Os grandes jornais da burguesia deram a notícia como se fosse algo corriqueiro. Por isso ela não passou de uma nota de rodapé no Partido da Imprensa Golpista (PIG). Nem mesmo os veículos declaradamente bolsonaristas, como Gazeta do Povo e Revista Oeste, falaram algo sobre o caso.
Mas ele é da mais alta gravidade.
A apuração dos votos no primeiro turno das eleições foi marcada por um episódio que levanta questionamentos graves sobre a transparência e a confiabilidade da divulgação dos resultados. Em determinado momento da contagem oficial, Flávio Bolsonaro aparecia à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com 49,6% dos votos contra 42,2% do atual presidente.
Até aquele instante, 64,8% das seções eleitorais haviam sido apuradas. Foi então que ocorreu uma interrupção de mais de uma hora na divulgação dos resultados para presidente. O fato, por si só, já seria suficientemente grave para exigir uma explicação detalhada e transparente. Mas há uma circunstância particularmente significativa: enquanto a apuração presidencial foi interrompida, a contabilização dos votos para governador, senador e deputados continuou normalmente.
Ou seja, não se tratou de uma paralisação geral da apuração. O problema, segundo os dados divulgados naquele momento, afetou especificamente a disputa presidencial — justamente aquela que concentrava a maior tensão política e na qual a diferença entre os dois principais candidatos estava se estreitando rapidamente.
Mais preocupante ainda foi o comportamento dos números após a retomada. Antes da interrupção, Flávio Bolsonaro apresentava uma trajetória ascendente, tendo ultrapassado os 50% dos votos, embora tivesse experimentado uma leve queda. Enquanto Lula vinha perdendo participação percentual, com um leve respiro. Quando os resultados voltaram a ser divulgados, porém, a tendência se inverteu de maneira significativa: a votação de Flávio Bolsonaro passou a cair, enquanto a de Lula começou a subir.
Flávio Bolsonaro estava com 49,6% dos votos, a menos de meio ponto percentual da marca necessária para liquidar a eleição no primeiro turno. Parecia, portanto, estar a poucos passos de uma vitória definitiva. Depois da interrupção, entretanto, sua vantagem desapareceu. O candidato terminou a apuração com 47,03%, enquanto Lula alcançou 45,16%.
É evidente que uma alteração na distribuição percentual dos votos pode ocorrer naturalmente à medida que diferentes regiões e seções eleitorais são incorporadas à apuração. Isso, por si só, não constitui prova de fraude ou manipulação. O problema é outro: quando uma apuração é interrompida justamente em um momento decisivo, quando um candidato está próximo da vitória, e depois retorna apresentando uma mudança brusca na tendência observada anteriormente, a explicação técnica precisa ser especialmente rigorosa, verificável e convincente.
Não basta afirmar que houve um “congestionamento de dados”. É necessário explicar exatamente onde ocorreu o problema, por que ele afetou a divulgação presidencial enquanto os demais cargos continuavam sendo apurados, quais mecanismos impediram qualquer alteração indevida nos dados e como foi possível garantir a integridade das informações durante o período de interrupção.
A paralisação ocorreu às 19h06, no horário de Brasília, quando 64,8% das urnas haviam sido apuradas. Os resultados presidenciais somente voltaram a ser apresentados às 20h08, quando a apuração já havia avançado para 84,96% das urnas. Mais de uma hora de diferença, portanto, separou dois momentos de divulgação em uma disputa que estava sendo decidida por poucos pontos percentuais.
A justificativa oficial foi apresentada pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, também ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, teria ocorrido um congestionamento provocado por um fluxo de dados acima do normal.
“O que ocorreu foi um congestionamento de dados. A cada eleição, nós somos surpreendidos com alguma intercorrência, o que é natural para quem lida com sistemas complexos e tão variados”, afirmou.
Nunes Marques acrescentou: “A princípio, não se sabe se isso foi derivado de outro problema. O que a nossa TI constatou foi um fluxo [de dados] superior ao normal, e esse congestionamento gerou um atraso”.
A declaração, contudo, está longe de encerrar a questão. Ao contrário: ao admitir que inicialmente não se sabia se o congestionamento poderia estar relacionado a outro problema, a própria autoridade responsável pela Justiça Eleitoral reconhecia que ainda havia pontos a esclarecer.
