Frente ampla

Voto em patrão é voto inútil

Depois de quatro anos de conciliação com a direita, Lula perdeu 3,38 milhões de votos, ficou atrás de Flávio e viu alianças do PT naufragarem nos estados

Na reta final do primeiro turno, setores do PT exigiram que os eleitores de Rui Costa Pimenta abandonassem sua candidatura e votassem em Lula. Chamaram a operação de “voto útil”. Era preciso, diziam, concentrar votos no presidente para derrotar a direita e chegar fortalecido ao segundo turno. As urnas responderam: Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos. Lula ficou com 53.876.617, ou 45,16%.

O dado é ainda pior quando comparado a 2022. Depois de quatro anos instalado no Palácio do Planalto, Lula chegou ao primeiro turno com cerca de 3,38 milhões de votos a menos do que havia recebido quatro anos antes. A política apresentada como a única capaz de conter o bolsonarismo terminou com um Bolsonaro na frente.

O problema do chamado “voto útil” nunca foi apenas uma conta eleitoral. Quando se dizia ao trabalhador que votar no PCO era “desperdiçar” o voto, o que estava sendo pedido era que ele abandonasse um programa próprio para votar na frente ampla de Lula e Geraldo Alckmin. Mas para o seguidor de um partido revolucionário, uma candidatura independente serve para apresentar e organizar apoio a um programa político, não para funcionar como apêndice eleitoral de um partido maior.

No fim das contas, o “voto útil” era o voto na conciliação com os patrões. Útil seria apoiar Lula com Alckmin. Útil seria aceitar Simone Tebet. Útil seria apoiar Eduardo Paes, João Campos e toda espécie de político burguês incorporado às alianças petistas. Inútil, segundo essa tese, seria votar num partido que defende suas próprias posições diante dos banqueiros, dos grandes empresários e do Estado.

A votação de domingo mostrou o tamanho do engano. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas foi reeleito no primeiro turno com 62,8%, enquanto Fernando Haddad ficou com 36,2%. As duas candidatas apoiadas pelo bloco petista para o Senado, Simone Tebet e Marina Silva, também foram derrotadas. No Rio Grande do Sul, o PT abriu mão de encabeçar a chapa e apoiou Juliana Brizola, do PDT; Luciano Zucco, do PL, venceu no primeiro turno com mais de 58%. Em Pernambuco, João Campos perdeu para Raquel Lyra. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes chegou ao segundo turno atrás de Douglas Ruas, do PL.

Não faltou aliança. O PT juntou PSD, MDB, PSB, PDT, antigos tucanos, golpistas e direitistas que passaram boa parte de suas carreiras perseguindo o próprio petismo. O que faltou foi uma política capaz de entusiasmar e mobilizar os trabalhadores.

A frente ampla foi vendida desde 2022 como uma concessão temporária necessária para bloquear Bolsonaro. Quatro anos depois, a concessão virou regra. Geraldo Alckmin permaneceu na vice-presidência. O governo procurou permanentemente demonstrar “responsabilidade” diante dos grandes empresários, do sistema financeiro e das instituições do regime. A direita que supostamente seria neutralizada pela conciliação saiu fortalecida das urnas.

A razão é simples. Geraldo Alckmin não se tornou de esquerda porque entrou na chapa de Lula. Simone Tebet não deixou de ser uma latifundiária inimiga dos índios porque ganhou um ministério. Eduardo Paes não deixou de ser um vigarista neoliberal porque recebeu o apoio do PT. Para conservar essas alianças, quem precisa abandonar reivindicações, moderar seu programa e entregar posições é a esquerda.

As últimas semanas do governo antes da eleição deram uma demonstração particularmente clara desse deslocamento. Em 25 de setembro, Lula anunciou a proibição das apostas pela Internet. A decisão atingiu as apostas esportivas, cassinos virtuais e outras modalidades usadas por milhões de brasileiros. Dados obtidos do Ministério da Fazenda, indicavam que 43,8 milhões de pessoas haviam feito ao menos uma aposta em plataformas regulamentadas até o fim de agosto.

