A Federação PSOL-Rede ficou de fora da cláusula de barreira nas eleições de 2026. O agrupamento obteve 4,9% dos votos válidos para deputado federal em todo o País, quase o dobro dos 2,5% exigidos pela legislação, mas alcançou o mínimo de 1,5% em apenas oito unidades da Federação. Precisava de nove. No Espírito Santo, onde esteve mais perto de cumprir a exigência, faltaram menos de 200 votos.
Também não funcionou o segundo caminho previsto pela lei. A federação elegeu 15 deputados federais, ultrapassando os 13 exigidos, mas esses parlamentares ficaram distribuídos por apenas seis unidades da Federação. A Constituição determina que eles sejam eleitos em pelo menos um terço das unidades do País. Quem não supera a cláusula perde, na legislatura seguinte, o acesso ao Fundo Partidário e à propaganda partidária gratuita no rádio e na televisão.
Mas o dado mais significativo não são os poucos votos que faltaram no Espírito Santo. É o caminho percorrido pelo PSOL até chegar a essa situação. A legenda passou anos ajustando sua organização às exigências do sistema eleitoral, federou-se à Rede justamente para escapar da barreira e terminou a campanha de 2026 completamente integrada à frente ampla encabeçada pelo PT. Nem isso resolveu o problema.
A dificuldade remonta à própria formação do PSOL. O partido surgiu em 2004 reunindo parlamentares que haviam rompido com o PT, acompanhados de diferentes grupos de esquerda com base em uma posição oportunista e moralista. Havia militantes e organizações de origem socialista dentro da nova legenda, mas desde cedo os mandatos parlamentares adquiriram um peso enorme na direção de sua atividade.
Era um partido puramente eleitoral. Um partido em que deputados, vereadores, gabinetes e eleições assumiram uma importância desproporcional à organização direta dos trabalhadores, quem o PSOL dizia representar. Conforme o espaço para os pequenos partidos foi sendo reduzido por sucessivas mudanças na legislação, essa dependência do Parlamento cobrou seu preço e o PSOL foi se integrando profundamente até se tornar a ala esquerda do apodrecido regime político brasileiro.
A cláusula de barreira foi ampliando as exigências eleição após eleição. Para 2026, não basta uma votação nacional expressiva. São necessários 2,5% dos votos válidos para deputado federal, acompanhados de pelo menos 1,5% em nove unidades da Federação, ou 13 deputados eleitos também em nove unidades. O mecanismo foi apresentado oficialmente pelo TSE como instrumento para reduzir a fragmentação partidária. Na prática, ele exerce enorme pressão sobre os partidos menores para que se fundam, sejam incorporados ou ingressem em federações. É uma medida para fechar o regime político e concentrá-lo nas mãos de pouquíssimos partidos, a fim de facilitar o controle da burguesia e do imperialismo sobre eles.
Foi precisamente essa pressão que levou PSOL e Rede a formarem sua federação. O acordo não surgiu de uma grande convergência política entre organizações semelhantes, embora elas sejam organizações semelhantes, produto do mesmo capital financeiro que promove ONGs internacionais e a pauta identitária. Tratava-se, entre outras coisas, de uma operação destinada a somar votos e mandatos para enfrentar as novas exigências eleitorais, a fim de garantir a sobrevivência dessas duas legendas dentro do regime parlamentar burguês.
A associação era politicamente significativa. O PSOL havia surgido apresentando-se como uma alternativa pela esquerda ao PT. Anos depois, para conservar a carreira de seus dirigentes, colocou-se numa organização comum com a Rede, partido de Marina Silva, personagem que o próprio PSOL havia enfrentado politicamente em diferentes momentos.
A eleição deste ano empurrou esse movimento muito mais longe. PSOL e Rede não apenas permaneceram juntos como passaram a integrar a coligação presidencial de Lula. O partido criado a partir de uma ruptura com o PT terminou duas décadas depois incorporado ao bloco eleitoral dirigido pelo próprio PT.