Em uma eleição presidencial, não há espaço para explicações vagas diante de uma ocorrência dessa magnitude. A confiança no processo eleitoral depende não apenas de que os votos sejam efetivamente contabilizados, mas também de que a população possa acompanhar a apuração de maneira transparente e compreender, sem zonas obscuras, qualquer interrupção ou alteração relevante no fluxo de divulgação.
O episódio não permite, por si só, afirmar que houve fraude ou manipulação dos votos. Mas permite — e exige — questionar a qualidade da explicação apresentada e cobrar esclarecimentos técnicos completos. Quanto mais sensível o momento, maior deve ser a transparência.
O que estava em jogo não era uma disputa secundária. Flávio Bolsonaro encontrava-se a menos de um ponto percentual de uma vitória no primeiro turno. A apuração foi interrompida por mais de uma hora. Os demais cargos continuaram sendo contabilizados. E, quando os números presidenciais voltaram a aparecer, a tendência havia mudado de forma significativa.
Em um regime que se vende como o suprassumo da democracia, fatos dessa natureza não podem ser tratados como um simples detalhe técnico. A legitimidade do resultado depende também da confiança pública na forma como ele foi produzido e divulgado. Por isso, uma ocorrência como essa não deveria ser encerrada com uma explicação genérica sobre “congestionamento de dados”, mas submetida ao máximo escrutínio público e técnico.
Quando uma eleição é decidida por uma margem estreita, qualquer interrupção extraordinária na divulgação dos resultados precisa ser explicada nos mínimos detalhes. Sem isso, permanece uma sombra desnecessária sobre um processo que, justamente por ser supostamente democrático, deveria ser absolutamente transparente.
Há no Brasil uma verdadeira campanha de propaganda em torno da suposta infalibilidade do sistema eleitoral, encabeçada pela própria Justiça Eleitoral e amplificada pelas instituições e o PIG. O centro dessa propaganda são as urnas eletrônicas. Repetem-se exaustivamente as afirmações do Tribunal Superior Eleitoral sobre a segurança absoluta do sistema, enquanto se destaca que os equipamentos passam por testes antes das eleições e, posteriormente, são lacrados para impedir qualquer acesso indevido.
Mas há uma pergunta elementar diante do episódio ocorrido na apuração: se o sistema é tão rigorosamente testado e preparado, como foi possível ocorrer justamente uma falha de processamento no momento mais importante da eleição?
O TSE, evidentemente, conhece antecipadamente o número de eleitores aptos a votar. Conhece também o número de seções, a quantidade de urnas, a capacidade de cada equipamento e os limites de votos que podem ser registrados. Sabe, portanto, quais são as condições máximas de funcionamento do sistema e consegue projetar, com enorme antecedência, o volume de dados que será produzido durante a votação e a apuração.
A própria propaganda oficial procura transmitir exatamente essa ideia: a de um sistema cuidadosamente planejado, testado e preparado para funcionar de maneira previsível. Se é assim, a ocorrência de um fluxo de dados “superior ao normal”, capaz de provocar um congestionamento justamente durante a apuração presidencial, é algo que precisa ser explicado com muito mais rigor.
Não se trata de um fenômeno imprevisível da natureza. Eleições são eventos programados com meses ou anos de antecedência. O número de eleitores é conhecido. O número de urnas é conhecido. O número de votos possíveis é conhecido. A quantidade máxima de dados que pode ser gerada também pode ser calculada.
Então como um sistema apresentado como extremamente seguro, testado e controlado pode ser surpreendido por um volume de dados que, em princípio, deveria estar dentro de parâmetros perfeitamente previsíveis?
E há uma questão ainda mais incômoda: como explicar que, depois da suposta solução do problema, tenha ocorrido justamente uma mudança tão significativa na tendência da disputa presidencial?
