Jair Bolsonaro foi condenado, tornado inelegível e preso. Enquanto isso, Carlos Bolsonaro acaba de ser eleito senador por Santa Catarina. Michelle Bolsonaro, que nunca havia disputado uma eleição, conquistou uma cadeira no Senado pelo Distrito Federal. Flávio Bolsonaro, por sua vez, recebeu 56,1 milhões de votos e terminou o primeiro turno da eleição presidencial à frente de Lula.
Os números atingem diretamente uma política defendida durante anos por parte da esquerda: a ideia de que seria possível derrotar o bolsonarismo por intermédio do Supremo Tribunal Federal (STF), da Polícia Federal, do TSE, das cassações, das inelegibilidades e, finalmente, da prisão de Jair Bolsonaro. Bolsonaro saiu das urnas, mas sua força eleitoral não desapareceu com ele.
Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), afirmou repetidas vezes que a repressão não seria capaz de substituir a luta política contra a direita. Para o presidente do PCO, colocar Bolsonaro na cadeia poderia produzir o efeito contrário ao pretendido por seus adversários: transformá-lo, diante de sua base social, de ex-presidente responsável por uma política profundamente hostil aos trabalhadores em vítima de perseguição política.
Foi isso que tornou a política de repressão particularmente prejudicial. Bolsonaro oferecia material de sobra para um combate político. Seu governo privatizou a Eletrobrás, entregou refinarias da Petrobrás, privatizou a BR Distribuidora, manteve uma política econômica favorável aos bancos e aos grandes capitalistas e aprofundou a submissão brasileira aos interesses dos Estados Unidos.
Era por esse programa que a direita deveria ser combatida. No lugar disso, boa parte da vida política brasileira passou a girar em torno de Alexandre de Moraes, dos inquéritos do STF, da Polícia Federal, das decisões sobre redes sociais, das cassações e dos processos contra Bolsonaro.
A direita ganhou, com isso, um argumento poderoso diante de sua própria base: a denúncia de que seu principal dirigente estava sendo perseguido pelo aparelho de Estado. O Supremo condenou Jair Bolsonaro pelos crimes que os ministros consideraram demonstrados no processo relativo à tentativa de golpe. Não foram apresentadas provas de uma tentativa efetiva de tomada do poder capazes de justificar a eliminação política do ex-presidente.
Entragar ao Judiciário o poder de decidir quais forças podem ou não participar da luta política cria um instrumento que não permanecerá restrito à direita. A própria experiência de Lula deveria servir de advertência.
Em 2018, Lula liderava as pesquisas presidenciais, foi preso e ficou fora da eleição. Naquele momento, a direita afirmava que não existia perseguição política, mas apenas um processo judicial normal, conduzido por juízes e procuradores. A esquerda denunciou corretamente a interferência do Judiciário na eleição.
Alguns anos depois, porém, setores que haviam denunciado a Lava Jato passaram a tratar o STF e Alexandre de Moraes como instrumentos aceitáveis para enfrentar Bolsonaro. Mudou o perseguido e mudou também a atitude diante dos perseguidores.
Esse giro produziu uma enorme confusão política. A luta contra a direita deixou de ser apresentada como tarefa dos trabalhadores e passou a ser terceirizada para ministros do Supremo, policiais e procuradores. As urnas mostraram os limites dessa política.
A prisão do ex-presidente não obrigou sua base eleitoral a romper com ele. Ao contrário, ofereceu ao bolsonarismo a possibilidade de organizar toda sua campanha em torno da denúncia de perseguição. Nesse terreno, os problemas do governo Bolsonaro foram empurrados para segundo plano. Privatizações, política salarial, ataques aos direitos dos trabalhadores e submissão aos grandes capitalistas passaram a disputar espaço com uma pergunta muito mais favorável à direita: Bolsonaro está sendo perseguido?
O problema aparece agora de maneira muito mais concreta. A política contra Bolsonaro deveria convencer os trabalhadores de que a direita governa contra seus interesses. A política judicial produziu outra discussão: se Bolsonaro deveria ser preso, se poderia falar nas redes sociais, se poderia disputar eleições e se os ministros do Supremo tinham razão ao retirá-lo da vida política.
O primeiro terreno é favorável à esquerda. O segundo é extremamente favorável ao bolsonarismo. Foi nesse segundo terreno que a eleição ocorreu.


