A Unidade Popular pelo Socialismo (UP) gosta de se apresentar como uma organização “marxista-leninista”, formada em torno de uma doutrina, de um programa e de uma militância política. Os resultados da eleição para deputado federal de 2026 mostram uma realidade bem menos ideológica. Dos 45.431 votos recebidos pela UP, 39.312 foram dados nominalmente aos candidatos e apenas 6.119 diretamente à legenda 80. Ou seja: 86,5% dos votos foram em pessoas e somente 13,5% no partido.
Na eleição proporcional, o eleitor pode digitar o número completo de um candidato ou apenas os dois algarismos do partido. Quem vota 80 está escolhendo diretamente a UP. Quem digita quatro números está escolhendo um candidato determinado. Para um partido que faz enorme propaganda em torno de sua suposta solidez ideológica, seria natural encontrar uma parcela expressiva de votos diretamente na legenda. Não foi o que ocorreu.
A predominância do voto nominal aparece praticamente em todo o País. Em Alagoas, 91,4% da votação da UP foi nominal e somente 8,6% de legenda. No Ceará, a proporção foi de 94,1% contra 5,9%. No Maranhão, 90,2% contra 9,8%. Na Paraíba, 89,8% contra 10,2%. No Piauí, 91,7% contra 8,3%. No Rio Grande do Norte, 93,9% contra 6,1%. Em Sergipe, 93,2% contra 6,8%.
O quadro pouco muda nos maiores colégios eleitorais. Em São Paulo, 81,7% dos votos foram nominais e 18,3% de legenda. Em Minas Gerais, 81,5% contra 18,5%. No Rio de Janeiro, 85,2% contra 14,8%. Na Bahia, 77,1% contra 22,9%. Mesmo nos estados em que a UP alcançou sua maior proporção de votos partidários, a votação continuou amplamente concentrada nos candidatos.
No Distrito Federal, 87,6% dos votos foram nominais; no Espírito Santo, 92,4%; em Goiás, 90,7%; no Pará, 93,1%; no Paraná, 88%; no Rio Grande do Sul, 86,9%; e em Santa Catarina, 93,8%. Em nenhum estado a votação diretamente na legenda chegou perto de superar a votação nominal.
A comparação com partidos tradicionais da burguesia ajuda a esclarecer o problema. O União Brasil teve 7.732.064 votos nominais para deputado federal e 125.975 votos de legenda. Apenas 1,6% de sua votação foi diretamente no partido. No PSB, os votos de legenda representaram cerca de 1,9%; no PSDB, 2,6%.
A comparação com o Partido da Causa Operária deixa a diferença ainda mais clara. O PCO recebeu 3.041 votos válidos para deputado federal em 2026*: 1.763 nominais e 1.278 diretamente na legenda. Isso significa que 42% de toda a votação do Partido foi depositada diretamente no número 29. Na UP, foram apenas 13,5%. Proporcionalmente, o voto de legenda do PCO foi mais de três vezes superior.
Nas seis unidades da Federação em que ambos receberam votos para deputado federal — Ceará, Distrito Federal, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e Santa Catarina —, a UP obteve 14.535 votos. Apenas 1.454, exatamente 10%, foram diretamente na legenda. O PCO teve 2.737 votos, dos quais 1.213 foram no número 29: 44,3%.
Estado por estado, a diferença é ainda mais expressiva. No Ceará, somente 5,9% dos votos da UP foram de legenda, contra 56,1% do PCO. Na Paraíba, 10,2% contra 48,4%. Em Pernambuco, 20,9% contra 81,1%. No Rio de Janeiro, 14,8% contra 42,7%. Em Santa Catarina, 6,2% contra 27,1%. Mesmo no Distrito Federal, onde a distância foi menor, o PCO ficou na frente: 17,8% contra 12,4%.
Em 2022, segundo os dados consolidados do TSE, a UP recebeu 48.495 votos nominais para deputado federal e 6.091 de legenda. Apenas 11,2% de seus votos foram diretamente no partido. O PCO recebeu 3.598 votos nominais e 3.710 de legenda: 50,8% dos votos foram diretamente no Partido.
*Os dados não levaram em conta a votação para deputado federal em São Paulo, cujo resultado foi omitido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em um atentado contra os direitos democráticos de todo o povo brasileiro