É perfeitamente possível que se trate de uma coincidência. Uma alteração na tendência da votação, por si só, não prova fraude. Mas coincidência não é explicação. E, quando uma falha técnica ocorre no momento em que um candidato está próximo de conquistar a Presidência no primeiro turno e, depois da retomada da apuração, sua votação passa a cair enquanto a do adversário sobe, é legítimo exigir uma demonstração técnica muito mais detalhada do que simplesmente afirmar que houve um “congestionamento de dados”. E, mais do que tecnicidades, uma explicação que convença o cidadão comum, que não entende nada de feitiçaria.
O próprio presidente do TSE classificou os sistemas envolvidos como “complexos”. E a Justiça Eleitoral sustenta reiteradamente que seu funcionamento depende de especialistas altamente capacitados, capazes de operar e auditar uma infraestrutura tecnológica que a esmagadora maioria da população não tem condições técnicas de compreender.
Chegamos, assim, a um problema fundamental: a população é chamada a confiar cegamente em uma estrutura tecnológica que praticamente não pode fiscalizar diretamente.
Segundo as próprias informações divulgadas pela Justiça Eleitoral, um grupo restrito de técnicos é responsável por operar os sistemas envolvidos na totalização dos votos. São profissionais que não possuem qualquer notoriedade pública e cuja atuação é inacessível ao cidadão comum. O processo de cálculo e totalização é majoritariamente automatizado, e o eleitor não acompanha diretamente cada etapa pela qual seu voto passa até se transformar no resultado divulgado.
No fim das contas, portanto, mais de 200 milhões de brasileiros são convidados a depositar sua confiança em um grupo extremamente reduzido de especialistas e em sistemas tecnológicos que não dominam e não podem verificar individualmente.
É uma espécie de sacerdócio tecnológico. Os cidadãos precisam acreditar que os sistemas funcionam exatamente como lhes dizem que funcionam, que os especialistas são absolutamente incorruptíveis, que todos os procedimentos são executados corretamente e que nenhuma variável desconhecida pode interferir no resultado.
E, naturalmente, devemos acreditar que esses especialistas são seres humanos excepcionais: 100% idôneos, íntegros, incorruptíveis, imunes a pressões, interesses e erros. Devemos acreditar nisso não porque conheçamos pessoalmente essas pessoas ou porque possamos acompanhar seu trabalho, mas porque as instituições responsáveis pelo sistema nos asseguram que devemos acreditar.
É uma situação curiosa. Ao longo dos últimos anos, figuras das mais altas instituições do Estado brasileiro foram envolvidas em denúncias, investigações e escândalos, demonstrando que nenhum funcionário público ou autoridade está acima da possibilidade de cometer erros ou praticar irregularidades. Ainda assim, quando o assunto são as urnas eletrônicas, qualquer questionamento é frequentemente tratado como uma espécie de heresia contra a “democracia”.
Não deveria ser assim.
A defesa de algum tipo de democracia não exige fé. Exige transparência, fiscalização e possibilidade real de auditoria. Um sistema eleitoral verdadeiramente confiável não deve pedir ao cidadão que acredite em sua perfeição; deve fornecer mecanismos suficientes para que sua segurança possa ser demonstrada e verificada.
Se as urnas são tão seguras quanto afirma a Justiça Eleitoral, não há motivo para temer questionamentos. Ao contrário: quanto maior a confiança que as instituições afirmam ter em seu próprio sistema, maior deveria ser sua disposição para explicar, detalhadamente, qualquer ocorrência extraordinária. E mais do que isso: permitir que qualquer cidadão, sem nenhum conhecimento especializado, possa acessar, verificar e compreender perfeitamente os dados da urna.
O problema não é admitir que sistemas eletrônicos podem falhar. O problema é sustentar durante anos a imagem de uma máquina praticamente infalível e, diante de uma falha concreta e gravíssima durante uma eleição presidencial, oferecer como explicação um simples “congestionamento de dados”.
Se houve apenas uma falha técnica, que se demonstre exatamente como ela ocorreu, por que ocorreu, por que não foi prevista e como se comprovou que não afetou a totalização. Se foi apenas uma coincidência que a tendência dos votos tenha se invertido após a interrupção, que os dados e os procedimentos permitam demonstrá-lo.
Porque, em um regime que se vende como democrático, a confiança não pode ser uma obrigação imposta de cima para baixo. Ela precisa ser conquistada pela transparência.