A pressão dos bancos contra as bets já era pública. A Febraban vinha divulgando estudos associando as apostas ao endividamento e à inadimplência. O interesse material é elementar: o dinheiro gasto numa casa de apostas deixa de estar disponível para pagar cartão, financiamento e empréstimo. Lula escolheu resolver a disputa proibindo o trabalhador de apostar, enquanto o sistema financeiro continuou livre para cobrar juros enormes.

Dias depois veio o cartão de crédito. Em entrevista ao Flow Podcast, Lula afirmou que discutia com o Banco Central uma medida para impedir que uma pessoa tivesse mais de um cartão. Após a repercussão, recuou e declarou que cada cidadão poderia manter quantos cartões desejasse. A proposta original não foi aplicada. Mas ela revelou a direção em que o governo procurava a solução: limitar o consumidor endividado, não enfrentar a estrutura bancária que cobra juros elevadíssimos.

O contraste é brutal. Para os bancos, nenhum limite desse tipo. Para o trabalhador, proibição da aposta e proposta de restringir cartão. Enquanto isso, pedia-se a esse mesmo trabalhador que votasse no governo porque qualquer alternativa seria “inútil”.

Foi justamente essa adaptação contínua que desgastou o lulismo. O eleitor que passou quatro anos vendo um governo preocupado em tranquilizar banqueiros, empresários e seus aliados de direita recebeu, às vésperas da votação, novas restrições apresentadas como proteção popular. Depois, ouviu que deveria votar em Lula não porque o governo tivesse realizado suas reivindicações fundamentais, mas porque Flávio Bolsonaro seria pior.

Esse método transforma a eleição numa chantagem permanente. O trabalhador não é chamado a lutar por salário, emprego, redução da jornada, controle dos bancos ou qualquer reivindicação própria. É convocado a escolher o político burguês considerado “menos pior” e deixar suas reivindicações para depois. O “depois”, porém, dura indefinidamente.

A política de frente ampla agravou ainda outro problema. Cada concessão feita aos partidos burgueses desloca o próprio PT para a direita. Para manter Alckmin, MDB, PSD e outros bandidos, é necessário apresentar um programa aceitável para eles. A consequência não é converter esses setores à esquerda, mas aproximar a política petista dos interesses dos próprios bandidos.

As eleições estaduais mostraram o resultado. Em São Paulo, o apoio a Tebet e Marina não impediu duas vitórias da direita para o Senado. No Rio Grande do Sul, retirar uma candidatura petista não bloqueou o PL; facilitou uma vitória no primeiro turno. No Rio de Janeiro, a enorme coligação em torno de Paes não impediu Douglas Ruas de chegar na frente. O PT cedeu espaço aos “aliados” e a direita continuou avançando.

Agora, diante da derrota no primeiro turno, aparece novamente a pressão para aumentar a dose do mesmo remédio. Mais aproximação com a direita “moderada”, mais garantias aos empresários, mais concessões aos banqueiros, mais abandono das reivindicações dos trabalhadores — tudo em nome de derrotar Flávio Bolsonaro.

É precisamente essa política que criou o desastre atual. Se quatro anos de frente ampla terminaram com Lula perdendo milhões de votos e Flávio chegando ao segundo turno na frente, a resposta não pode ser ampliar ainda mais a submissão aos partidos patronais.

O chamado “voto útil” revelou, assim, seu verdadeiro conteúdo. O eleitor consciente era pressionado a abandonar o PCO em nome de uma aliança apresentada como eleitoralmente imbatível. A aliança perdeu votos, sofreu derrotas importantes nos estados e viu a direita crescer. O voto que deveria salvar a esquerda serviu para fortalecer uma política que a empurrou cada vez mais para a direita.

Voto em patrão não organiza trabalhador, não fortalece seu programa e não prepara nenhuma luta. Pode servir aos cálculos de uma coligação, aos cargos de seus integrantes e aos acordos entre partidos. Para os trabalhadores, é voto inútil.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.