A votação atribuída a Rui Costa Pimenta na eleição presidencial deste domingo (4) apresenta uma discrepância difícil de ignorar. Com praticamente todas as urnas apuradas, o candidato do Partido da Causa Operária aparecia com apenas 15.019 votos em todo o Brasil, 0,01% dos votos válidos.
O que mais chama a atenção é quando os 15 mil votos são colocados ao lado dos resultados obtidos pelos próprios candidatos do PCO, no mesmo dia, diante dos mesmos eleitores e nas mesmas urnas.
O Partido disputou as eleições com 156 candidaturas em 17 estados e no Distrito Federal, sem federação. Sua campanha apresentou as chapas estaduais e Rui como parte de um mesmo programa. Não se tratava, portanto, de candidatos estaduais reunidos em alianças heterogêneas e sem relação política com a candidatura presidencial.
Tomando apenas 13 candidaturas do PCO — sete ao Senado e seis aos governos estaduais — encontram-se 51.242 votos. O número não corresponde necessariamente a 51.242 pessoas diferentes, pois um mesmo eleitor poderia votar no Partido para governador e senador. Ainda assim, são mais de 51 mil votos efetivamente registrados em candidatos do número 29, sem contar dezenas de outras candidaturas, os votos para deputado federal e estadual e os votos de legenda.
Somente sete candidatos ao Senado receberam 37.821 votos. Carol, em Santa Catarina, teve 11.975; Marcelo Marcelino, no Paraná, 9.194; Marcelo Millet, na Bahia, 4.918; Valderi Garcia, em Mato Grosso do Sul, 3.197; Tião Pessoa, em Minas Gerais, 3.184; Lino Alves, no Ceará, 2.677; e Adriano Trajano, na Paraíba, 2.676.
Outros seis candidatos do Partido aos governos estaduais tiveram 13.421 votos: Maria Bona recebeu 4.025 na Bahia; Luan Monteiro, 2.777 no Rio de Janeiro; Bruno Pedreiro, 2.413 em Santa Catarina; Adriano Funileiro, 1.525 no Paraná; Henrique Áreas, 1.464 em Minas Gerais; e Danilo da Silva, 1.217 em Goiás.
Só esse recorte, que está longe de reunir todos os votos dados ao PCO no País, já supera em mais de três vezes os 15.019 atribuídos a Rui para presidente.
Santa Catarina oferece o exemplo mais impressionante. Caroline Sant Anna, a Carol, recebeu 11.975 votos para o Senado. Rui teve apenas 643 votos presidenciais no estado. Mesmo admitindo que todos os 643 eleitores de Rui tenham votado também em Carol, pelo menos 11.332 pessoas escolheram a candidata do PCO ao Senado e não fizeram a mesma escolha na votação para presidente.
Bruno Pedreiro, candidato do PCO ao governo catarinense, recebeu 2.413 votos. Novamente tomando a hipótese mais favorável à coincidência entre as duas votações, pelo menos 1.770 eleitores de Bruno não aparecem na votação presidencial de Rui.
No Paraná, Marcelo Marcelino recebeu 9.194 votos para senador. Adriano Funileiro teve 1.525 para governador. Rui terminou a eleição presidencial no estado com 917. Se todos os seus eleitores também tivessem escolhido Marcelo para o Senado, ainda haveria 8.277 votos no candidato do PCO ao Senado sem correspondência possível na votação de Rui.
Goiás permite uma comparação ainda mais simples, pois cada eleitor vota uma vez para governador e uma vez para presidente. Danilo da Silva recebeu 1.217 votos para o governo estadual. Rui teve somente 260.
Isso significa que, mesmo supondo que todos os 260 votos de Rui tenham vindo de eleitores de Danilo, pelo menos 957 pessoas escolheram o PCO para governador e abandonaram a candidatura presidencial do mesmo Partido. Mais de três quartos dos eleitores de Danilo teriam feito essa opção.
Na Bahia, Maria Bona teve 4.025 votos para governadora e Marcelo Millet 4.918 para senador. Rui apareceu com 724 votos. No primeiro caso, pelo menos 3.301 votos dados à candidatura estadual do PCO não encontram correspondência possível na votação presidencial. No segundo, a diferença chega a 4.194.
Há ainda o voto de legenda. Esse dado elimina uma explicação possível para parte da diferença: a de que determinadas pessoas teriam votado num candidato local exclusivamente por conhecê-lo ou simpatizar com sua atuação pessoal.
No voto de legenda não existe candidato individual. O eleitor digita diretamente o número do Partido.
Na eleição para deputado federal, o PCO recebeu 317 votos de legenda no Ceará, 285 no Rio de Janeiro, 137 em Santa Catarina e 69 no Distrito Federal. São 808 votos diretamente no número 29 em apenas quatro unidades da Federação, sem contar os votos nominais nos candidatos.
O Ceará é particularmente curioso. Houve 317 votos diretamente na legenda do PCO para deputado federal. Rui recebeu 498 votos para presidente no estado inteiro. O voto puramente partidário em apenas um dos cargos proporcionais corresponde, sozinho, a quase dois terços de toda a votação presidencial do candidato nacional do Partido.
O chamado “voto útil” em Lula certamente pode ter retirado votos da candidatura de Rui. Na reta final da campanha, militantes e apoiadores do PT fizeram intensa pressão para concentrar votos em Lula já no primeiro turno, inclusive sobre eleitores que manifestavam apoio ao PCO.
Isso pode explicar uma parte da diferença. Não explica automaticamente qualquer número.
Em Santa Catarina e Goiás, por exemplo, Lula nem sequer foi o candidato presidencial mais votado. Aceitar o “voto útil” como explicação geral significaria presumir, sem verificar, que milhares de eleitores escolheram candidatos do PCO nos cargos estaduais para, imediatamente depois, distribuir seus votos presidenciais entre Lula, Flávio Bolsonaro e outras candidaturas.
O resultado precisa ser examinado onde ele efetivamente foi produzido: município por município, zona por zona e seção por seção.
Quantas seções registraram votos para candidatos do PCO, mas nenhum voto para Rui? Onde aparecem os maiores desníveis? Há municípios nos quais o Partido obteve votação expressiva para governador, senador ou deputado e praticamente desapareceu na disputa presidencial? Como se comportam os votos de legenda nessas mesmas urnas?
Antes de tratar os 15.019 votos de Rui Costa Pimenta como um resultado perfeitamente normal, é preciso conferir as urnas e descobrir como essa diferença foi produzida.





