Eleições 2026

Monark: ‘para defender o direito de todos nós, nós temos que defender o direito dos piores de nós’

Comunicador participou por mais de uma hora da transmissão, falou sobre perseguição judicial, liberdade de expressão, eleições, bets, Palestina e seu novo programa

Bruno Aiub, o Monark, foi um dos convidados que mais despertaram expectativa na Superlive realizada pela Causa Operária TV neste sábado (3). O comunicador participou por mais de uma hora da transmissão e protagonizou uma conversa extensa sobre liberdade de expressão, censura, Judiciário, eleições, apostas, redes sociais e a perseguição política que afirma sofrer.

Antes mesmo de sua entrada, sua participação já movimentava a audiência. Logo no começo da Superlive, integrantes do público perguntavam no chat quando Monark apareceria. Mais tarde, a COTV informou que o anúncio de sua presença havia sido uma das publicações sobre convidados com maior repercussão nas redes sociais.

Ao entrar no programa, Monark encontrou João Pimenta e Adriana Machado. O clima, apesar dos assuntos que seriam discutidos em seguida, foi descontraído desde os primeiros minutos. Houve brincadeiras sobre problemas técnicos e sobre a possibilidade de a própria transmissão enfrentar dificuldades justamente pela presença de um personagem submetido nos últimos anos a sucessivas controvérsias e processos.

O primeiro assunto foi o novo projeto de Monark. O comunicador explicou que voltou a realizar entrevistas em um programa próprio e que vem recebendo convidados dos mais diferentes campos políticos.

Segundo ele, já passaram pelo programa Rui Costa Pimenta, Breno Altman, Jones Manoel e figuras ligadas à direita e ao empresariado. A proposta, afirmou, é novamente colocar pessoas de posições muito diferentes diante dos microfones.

“Meu programa está abrindo espaço para os dois lados”, declarou.

Ele explicou ainda que parte das entrevistas é disponibilizada inicialmente de forma aberta nas redes sociais, enquanto o conteúdo integral integra seu projeto por assinatura.

A conversa rapidamente passou para a situação política do País. Monark afirmou que perdeu a confiança no processo eleitoral brasileiro e declarou não acreditar que a população tenha efetivamente o controle das principais decisões políticas.

Foi uma das primeiras declarações que deram o tom de toda a sua participação.

“Eu não vejo como democracia esse País, eu vejo como uma ditadura, porque, mesmo que o político vença, ele não vai conseguir colocar as suas ideias em prática, porque, se for uma ideia contra o Judiciário, o Judiciário vai só canetar e barrar.”

A afirmação expressa a avaliação de Monark sobre o atual funcionamento das instituições; não foi apresentada durante a live como conclusão baseada em uma demonstração específica sobre a eleição de 2026. Para ele, porém, o principal problema estaria justamente no enorme poder de instituições que não são escolhidas diretamente pela população.

Monark também comentou a relação curiosa que desenvolveu com setores do PCO nos últimos anos. Embora tenha uma trajetória política muito diferente da do Partido, disse que encontra principalmente entre pessoas de direita comentários positivos sobre a coerência do PCO.

“Sempre quando eu comento para um pessoal mais à direita sobre o PCO, eles normalmente elogiam vocês. A maioria diz que vocês são coerentes no que vocês defendem.”

A aproximação entre o comunicador e a Causa Operária ocorreu principalmente em torno da defesa da liberdade de expressão. O PCO se colocou publicamente contra a censura a Monark mesmo discordando de muitas de suas posições políticas.

Esse foi justamente o assunto que dominou grande parte da conversa.

Em setembro, Monark foi condenado em primeira instância a pagar R$100 mil por danos morais coletivos por suas declarações feitas em 2022 sobre a possibilidade de legalização de um partido nazista. A indenização foi determinada pela 37ª Vara Cível Central de São Paulo e a defesa anunciou que recorreria. O caso teve uma trajetória incomum: meses antes, um promotor do Ministério Público havia defendido a improcedência da ação, entendendo que Monark fizera uma defesa abstrata da liberdade de expressão, e não uma defesa do nazismo; depois, outro promotor retomou o pedido de condenação.

Durante a Superlive, Monark apresentou sua versão do episódio e insistiu que nunca defendeu a ideologia nazista.

“Não recomendo a juíza a seguir em frente com esse processo, porque claramente o Monark não fez apologia ao nazismo, tanto que tem partes do episódio que eu falo que o nazismo é do demônio e foi mais uma defesa da liberdade de expressão irrestrita que permitiria ter partidos odiosos como o dos nazistas”, disse, ao relatar o entendimento que havia sido apresentado pelo promotor anterior.

Monark lembrou ainda que o primeiro integrante do Ministério Público a se manifestar dessa maneira deixou o caso e foi alvo de procedimento disciplinar. De fato, a Corregedoria-Geral do MP-SP abriu apuração contra o promotor que defendera a improcedência da ação; posteriormente, outro representante do Ministério Público voltou a pedir a condenação.

Para Monark, o episódio demonstra como indenizações de valores elevados podem funcionar, na prática, como um mecanismo para retirar pessoas do debate público.

Foi então que pronunciou uma das frases mais fortes de sua participação:

“É uma forma de censura que eles estabeleceram para caçar as pessoas que eles querem tirar do discurso público. E, se eles tiverem que falir essas pessoas, eles vão falir essas pessoas.”

A COTV lembrou que a defesa da liberdade de expressão do comunicador não significa apoio ao nazismo. O próprio Monark reiterou diversas vezes sua rejeição à ideologia e sustentou que o ponto em discussão é justamente se o Estado pode proibir uma posição política antes mesmo que ela consiga se submeter ao debate público.

