As eleições deste domingo (4) produziram um Congresso ainda mais deslocado para a direita. O movimento foi especialmente forte no Senado: o PL elegeu 19 dos 54 senadores em disputa e deverá iniciar 2027 com 28 das 81 cadeiras. Na Câmara, os resultados divulgados após a apuração apontam 121 deputados eleitos pelo partido. A esquerda perdeu peso relativo, enquanto o campo político organizado em torno do bolsonarismo aumentou sua presença dentro e fora do PL.
A mudança no Senado é a mais expressiva. Com 28 parlamentares, o PL deverá formar a maior bancada de um único partido no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988. O recorde anterior era do antigo PMDB, que começou a legislatura de 1999 com 27 senadores. Dos 54 mandatos decididos agora, 19 ficaram com a legenda de Flávio Bolsonaro.
O mapa projetado do Senado para 2027 fica assim:
|
Partido |
Senadores |
|---|---|
|
PL |
28 |
|
PT |
9 |
|
MDB |
8 |
|
Republicanos |
6 |
|
PP |
6 |
|
União |
5 |
|
PSD |
5 |
|
PSB |
4 |
|
Novo |
3 |
|
Podemos |
2 |
|
PSDB |
2 |
|
Rede |
1 |
|
PDT |
1 |
|
Sem partido |
1 |
A comparação com a frente ampla dá a dimensão da diferença. PT, PSB, PDT e Rede somam 15 senadores. O PL, sozinho, terá 28. O PT elegeu seis nomes e deverá permanecer com nove cadeiras. O PSB ficará com quatro, e PDT e Rede terão uma cada.
O crescimento da direita, porém, não pode ser medido apenas pela bancada oficial do PL. Em São Paulo, por exemplo, Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL, conquistaram as duas vagas para o Senado. Ambos participaram do campo político do governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Marina Silva e Simone Tebet, apresentadas pela frente ampla, ficaram atrás.
No Rio Grande do Sul, Sanderson, do PL, foi eleito ao lado de Marcel van Hattem, do Novo. No Paraná, Filipe Barros, do PL, conquistou uma das vagas, enquanto Deltan Dallagnol, do Novo, ficou com a outra, ainda sujeita à decisão definitiva sobre sua elegibilidade. No Maranhão, o Novo também elegeu Lahesio Bonfim. O Republicanos conquistou cadeiras com Mara Rocha, no Acre, e Evair de Melo, no Espírito Santo.
Esses resultados ajudam a entender por que seria errado limitar o bolsonarismo ao PL. O Republicanos é o partido de Tarcísio de Freitas e abriga diversos políticos ligados diretamente ao campo que se formou em torno de Jair Bolsonaro. O Novo também ocupa esse espaço de maneira bastante clara. PP, União, PSD e outras legendas possuem setores que, conforme o estado e a disputa, podem atuar ao lado do bolsonarismo.
Na Câmara, o avanço do partido também foi grande. Em 2022, o PL havia elegido 99 deputados federais. Agora, os resultados divulgados depois da apuração apontam 121 cadeiras, um acréscimo de 22 deputados. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, aparece com 78 eleitos, contra 81 em 2022. O Novo, que havia escolhido três deputados há quatro anos, chegou a dez.
Entre as principais bancadas, o quadro ficou assim:
|
Partido ou federação |
Câmara eleita |
|---|---|
|
PL |
121 |
|
Federação PT-PCdoB-PV |
78 |
|
Federação União-PP |
69 |
|
PSD |
44 |
|
Republicanos |
40 |
|
MDB |
36 |
|
Novo |
10 |
O crescimento do campo da direita não ocorreu de forma uniforme. O Republicanos, por exemplo, manteve uma bancada federal próxima à que possuía. Sua importância política está menos em uma explosão numérica e mais na posição que ocupa entre o bolsonarismo e setores tradicionais da burguesia. A legenda governa São Paulo com Tarcísio e possui presença expressiva no Congresso e nas assembleias estaduais.
Nos maiores colégios eleitorais, a diferença também aparece. Em São Paulo, o PL conquistou 19 das 70 cadeiras de deputado federal. O PT ficou com 11 e o Republicanos, com seis. Somados, PL e Republicanos terão 25 representantes paulistas na Câmara.
No Rio de Janeiro, o PL elegeu 15 dos 46 deputados federais. O PT conseguiu seis. O PP fez cinco, enquanto Republicanos e Novo conquistaram uma cadeira cada. A Federação PT-PCdoB-PV alcançou oito lugares.
Em Mato Grosso do Sul, dos oito deputados federais, três são do PL e dois do Republicanos. O PT elegeu apenas Camila Jara. No Paraná, além da bancada do PL, o Novo conquistou quatro cadeiras. No Tocantins, o Republicanos ficou com três das oito vagas para a Câmara.
A votação individual reforça a diferença de forças. O PL elegeu o deputado federal mais votado em 11 estados, distribuídos pelas cinco regiões do País. O PT obteve essa posição em apenas dois. Nikolas Ferreira, em Minas Gerais, passou de 3,1 milhões de votos, e Lucas Pavanato ultrapassou 3 milhões em São Paulo.
A esquerda conseguiu vitórias importantes em alguns estados, principalmente no Nordeste. O PT conquistou as duas vagas do Senado na Bahia, com Rui Costa e Jaques Wagner. No Ceará, Cid Gomes, do PSB, e Luizianne Lins, da Rede, foram eleitos. Também houve vitórias petistas em Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Esses resultados locais, entretanto, não alteram a relação geral de forças. O principal crescimento ocorreu no campo da direita. O PL ampliou fortemente sua representação parlamentar e os partidos próximos ao bolsonarismo conservaram posições importantes. A esquerda não apresentou movimento equivalente.
O caso do Republicanos é decisivo para compreender o novo Congresso. A legenda terá cerca de 40 deputados federais e seis senadores, além de comandar São Paulo com Tarcísio. Em vários estados, seus candidatos dividiram palanques, eleitorado e alianças com o PL. A presença do partido mostra que a influência política do bolsonarismo não depende de uma filiação formal à legenda de Flávio Bolsonaro.
O Novo, embora muito menor, também avançou. Passou de três deputados eleitos em 2022 para dez e conquistou três cadeiras no Senado. Em estados como Paraná e Rio Grande do Sul, seus candidatos apareceram diretamente associados ao mesmo eleitorado de direita que impulsionou o PL.
Bolsonaro chegou às eleições condenado e fora da disputa presidencial. Seu afastamento, contudo, não desmontou o movimento político organizado ao redor dele. O PL saiu das urnas maior no Congresso, enquanto Republicanos, Novo e setores de outras legendas conservaram uma extensa base parlamentar de direita.


