Eleições 2026

Partido anti-identitário dos EUA saúda PCO

Dirigente do American Communist Party participou diretamente de Moscou e debateu Palestina, imperialismo, petróleo, energia e as relações entre o ACP e o PCO

Um dos primeiros convidados internacionais da Superlive realizada pela Causa Operária TV neste sábado (3) foi o norte-americano Jackson Hinkle, secretário de Relações Internacionais do American Communist Party (ACP). Participando diretamente de Moscou, na Rússia, Hinkle conversou com os apresentadores da COTV sobre a luta contra o imperialismo, a resistência palestina, o desenvolvimento dos países oprimidos e, particularmente, a importância do controle nacional sobre as fontes de energia.

A participação ocorreu ainda no começo da longa programação organizada pela COTV para o último dia da campanha eleitoral. Hinkle havia sido apresentado anteriormente como um dos principais convidados internacionais da transmissão. A COTV destacou sua atuação no ACP e suas recentes viagens por países envolvidos diretamente na luta contra o imperialismo, como Iêmen, Líbano e Irã.

Quando apareceu na tela, Hinkle confirmou que estava em Moscou. A conversa foi realizada em inglês devido ao pouco tempo disponível do convidado, com a equipe anunciando que providenciaria posteriormente uma versão legendada.

O primeiro tema foi justamente a aproximação entre o ACP e o Partido da Causa Operária.

A apresentadora lembrou que, quando a criação do Partido Comunista Americano foi repercutida no Brasil, setores da esquerda reagiram com enorme hostilidade. Alguns chegaram a ironizar a organização como uma espécie de “PCO norte-americano”.

Hinkle respondeu em tom bem-humorado que considerava esse tipo de acusação quase uma homenagem.

“Acho que é horrível se você se recusa a capitular e apoiar, no meu caso, o Partido Democrata, que colabora constantemente com o grande capital. Então eu considero isso uma medalha de honra”, declarou.

O dirigente norte-americano chamou atenção para as semelhanças existentes entre os ataques recebidos pelas duas organizações. Apesar das diferenças de origem e tradição política, ACP e PCO vêm se aproximando principalmente em torno da luta contra o imperialismo, da defesa dos países oprimidos e da rejeição à adaptação da esquerda aos partidos tradicionais da burguesia.

Um dos primeiros exemplos discutidos foi a Palestina.

A COTV comentou a publicação do Times of Israel que havia incluído Rui Costa Pimenta entre candidatos brasileiros identificados pelo jornal como fortemente contrários a “Israel”. Hinkle observou que existem diferentes níveis de apoio à Palestina e destacou especificamente a posição adotada pelo PCO.

“Há uma grande diferença entre alguém dizer: ‘eu apoio uma Palestina livre, acho ruim o que está acontecendo em Gaza’, e o nível de compreensão e de apoio estratégico que precisa ser oferecido à resistência palestina, que é o que o PCO oferece”, afirmou.

A questão serviu de gancho para uma discussão mais geral sobre o estado da esquerda nos Estados Unidos e no Brasil.

Hinkle afirmou que, ao conversar com militantes de partidos da esquerda brasileira, ficou impressionado com a centralidade dada a questões identitárias e com a pouca atenção dispensada, segundo ele, a temas como o enfrentamento ao grande capital e ao imperialismo.

“Eu ouvia muito sobre essas questões de política identitária baseada em gênero, mas não ouvia muito sobre a necessidade de enfrentar seriamente o grande capital, enfrentar os interesses imperialistas”, disse.

Para Hinkle, problema semelhante ocorre nos Estados Unidos. O dirigente do ACP afirmou que setores da chamada esquerda liberal se tornaram subordinados ao Partido Democrata e abandonaram questões fundamentais relacionadas à soberania, à classe trabalhadora e ao imperialismo.

A conversa chegou então a um dos pontos centrais da participação: os recursos naturais.

Os apresentadores explicaram a Hinkle a polêmica brasileira em torno da exploração de petróleo e destacaram o contraste entre a enorme riqueza existente no País e as condições de pobreza de uma parcela significativa da população.

Também foi mencionada a campanha conduzida por setores ambientalistas contrários à exploração de determinados recursos naturais.

Hinkle respondeu relacionando diretamente o desenvolvimento econômico à produção de energia.

“A qualidade de vida está diretamente ligada à quantidade de energia que um país, que uma sociedade, consegue produzir”, afirmou.

Segundo ele, essa questão costuma ser tratada de forma invertida. Embora problemas ambientais precisem ser considerados, a ausência de energia também constitui um enorme problema humano nos países atrasados.

Hinkle citou como exemplo populações que dispõem de um consumo diário de energia extremamente pequeno em comparação com os Estados Unidos e outros países desenvolvidos.

Para ele, a discussão decisiva não é simplesmente se petróleo, gás, energia nuclear ou outras fontes devem ser explorados, mas quem controla essas riquezas e quem se beneficia delas.

Foi neste momento que Hinkle fez uma das afirmações mais marcantes da entrevista:

“Mas não é exploração se você nacionaliza, certo? Não sei por que isso é tão difícil para algumas pessoas entenderem. Se você nacionaliza, então qual é o problema? A qualidade de vida vai subir e você também terá consequências fiscais positivas.”