A conversa recuperou casos históricos nos Estados Unidos em que organizações de defesa das liberdades civis atuaram judicialmente para garantir direitos de manifestação até mesmo a grupos nazistas.

Monark declarou:

“A questão é que, se o pior de nós tem o direito de falar, então todos nós temos o direito de falar. Para defender o direito de todos nós, nós temos que defender o direito dos piores de nós.”

Outro assunto discutido foi a Palestina.

Questionado sobre o conflito e sobre sua posição em relação a “Israel”, Monark disse considerar possível tanto a existência de dois Estados quanto uma integração da população palestina com direitos políticos iguais. Também afirmou preferir um Estado secular a um Estado organizado segundo uma religião oficial.

“Eu prefiro o Estado laico. Eu acho que o Estado tem que ser para todo mundo e o Estado não pode forçar você a ter uma visão religiosa”, declarou.

A formulação não coincide integralmente com a posição defendida pelo PCO, que sustenta uma Palestina única, laica e democrática em todo o território histórico, mas o diálogo transcorreu sem tentativa de esconder a divergência. Monark afirmou, ao final do trecho, que desejaria que palestinos e judeus pudessem viver sem a guerra e com direitos políticos.

A discussão passou ainda pela campanha que transformou Monark em uma das figuras mais rejeitadas por setores da esquerda.

Questionado sobre o motivo dessa hostilidade, ele respondeu que considera ter sido alvo de uma ampla campanha de destruição de reputação depois do episódio de 2022.

“Eu não tenho nada de nazista, para ser sincero. Nunca tive, nunca falei nada em favor do nazismo. Foi feita uma campanha de difamação minha.”

Monark recordou que os participantes do episódio original não reagiram a sua declaração como se estivessem diante de uma defesa efetiva do nazismo. Segundo ele, a transformação do caso em um escândalo de grandes proporções ocorreu posteriormente, com a repercussão da imprensa.

A COTV aproveitou o tema para discutir o efeito dessa repressão sobre os podcasts e outros programas independentes. Monark avaliou que a experiência de sua perseguição provocou medo em muitos comunicadores.

“Eu acho que os podcasts gerais perderam um pouco da relevância porque as pessoas ficaram com medo. Depois do que aconteceu comigo, eu servi muito de exemplo para fazer com que os hosts quisessem controlar a sua narrativa, a sua forma de pensar as ideias, para não atrair essa máquina que me destruiu para destruir eles também.”

Para ele, o resultado é uma comunicação mais controlada e com menor disposição para receber figuras realmente controversas.

Outro momento descontraído surgiu quando a conversa passou para as bets.

Monark foi perguntado diretamente se apoiava a proibição das apostas. Sua resposta foi negativa. Ele fez uma distinção entre considerar a atividade ruim e defender que o Estado a proíba.

“Eu não sou a favor de proibir bets. Eu sou contra no sentido que, se eu tivesse um filho ou tiver um amigo, eu não vou falar para ele usar esse tipo de serviço. Eu vou informar para ele que está desperdiçando o dinheiro dele. Mas eu não acho que o Estado deveria proibir isso de existir.”

Em seguida, resumiu a posição de maneira ainda mais direta:

“Eu acho bet ruim, mas sou a favor de legalizar.”

O assunto levou a uma conversa sobre pôquer, apostas esportivas, financiamento de clubes de futebol e publicidade. Entre momentos mais leves, a discussão mantinha o mesmo fio condutor da participação de Monark: sua concepção de que o Estado deve interferir o mínimo possível nas escolhas individuais.

Mais adiante, a Superlive entrou novamente no terreno da censura.

Monark sustentou que a liberdade de expressão é indispensável para qualquer regime que pretenda se apresentar como democrático. Para ele, permitir que o Estado determine previamente quais ideias podem circular acaba entregando justamente aos governantes um instrumento que poderá depois ser utilizado contra seus adversários.

Foi um dos temas em que a conversa mostrou maior proximidade entre ele e o PCO, embora partindo de tradições políticas inteiramente diferentes.

A discussão também passou pela Internet, pelos algoritmos e pelo funcionamento das grandes empresas de tecnologia. Monark afirmou acreditar que as plataformas conseguem manipular fortemente o comportamento do usuário por meio das informações que coletam e do conteúdo que distribuem.

Em determinados momentos, ele apresentou hipóteses muito mais amplas sobre agências de inteligência e grandes empresas. Essas afirmações foram apresentadas como suas próprias interpretações e, em alguns casos, ele mesmo as chamou explicitamente de “teorias da conspiração”, enquanto os apresentadores da COTV registraram divergências.

Esse aspecto deu à conversa uma característica diferente de uma entrevista tradicional. Em vez de interromper imediatamente o convidado sempre que discordava, a COTV deixou Monark desenvolver seu raciocínio e, depois, apresentou objeções.

O comunicador, por exemplo, sustentou que serviços de inteligência utilizam seus recursos tecnológicos, financeiros e militares para influenciar sociedades.

“Eu acho que a maior teoria da conspiração é acreditar que isso não existe”, afirmou.

A discussão chegou a Edward Snowden, espionagem digital, coleta de dados, grandes centros de processamento e empresas de tecnologia. Monark especulou ainda sobre uma possível cooperação entre diferentes serviços de inteligência mundiais. Nesse ponto, o apresentador da COTV fez questão de registrar que não concordava com essa hipótese, embora considerasse legítimo compreender de onde vinha o raciocínio do convidado.

Essa dinâmica resumiu boa parte da participação.

Monark esteve na Superlive sem que sua presença implicasse que o PCO concordasse com tudo o que ele dissesse. Houve acordo principalmente sobre a defesa ampla da liberdade de expressão e críticas à censura; houve diferenças sobre outros assuntos, entre eles política internacional.

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