O primeiro turno produziu uma avaliação quase unânime nos principais jornais do País: Lula sofreu uma derrota política, Flávio Bolsonaro saiu fortalecido e a direita avançou muito além da disputa pelo Palácio do Planalto. As diferenças aparecem na explicação para o resultado e naquilo que cada jornal considera mais grave. Sobre o fato principal, há pouca divergência.
Com 99,99% das urnas apuradas até a madrugada desta segunda-feira (5), Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos, contra 53.876.617 de Lula, 45,16%. A diferença foi de 2.227.651 votos. O candidato do PL, que durante grande parte da campanha aparecia atrás nas pesquisas, terminou o primeiro turno em primeiro lugar.
A Folha de S.Paulo reconheceu imediatamente o tamanho da derrota governista. O editorial Flávio e a direita mostram força nas urnas, publicado ainda no domingo, insistiu nas críticas feitas durante a campanha ao candidato do PL, mas teve de admitir que a votação não poderia ser tratada como um fenômeno pessoal de Flávio. A direita também avançou nos governos estaduais e no Congresso.
Igor Gielow escreveu que os erros sucessivos de Lula e uma “onda bolsonarista” deixaram o presidente encurralado. Marco Antonio Carvalho Teixeira avaliou que Flávio chega ao segundo turno em situação mais confortável: pode explorar o antipetismo, enquanto Lula precisa recuperar votos. O colunista apontou ainda o caso envolvendo Lulinha e a ausência do presidente no último debate entre os fatores que agravaram a situação.
A Folha publicou também análise da cientista política Vanessa Elias de Oliveira sob o título Avalanche da direita nos estados tem método. Segundo os números apresentados no artigo, 12 governadores de direita ou centro-direita saíram das urnas contra apenas três de esquerda ou centro-esquerda. No Senado, a relação apresentada foi de 32 a 11. A autora relacionou o crescimento conservador, entre outros fatores, ao desgaste do Judiciário e ao aumento da desconfiança no STF.
Esse ponto apareceu também em reportagem da área econômica do jornal. Empresários ouvidos pela Folha citaram cansaço com o PT, endividamento, segurança pública e a atuação do STF e do TSE como razões para o voto na direita. Um deles chegou a dizer que o Supremo havia sido “o grande eleitor” do domingo. Depois de anos em que boa parte da imprensa apresentou a intervenção do STF na política como instrumento de defesa da “democracia”, começava a aparecer a hipótese de que essa mesma atuação produziu uma reação eleitoral.
No Estadão, o resultado foi tratado como um problema de grandes proporções para Lula. A Coluna do Estadão afirmou que o presidente entrava na etapa mais difícil de sua campanha e talvez de toda a sua trajetória política. Lula chega ao segundo turno atrás, desgastado e com menos condições de atrair os partidos do chamado Centrão.
O jornal paulista destacou também que o governo utilizou medidas econômicas e ampliação de gastos na reta final da campanha sem conseguir garantir a liderança. A observação toca num problema que o próprio governo procurou esconder: o aumento do Bolsa Família, o Desenrola e outras medidas anunciadas às vésperas da eleição não conseguiram compensar o desgaste acumulado durante o mandato.
Eliane Cantanhêde foi mais longe. Em sua coluna no Estadão, classificou o domingo como o início de um novo e “perigoso” ciclo político. Para ela, a eleição marcou uma recuperação do bolsonarismo e uma derrota do PT e da esquerda. Citou como sinais desse movimento a votação de Flávio, a eleição de Sérgio Moro no Paraná, o avanço do PL no Senado e a mudança na relação de forças entre o Congresso e o STF.
N’O Globo, a cobertura após a apuração destacou sobretudo a trajetória inesperada de Flávio Bolsonaro. O jornal lembrou que o candidato começou a campanha desacreditado inclusive por setores do PT e sem conseguir reunir formalmente os partidos do Centrão. Passou ainda por crises envolvendo Daniel Vorcaro e sua própria família. Mesmo assim, terminou o primeiro turno na liderança.
Lula percorreu o caminho contrário. Entrou na fase decisiva pressionado pelos casos envolvendo Lulinha e pelo desgaste do STF. Quando Flávio encostou nas pesquisas, o governo anunciou uma série de medidas às pressas. O Globo classificou parte delas como “pacote de bondades”. O efeito foi insuficiente para levar o presidente ao primeiro lugar.
No Metrópoles, Matheus Leitão tratou o domingo como uma “onda de direita”. Para ele, o problema de Lula vai além da eleição presidencial. O crescimento do PL no Senado e as vitórias conservadoras nos estados indicam que, mesmo numa eventual vitória petista no segundo turno, o próximo governo enfrentará um Congresso ainda mais hostil.
O colunista classificou o resultado como uma forte derrota para o governo e criticou a estratégia eleitoral petista. O argumento ganha força quando se observa o mapa estadual. Tarcísio de Freitas venceu novamente em São Paulo já no primeiro turno, a direita conquistou posições importantes no Senado e Sérgio Moro venceu no Paraná. A votação de Flávio aparece, portanto, como parte de um movimento mais amplo.
O Metrópoles também se debruçou sobre o erro das pesquisas. A avaliação publicada pelo portal foi a de que parte dos eleitores que apareciam com Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e outros candidatos terminou concentrando o voto em Flávio Bolsonaro. O voto útil da direita teria ocorrido de maneira mais intensa nas horas finais.
O Poder360 chegou a uma conclusão semelhante sobre a dimensão nacional do resultado. Jânio de Freitas classificou o avanço conservador como “sem precedentes” na história democrática recente. Sua análise destacou particularmente o Senado, onde a direita conquistou parcela expressiva das cadeiras em disputa.
O portal também comparou diretamente 2026 com 2022. Quatro anos atrás, Lula terminou o primeiro turno 5,23 pontos percentuais à frente de Jair Bolsonaro. Agora, o bolsonarismo virou a posição e Flávio chegou à segunda etapa na liderança. A distância entre os dois primeiros colocados foi a menor desde a redemocratização.
A grande imprensa passou a madrugada procurando as razões para aquilo que as urnas tornaram impossível esconder. Parte das respostas está espalhada em suas próprias colunas: desgaste do governo, insatisfação popular, crise do STF, rejeição ao PT e ausência de uma mobilização política capaz de atrair os trabalhadores. O resultado de domingo não criou esses problemas. Apenas os transformou em votos.



