A quatro dias da eleição presidencial brasileira, um artigo publicado na seção de colaboradores do Times of Israel, um dos órgãos mais tradicionais da burguesia israelense, resolveu caluniar políticos brasileiros que se opõem à política do Estado de “Israel”. Entre vários nomes mencionados, está o de Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República.
O artigo, publicado em 30 de setembro por Lawrence Maximo, tem o título Brazil’s Elections: The Historic Presence of Anti-Israel Candidates. O texto cita Lula, Thiago Ávila, Rui Costa Pimenta e outros políticos e organizações.
No caso de alguns dos citados, aparecem sobretudo declarações, participação em manifestações, viagens políticas ou posições gerais de solidariedade aos palestinos. Isso, por si só, não equivale a estabelecer uma relação política organizada com as principais forças da resistência palestina. Com Rui Costa Pimenta, os próprios fatos mencionados são de outra natureza.
Em fevereiro de 2024, o presidente do PCO viajou ao Catar e reuniu-se pessoalmente com Ismail Hanié, então chefe do birô político do Hamas. A reunião foi pública, posteriormente confirmada à imprensa brasileira e divulgada pelo próprio Partido.
Rui explicou na ocasião que a viagem não tinha como finalidade apenas expressar solidariedade genérica à população palestina. Segundo declarou à Folha de S.Paulo:
“Defendemos a resistência palestina há muito tempo, não é de agora.”
A declaração estabelece uma distinção que frequentemente desaparece no debate brasileiro.
Há setores que defendem ajuda humanitária aos palestinos, outros que defendem um cessar-fogo, outros que denunciam as operações militares israelenses e outros que defendem diplomaticamente a criação de um Estado palestino.
A posição apresentada pelo PCO é mais específica: o Partido reivindica politicamente o direito dos palestinos de resistirem à ocupação e mantém relações públicas com organizações que integram essa resistência.
Durante aquela viagem, Rui não se encontrou apenas com Hanié. O dirigente brasileiro também realizou uma entrevista com Musa Abu Marzuq, fundador e integrante do birô político do Hamas e responsável pelas relações internacionais da organização. O material foi posteriormente publicado integralmente pela Causa Operária TV.
Rui Costa Pimenta não procura esconder essas relações. Ao contrário: o encontro foi divulgado pelo próprio PCO, fotografado, explicado publicamente e transformado posteriormente em material jornalístico. A visita ao Catar foi objeto de programas, artigos e entrevistas do Partido.
É justamente esse caráter aberto que torna peculiar a tentativa de apresentar o episódio como se estivesse sendo revelada alguma ligação obscura. Não há descoberta. Há uma divergência política explícita.
O autor do artigo considera alarmante que um candidato brasileiro se reúna com dirigentes do Hamas e defenda organizações do chamado Eixo da Resistência. Rui Costa Pimenta e o PCO, por sua vez, apresentam essas relações como parte de sua política de oposição ao imperialismo norte-americano e ao sionismo.
O autor afirma que conflitos do Oriente Médio estariam sendo “importados diretamente” para o sistema eleitoral brasileiro. Entretanto, publica, quatro dias antes da votação no Brasil, uma relação nominal de candidatos brasileiros considerados problemáticos justamente por suas posições diante de “Israel”.
Ou seja: enquanto denuncia a entrada da política do Oriente Médio na eleição brasileira, participa precisamente desse debate, classificando candidatos brasileiros segundo suas relações e posições sobre a Palestina.
No caso de Rui Pimenta, isso assume especial importância porque ele não aparece simplesmente como um ativista, parlamentar ou participante de uma mobilização internacional. Ele é candidato à Presidência da República. E sua posição diante da Palestina integra uma política internacional mais ampla defendida publicamente pelo PCO há anos.
O Partido defende o Irã contra as pressões e agressões dos Estados Unidos e de “Israel”, manifesta apoio político ao Ansar Alá no Iêmen, defende o Hesbolá contra ataques israelenses e considera o Hamas uma organização integrante da luta nacional palestina.
O texto do Times of Israel tenta colocar essas atividades dentro de uma grande relação de políticos “anti-Israel”. Mas justamente ao fazê-lo acaba documentando algo mais concreto: entre os candidatos brasileiros citados, Rui Costa Pimenta possui uma política declarada de relações com organizações da resistência palestina e decidiu sustentá-la publicamente, inclusive quando isso significa tornar-se alvo de ataques de publicações e articulistas favoráveis ao Estado de “Israel”.
O que o artigo não explica é por que a Palestina se transformou numa questão política gigantesca no Brasil e no resto do mundo. Segundo a UNICEF, até 30 de junho de 2026 pelo menos 21.700 crianças haviam sido registradas como mortas na Faixa de Gaza desde outubro de 2023.
Mesmo depois do cessar-fogo anunciado em outubro de 2025, a matança não cessou. Em agosto deste ano, a UNICEF informou que pelo menos 300 crianças haviam sido mortas nos 300 dias seguintes ao anúncio do acordo — uma média de uma criança morta por dia.
Em 28 de agosto, a organização voltou a denunciar mortes de crianças em ataques e disparos na Faixa de Gaza. Entre os casos informados estavam meninos de dois e quatro anos, uma menina de dez anos atingida enquanto estava dentro de uma barraca e um adolescente de 16 anos.
Existe ainda um processo movido pela África do Sul contra “Israel” na Corte Internacional de Justiça sob a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. A Corte ainda não proferiu sentença final sobre o mérito, portanto não declarou definitivamente que “Israel” cometeu genocídio. Mas já determinou sucessivas medidas provisórias obrigatórias para proteger os palestinos de Gaza, incluindo ordens relacionadas à prevenção de atos abrangidos pela Convenção. Em maio de 2024, também determinou a interrupção de operações em Rafá nas condições especificadas pela decisão.
Gaza já é uma questão internacional porque suas consequências são internacionais. O próprio artigo demonstra isso involuntariamente. Publicado num portal israelense quatro dias antes do primeiro turno brasileiro, dedica-se a identificar nominalmente candidatos brasileiros, classificá-los segundo suas posições sobre “Israel” e apresentar essas posições ao público como motivo de preocupação.
É difícil imaginar exemplo mais claro daquilo que o próprio texto pretende denunciar: a entrada direta da disputa política envolvendo “Israel” e Palestina no debate eleitoral brasileiro.