A declaração foi feita em resposta à defesa apresentada pelos integrantes da COTV da exploração dos recursos brasileiros acompanhada de sua nacionalização.

Os apresentadores explicaram que o Brasil reúne condições excepcionais para produzir energia. O País possui petróleo, rios de grande capacidade hidroelétrica, minerais estratégicos, urânio e uma ampla variedade de recursos naturais.

Ao mesmo tempo, milhões de brasileiros convivem com contas de eletricidade e combustíveis extremamente caros.

A contradição, segundo a discussão realizada na Superlive, está precisamente no fato de que a existência de recursos naturais em abundância não significa que eles estejam efetivamente colocados a serviço da população.

Hinkle estabeleceu então uma comparação com a atuação da Rússia e da China nos países oprimidos.

O dirigente do ACP mencionou projetos russos relacionados à energia nuclear no Irã e em países africanos e também a iniciativa chinesa do Cinturão e Rota. Para ele, essas relações são fundamentalmente diferentes da política das grandes potências imperialistas ocidentais.

Em contraste, acusou organizações ligadas aos Estados Unidos de promover campanhas contra o desenvolvimento energético de países pobres.

“Organizações ambientalistas e ONGs financiadas por alguns dos bilionários mais corruptos que se pode imaginar estão dizendo ao Brasil: ‘não, vocês não têm permissão para desenvolver seus recursos energéticos’”, afirmou.

Hinkle relacionou essa política aos ataques contra a infraestrutura energética de países africanos e do Oriente Médio.

Segundo ele, gasodutos, oleodutos e instalações estratégicas tornam-se frequentemente alvos precisamente porque o desenvolvimento nacional desses países entra em choque com os interesses dos grandes monopólios ocidentais.

A discussão sobre energia acabou ocupando a maior parte da curta passagem de Hinkle pela Superlive.

Mesmo falando dos recursos naturais, entretanto, o dirigente norte-americano voltou repetidamente ao problema do imperialismo.

Para ele, impedir que países atrasados explorem petróleo, energia nuclear e outras riquezas significa condená-los a permanecer dependentes das grandes potências.

A posição encontrou forte convergência com o programa defendido pelo PCO, que coloca a reestatização dos recursos estratégicos e a exploração das riquezas nacionais entre seus pontos centrais.

No final da entrevista, Hinkle foi questionado sobre as eleições brasileiras.

Os apresentadores explicaram que o PCO havia decidido lançar candidatura própria diante de suas divergências com o governo Lula e com a direita bolsonarista. Hinkle então apresentou sua avaliação pessoal sobre a disputa.

Ele declarou considerar o PCO uma alternativa aos dois principais campos eleitorais e relacionou essa avaliação justamente aos assuntos discutidos durante a entrevista: soberania nacional, controle dos recursos naturais e liberdade de expressão. A declaração foi feita por Hinkle como sua posição política sobre a eleição brasileira.

O norte-americano ressaltou, porém, a condição peculiar de estar opinando sobre a eleição de outro país.

“Eu não quero entrar demais nos detalhes porque sou americano e quem diabos se importa com o que um americano pensa sobre as eleições no Brasil?”, brincou.

Segundo Hinkle, existem paralelos entre o cenário político norte-americano e o brasileiro, principalmente na crescente insatisfação com os grandes partidos tradicionais.

A aproximação entre o ACP e o PCO seria, nesse sentido, também resultado de uma crise política mais ampla.

De um lado, o ACP procura construir uma organização comunista independente do Partido Democrata nos Estados Unidos. De outro, o PCO se coloca contra a política da frente ampla e procura desenvolver uma política independente da burguesia no Brasil.

Mesmo partindo de tradições diferentes, as organizações encontraram terreno comum especialmente na luta anti-imperialista.

No encerramento, a conversa voltou ao tom descontraído.

Os apresentadores brincaram com a possibilidade de perseguição política e perguntaram a Hinkle se Moscou poderia servir de destino caso algum deles precisasse deixar o País.

Hinkle respondeu:

“Não é um lugar ruim para estar. Vocês são bem-vindos aqui.”

A COTV agradeceu sua presença e manifestou a expectativa de ampliar a colaboração com o American Communist Party.

A participação acabou durando pouco menos de 20 minutos, mas passou por algumas das questões mais importantes que vêm aproximando as duas organizações: Palestina, luta contra o imperialismo, recursos naturais, desenvolvimento econômico e independência política diante dos grandes partidos burgueses.

Ao fim, a equipe explicou que Hinkle dispunha de pouco tempo e que, por isso, a conversa havia sido realizada inteiramente em inglês. A produção anunciou ainda que prepararia uma versão legendada para o público brasileiro.

A discussão mostrou sobretudo uma concepção bastante clara sobre o problema do desenvolvimento dos países oprimidos.

Não basta possuir petróleo, gás, minérios, rios ou capacidade energética. Se essas riquezas forem controladas por monopólios estrangeiros ou impedidas de serem utilizadas, sua existência pouco melhora a vida da população.

Por isso, ao ser confrontado com a ideia de que a exploração dos recursos naturais seria necessariamente prejudicial ao povo, Hinkle respondeu colocando no centro justamente o problema da propriedade:

“Se você nacionaliza, então qual é o problema?”

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