Esse desenvolvimento não representa simplesmente uma mudança de alianças. Ele corresponde à transformação do Parlamento e da conservação de mandatos no eixo da política do partido. Quanto maior a dificuldade para eleger deputados e manter o acesso aos recursos estatais, maiores foram as concessões feitas para permanecer dentro do jogo.
A campanha de 2026 deu vários exemplos. Em São Paulo, Sônia Guajajara, candidata do PSOL à Câmara dos Deputados, associou sua campanha à de Simone Tebet, candidata ao Senado pelo PSB. Tebet, uma representante política dos grandes proprietários rurais de Mato Grosso do Sul, justamente em uma região marcada por violentos conflitos de terra entre fazendeiros e índios. Por isso este diário apelidou Guajajara de Pocahontas do PSOL.
O contraste é revelador da trajetória política do PSOL. Quanto mais o partido se integrou à frente ampla, mais passou a aceitar alianças com políticos que anteriormente seriam apresentados como adversários da esquerda. A necessidade de cargos na máquina de dominação da burguesia tornou-se o argumento capaz de justificar praticamente qualquer aproximação.
Em São Carlos, no interior paulista, apareceu uma contradição ainda mais clara. Djalma Nery, vereador do PSOL e primeiro suplente de Marina Silva ao Senado, anunciou apoio a Dé Alvim, candidato a deputado estadual pelo Solidariedade. O encontro em que esse apoio foi apresentado contou também com Leandro Guerreiro, do PL. Depois, o lançamento da candidatura reuniu novamente Nery e Guerreiro, além de Paulinho da Força e dirigentes do PP.
Não houve uma coligação formal entre PSOL e PL. O interesse do caso está justamente no fato de que a retórica nacional de combate absoluto à direita não impediu uma figura do PSOL de participar, no plano local, de uma articulação eleitoral que reunia personagens do PL, PP e Solidariedade.
Essa disposição para se adaptar cresceu juntamente com a pressão da legislação eleitoral. O PSOL fez a federação com a Rede para somar votos. Aproximou-se progressivamente do PT para se aproveitar da popularidade de Lula. Entrou na frente ampla. Seus candidatos apareceram ao lado dos piores bandidos da direita. Em determinadas localidades, seus dirigentes participaram de arranjos eleitorais que atravessaram inclusive a fronteira formal entre esquerda e direita.
A direção psolista não pode alegar que desconhecia o perigo representado pela cláusula. Ela era justamente uma das razões principais da existência da Federação PSOL-Rede. Durante quatro anos, a estrutura partidária foi montada tendo esse problema diante dos olhos.
O resultado torna a situação especialmente contraditória. Não faltou votação nacional. Com 4,9%, a federação ultrapassou com folga os 2,5% previstos. Não faltou sequer o número total de deputados: foram eleitos 15, quando o mínimo alternativo era 13. O que faltou foi implantação territorial suficiente para cumprir uma das duas exigências da legislação antidemocrática estabelecida após o golpe de 2016, apoiado pelo PSOL.
O fracasso, portanto, não ocorreu depois de o PSOL rejeitar as regras impostas pelo regime político. O partido tentou cumprir essas regras da maneira mais cuidadosa possível, sem denunciá-la enquanto não o atingia, embora atingisse a maioria dos partidos de esquerda. Fez federação, ampliou alianças, participou da frente ampla e concentrou sua política na preservação da representação parlamentar. Mesmo assim, não chegou à cláusula.
Aí está a parte politicamente mais importante do resultado. Uma organização que nasceu reunindo setores da esquerda pequeno-burguesa e que procurava se apresentar como alternativa ao PT tornou-se progressivamente mais dependente do Parlamento e de seus mecanismos. Quando as regras ficaram mais duras, em vez de romper essa dependência, procurou adaptar-se ainda mais.
O mesmo mecanismo que estimulou sua federação com a Rede agora volta a pressioná-la para encontrar uma nova saída institucional para conservar os recursos e vantagens vinculados à cláusula.




