Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno da eleição presidencial à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Com praticamente todas as urnas apuradas, o candidato do PL alcançou 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. Foram cerca de 56,1 milhões de votos para Flávio e 53,9 milhões para Lula. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
O dado mais importante não é apenas a dianteira de Flávio, mas a queda de Lula. Em 2022, o petista obteve 57,2 milhões de votos no primeiro turno. Quatro anos depois, já instalado no Palácio do Planalto, perdeu aproximadamente 3,4 milhões. Sua porcentagem caiu de 48,43% para pouco mais de 45%. O presidente chega ao segundo turno em situação pior do que estava antes de assumir o governo.
Durante meses, ministros, dirigentes petistas e economistas ligados ao governo repetiram que Lula chegaria fortalecido à eleição porque o PIB crescia, o desemprego oficial caía e alguns indicadores de renda apresentavam melhora. Quando esse suposto sucesso não aparecia nas pesquisas de opinião, surgia a explicação conveniente: o governo não estava sabendo comunicar suas realizações. A população respondeu nas urnas.
O Diário Causa Operária vinha insistindo nesse problema havia mais de dois anos. Em 2024, ao discutir os números econômicos apresentados pelo governo, publicou O povo não come estatísticas, retomando uma conhecida observação de Maria da Conceição Tavares: “ninguém come PIB, come alimentos”. A distância entre os balanços apresentados pelo governo e a vida cotidiana de milhões de trabalhadores já aparecia como um problema político muito antes da campanha presidencial.
Em janeiro de 2026, quando setores governistas voltaram a tratar a baixa popularidade de Lula como um problema de comunicação, o DCO publicou Propaganda ruim, sim, mas e a política?. A questão principal estava na política aplicada: salários baixos, empregos ruins, endividamento, juros elevados e uma enorme massa de trabalhadores vivendo de ocupações informais ou instáveis.
A propaganda podia ser ruim. Mas uma propaganda genial também não resolveria o problema.
O governo insistiu na direção contrária. Em vez de reconhecer que havia uma crise real com sua base social, procurou encontrar técnicas melhores de vender aquilo que já estava fazendo. As dificuldades eleitorais eram atribuídas às redes sociais, às notícias falsas, ao domínio da direita na Internet ou à suposta incapacidade do povo de perceber as realizações do governo.
Essa explicação tinha uma vantagem para os dirigentes do PT: dispensava qualquer balanço sério. Se o problema era comunicação, não era preciso mudar a política econômica, romper com os banqueiros, aumentar radicalmente os salários ou mobilizar os trabalhadores contra a direita. Bastava contratar publicitários melhores.
A eleição mostrou o absurdo dessa tese. A situação ficou tão evidente que, nas últimas semanas da campanha, o próprio governo começou a abandonar a tranquilidade transmitida durante boa parte do ano. Depois de mais de três anos mantendo o piso do Bolsa Família em R$600, Lula anunciou um reajuste para R$691 a apenas 17 dias da votação. Poucas semanas antes, a proposta de Orçamento enviada ao Congresso não previa esse aumento.
A pressa revelava o problema. Se a economia estava funcionando tão bem para a população, por que foi necessário anunciar às vésperas da eleição um aumento que não havia sido concedido durante praticamente todo o mandato?
Vieram também uma nova rodada do Desenrola e a proibição das bets. Medidas diferentes entre si, mas unidas pelo mesmo objetivo eleitoral: produzir fatos de última hora capazes de alterar uma disputa que escapava ao controle do governo.
Nem isso produziu o resultado esperado. Pesquisa divulgada nos últimos dias da campanha indicava que apenas 1% dos entrevistados admitia mudar seu voto por causa da proibição das apostas.
Quando os expedientes econômicos de última hora não bastaram, a campanha avançou ainda mais para o terreno do medo e do moralismo. Em vez de apresentar reivindicações capazes de entusiasmar os trabalhadores, procurou-se transformar a eleição numa escolha entre Lula e uma ameaça supostamente absoluta representada por Flávio Bolsonaro.
O problema da esquerda não é que ela tenha explicado pouco os perigos da direita. Ela passou anos falando quase exclusivamente disso. O problema é ter feito muito pouco para apresentar uma política independente que interessasse diretamente aos trabalhadores.
A própria composição do governo já expressava essa contradição. Lula passou quatro anos governando ao lado de Geraldo Alckmin, antigo adversário do PT, representante da direita tradicional e símbolo da frente ampla. A orientação apresentada como necessária para derrotar o bolsonarismo significou, na prática, aproximar o governo dos mesmos setores da burguesia responsáveis por décadas de ataques contra os trabalhadores.
A direita não desapareceu. Cresceu. A votação de Flávio Bolsonaro não deve ser apresentada como se o candidato do PL tivesse se transformado em representante dos interesses populares. Seu programa não oferece uma saída para os problemas fundamentais da classe trabalhadora. O que sua votação mostra é outra coisa: a política adotada pelo PT abriu um enorme espaço para que a direita canalizasse a insatisfação existente.
Esse é o verdadeiro tamanho do fracasso. Lula não enfrentou esta eleição depois de quatro anos de grandes mobilizações populares, aumento geral dos salários, redução da jornada de trabalho, combate aos juros bancários e confrontos com os grandes capitalistas. Chegou às urnas depois de um governo de conciliação, tentando convencer o eleitor de que números macroeconômicos deveriam ser suficientes para garantir sua aprovação.
Quando as pesquisas começaram a piorar, o governo tentou compensar quatro anos com algumas semanas de medidas eleitorais. Quando isso se mostrou insuficiente, intensificou a campanha contra o perigo da direita. E quando o eleitor continuou demonstrando descontentamento, setores da esquerda começaram novamente a insinuar que o problema estava na população, que não compreenderia aquilo que o governo havia feito por ela.
O primeiro turno desmontou essa desculpa. Não foi o trabalhador que fracassou em compreender o governo. Foi o governo que fracassou em apresentar uma política capaz de modificar de maneira decisiva a vida do trabalhador.
O governo tentou vender números. O eleitor respondeu com números.





