Eleições 2026

A baixaria moralista é a campanha dos derrotados

Nossa Senhora Aparecida, vida sexual e acusações pessoais ocuparam parte da campanha petista, mas pesquisas não mostram mudança decisiva na disputa

Flávio Bolsonaro

A reta final da campanha presidencial foi tomada por uma sucessão de episódios que pouco dizem sobre salário, emprego, endividamento, saúde ou qualquer outro problema concreto vivido pela população. Em poucos dias, Nossa Senhora Aparecida, garotas de programa, festas privadas, religião e acusações sobre a vida pessoal de Flávio Bolsonaro passaram a ocupar espaço importante na ofensiva política de setores ligados ao PT.

Rui Costa Pimenta criticou essa orientação durante entrevista ao canal Galo Preto, no dia 29 de setembro. Para o presidente nacional do Partido da Causa Operária, a campanha petista passou a recorrer justamente ao tipo de moralismo que durante anos denunciou na direita.

O caso mais evidente foi o de Nossa Senhora Aparecida. Espalhou-se nas redes a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil caso fosse eleito presidente. A informação era falsa. Sua origem estava em um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli e arquivado em 2008. Flávio não foi autor da proposta. A GloboNews, cuja programação ajudou a impulsionar inicialmente a informação, posteriormente fez uma correção.

Mesmo assim, o assunto rapidamente entrou na campanha. Segundo a Folha de S.Paulo, aliados de Lula, entre eles Geraldo Alckmin e Janja, exploraram a polêmica nas redes. Levantamento da Palver mostrou que 37% das mensagens monitoradas tratavam a afirmação como verdadeira e que aproximadamente dois terços das publicações sobre o assunto haviam sido produzidas pela esquerda.

Para Rui, o episódio apresentou duas contradições. A primeira era a utilização eleitoral de uma informação falsa justamente por setores que apoiaram nos últimos anos uma política de repressão judicial às chamadas “fake news”. A segunda era o recurso explícito à religião como instrumento de campanha.

“Todo mundo sabe que é falso. Eu acho que é muito negativo isso do ponto de vista político, porque o PT apoiou o tempo todo a cruzada do Alexandre de Moraes […] a pretexto de fake news. E agora eles estão aí descaradamente utilizando o mesmo recurso.”

O assunto chegou ao Judiciário. André Mendonça, no TSE, ordenou a retirada de publicações que apresentassem como verdadeira a afirmação sobre a padroeira. A decisão deu origem a novos recursos e a divergências entre integrantes do STF e do TSE sobre os limites da remoção de conteúdos durante a eleição.

Rui chamou atenção, porém, para outro aspecto. Ao explorar eleitoralmente a suposta ameaça contra Nossa Senhora Aparecida, parte da esquerda teria passado a recorrer ao mesmo mecanismo de identificação entre voto e religião que tantas vezes criticou no bolsonarismo.

“Isso é uma das maneiras mais vis de fazer política, explorar a fé de pessoas humildes. Todo mundo sabe disso. O PT sabe disso. O PT estava até ontem condenando o bolsonarismo por causa dos protestantes, condenando os pastores.”

Poucos dias depois, outro assunto ganhou espaço.

Reportagem do PlatôBR revelou mensagens e fotografias guardadas por Alexandre Santini, ex-sócio e antigo amigo de Flávio Bolsonaro, que indicariam a participação do candidato em festas privadas com garotas de programa. O material também descrevia conflitos financeiros entre os dois e tentativas de impedir que informações sobre os encontros chegassem à família do senador. Flávio evitou responder naquele momento às perguntas de jornalistas sobre o conteúdo publicado.

O PT decidiu explorar o caso. O perfil oficial do Partido nas redes reproduziu a reportagem e destacou supostas “orgias”, prostitutas, um relógio Rolex e relações com empresários e lobistas. A Folha registrou que integrantes do governo e do partido utilizaram o material como arma contra o candidato do PL.

Rui separou duas coisas na entrevista. Eventuais irregularidades financeiras envolvendo políticos, empresários ou presentes de alto valor seriam problemas públicos e poderiam ser investigados. A vida sexual de um candidato, entretanto, seria outro assunto.

“É uma latrina isso. […] Isso é um tipo de política repugnante.”

Para ele, tentar convencer o eleitor conservador a abandonar Flávio Bolsonaro porque o candidato teria participado de encontros com prostitutas é apostar no moralismo sexual contra o próprio adversário que construiu parte de sua força entre setores religiosos.

Rui lembrou que recursos semelhantes já foram utilizados contra a própria esquerda. Citou a eleição presidencial de 1989, quando Miriam Cordeiro, ex-companheira de Lula e mãe de sua filha Lurian, apareceu no programa eleitoral de Fernando Collor e fez acusações contra o então candidato petista.

Em 28 de setembro, antes da publicação das mensagens sobre as festas privadas, o Datafolha registrava Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 36% das intenções de voto no primeiro turno. A Quaest do mesmo período colocava Lula com 39% e Flávio com 34%, enquanto ambos apareciam com 42% em uma simulação de segundo turno.

Em 3 de outubro, depois de Nossa Senhora, das mensagens envolvendo garotas de programa e de vários dias de exploração desses assuntos, a eleição continuava extremamente apertada. O Datafolha registrava 45% dos votos válidos para Lula e 42% para Flávio; a Quaest apontava 46% a 45%. Ambos os levantamentos colocavam a disputa dentro de margens muito estreitas.

A questão vai além do episódio particular.

Nas campanhas da direita, a associação entre religião, sexualidade e política é bastante comum. O bolsonarismo utilizou amplamente temas como aborto, drogas, costumes, sexualidade e religião para combater o PT e outras organizações da esquerda.

Responder utilizando armas semelhantes produz uma campanha em que desaparece a discussão sobre os interesses sociais representados por cada candidato. O eleitor passa a ser convocado a escolher entre denúncias morais concorrentes: de um lado, acusações sobre religião, sexo e comportamento pessoal; do outro, acusações equivalentes contra dirigentes petistas e setores da esquerda.

Para Rui, esse método também dificulta qualquer tentativa posterior de criticar a direita pelo uso da religião ou da moral sexual, pois a esquerda passa a validar o mesmo terreno político quando acredita que pode utilizá-lo a seu favor.

“Mesmo que ganhar, já perdeu. Isso aí não vai embora.”

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