governo e depositou enormes esperanças no STF como instrumento contra o bolsonarismo. Em vez de organizar uma ofensiva popular, procurou administrar o Estado burguês em conciliação com os grandes capitalistas.
Depois disso, descobrir que parte do trabalhador de aplicativo votou na direita e atribuir o fenômeno à transformação digital é inverter o problema. O eleitor não mudou porque começou a usar um celular para trabalhar. O que mudou foi a política apresentada a ele pela esquerda institucional.
A direita ocupou o espaço abandonado. Faz uma demagogia contra “o sistema”, ataca instituições impopulares, denuncia privilégios e promete uma ruptura. Seus partidos defendem os grandes capitalistas e os banqueiros, mas conseguem apresentar-se como força de oposição. A esquerda oficial, por sua vez, aparece defendendo o STF, fazendo acordos com a direita tradicional e pedindo confiança nas mesmas instituições que desde sempre atacaram os trabalhadores.
É assim que um trabalhador explorado por uma plataforma pode acabar votando em Flávio Bolsonaro. Não porque tenha deixado de ser trabalhador, mas porque a direita procura canalizar sua revolta enquanto o PT procura integrá-lo politicamente às instituições do regime.
Pochmann afirma que a participação de Lula nos votos válidos caiu em 98% dos municípios brasileiros. É um dado devastador.
A insistência em se falar das novas tecnologias é não compreender que nada disso elimina a luta de classes. Pelo contrário: mostra que novas empresas e novos mecanismos passaram a concentrar poder econômico. A resposta não está apenas em produzir estatísticas melhores ou criar uma infraestrutura estatal de dados. Está em organizar os trabalhadores contra quem controla essas plataformas e contra a burguesia que se beneficia dessa exploração.
O artigo termina preocupado em saber se as instituições serão capazes de “enxergar” o trabalhador do futuro. O trabalhador de hoje já está perfeitamente visível. Está nas motocicletas de entrega, nos carros de aplicativo, nas fábricas, nos supermercados, nos hospitais, nas escolas, nos canteiros de obras e nos bairros operários. Não faltam informações para saber que ele precisa de salário maior, jornada menor, emprego, saúde, moradia e transporte.
O que falta é uma política que confronte os interesses que impedem essas medidas. O governo poderia ter aumentado os gastos sociais e enfrentado os juros. Poderia ter colocado os trabalhadores em movimento contra os banqueiros e os grandes capitalistas. Poderia ter transformado a força eleitoral de 2022 em mobilização popular. Preferiu a conciliação.
Por isso, o fracasso não deve ser jogado nas costas de um trabalhador supostamente transformado pela tecnologia. O trabalhador continua submetido à exploração capitalista, ainda que a exploração apareça agora numa tela de celular. Foi o PT que, em vez de lutar pelos trabalhadores, decidiu administrar o Estado burguês e acomodar-se aos interesses da burguesia.
Pochmann gasta milhares de caracteres procurando na mudança tecnológica a explicação para a queda eleitoral de Lula. A explicação é mais simples e mais incômoda. O trabalhador mudou de emprego, de ferramenta e de rotina. O PT escolheu outro lado.




