Polêmica

Não é o ódio que governa o Brasil, é uma política de classe

Eugênio Bucci procura nos “afetos” a explicação para a rejeição a Lula e deixa fora da análise a frente ampla, o governo e a luta de classes

H. Bosch

Mais uma vez, a explicação para a crise política aparece longe da própria política. Em A eleição dos desafetos, publicado em A Terra é Redonda, Eugênio Bucci recorre a Espinosa, ao ódio, ao ressentimento, ao patriarcalismo, ao preconceito e até às brigas de família para explicar a rejeição a Lula. O governo, suas alianças e a política aplicada durante quatro anos aparecem apenas de passagem. O problema estaria, no fundo, nos afetos do eleitor.

Bucci afirma que a rejeição a Lula não seria um dado conjuntural, mas expressão de um “asco” enraizado em forças do passado. Depois associa a hostilidade ao presidente a patriarcalismo, intolerância à presença pública da pobreza e preconceito de cor. Mais adiante, transforma a eleição numa descarga emocional em que o sujeito de direita votaria “bufando”, movido por ressentimentos íntimos, por raiva do cunhado de esquerda e pela incapacidade de controlar os próprios afetos.

O exemplo do cunhado resume a fragilidade do artigo. Bucci inventa um personagem “reacionário”, incapaz de vencer as discussões do almoço de domingo, e conclui que ele usará a urna para se vingar. Em seguida vem a sentença: “Não há dúvida”. Mas não existe no texto qualquer demonstração de que essa pequena ficção doméstica explique o comportamento de milhões de eleitores. A história é um truque para apresentar o adversário político como intelectualmente inferior, ressentido e irracional.

O autor foge da situação incômoda de ter de explicar por que uma parcela importante da população rejeita Lula depois de quase quatro anos de governo. Seria necessário sair do campo dos afetos e entrar no terreno da política.

Lula chegou ao governo em 2023 ao lado de Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB, e chega à eleição de 2026 novamente com Alckmin como vice. A frente ampla tornou-se política de governo e foi renovada para a eleição seguinte, agregando outas figuras inimigas da classe trabalhadora como Simone Tebet e Marina Silva.

A incorporação de figuras vindas da direita tradicional e do centro foi uma decisão política, não produto do “ódio” ou de alguma herança psicológica da colônia. E é justamente essa decisão que Bucci retira do quadro. Em seu lugar, coloca uma espécie de psicologia improvisada do eleitorado.

A manobra fica explícita numa das frases mais reveladoras do artigo: o resultado eleitoral ocorreria “não porque somos um país governado pelo PT, mas porque somos um país governado pelo ódio”. Eis a operação inteira em uma linha. O governo deixa de ser objeto da análise. A frente ampla some do mapa. As alianças parece que nunca existiram e o balanço do mandato desaparece debaixo do tapete. O problema passa a ser uma força abstrata chamada “ódio”. Separar a rejeição ao presidente daquilo que seu governo fez é retirar da eleição seu conteúdo mais elementar.

Essa explicação leva também a uma conclusão política: se a rejeição nasce de afetos ruins, a resposta seria moderar esses afetos, recuperar o diálogo, civilizar as relações. A luta política deixa de ser conflito entre interesses sociais e vira problema de convivência que, infelizmente, tudo indica, não foi solucionada pelo “Lulinha Paz & Amor”.

Com frente ampla, que reuniu os “democratas” para preservar as instituições contra uma ameaça excepcional, Alckmin deixou de ser um dos principais dirigentes do velho PSDB e passou a ocupar a vice-presidência ao lado de Lula. Antigos adversários transformaram-se em aliados necessários. A divisão de classes foi empurrada para segundo plano em nome de uma unidade pretensamente superior da defesa da democracia.

A conciliação democrática não elimina esse antagonismo; apenas o administra. Quando a esquerda abandona uma política independente dos trabalhadores para governar ao lado de representantes da burguesia, os interesses dos trabalhadores são jogados para o segundo plano.

Antigos inimigos passaram a ser tratados como parceiros, e a defesa das instituições foi apresentada como objetivo superior à luta independente da classe trabalhadora. A campanha é uma contradição escancarada. Bucci não discute nada disso. Prefere nos levar ao almoço de domingo.

A passagem em que associa a rejeição a Lula à “intolerância à visibilidade pública da pobreza” diz muito. Em vez de perguntar por que a pobreza continua existindo e aumento, e por que setores pobres podem estar descontentes com o governo, o autor desvia para o preconceito de quem olha para o pobre.

Uma pessoa pobre que rejeita Lula não pode ser simplesmente associada à “intolerância à visibilidade pública da pobreza”. Será que um trabalhador mal remunerado, endividado ou dependente de benefício social precisa odiar a pobreza para estar descontente? Ou pode simplesmente estar cansado de continuar pobre?

A tese de Bucci também não explica por que a rejeição a Lula varia ao longo do tempo. Se sua causa fundamental estivesse enterrada num “marco civilizatório” desde a colônia, seria preciso explicar por que o mesmo País elegeu Lula várias vezes e lhe deu alta popularidade em outros períodos. Transformar conjuntura política em maldição ancestral é uma maneira de tornar o governo inocente por definição.

No final, Espinosa serve para completar o diagnóstico. Bucci afirma que muitos padeceriam da “servidão”, entendida como incapacidade de moderar os afetos, e sugere que esse homem dominado pelas emoções poderá decidir o destino do Brasil. De novo, o eleitor é o problema.

Essa mania de procurar um defeito psicológico ou moral no eleitor substitui a política pela repreensão. Se o trabalhador vota à direita, está ressentido. Se rejeita Lula, odeia. Quem protesta contra o governo, está dominado pelos afetos. Quanto mais falta uma política independente, mais aparece a tentativa de explicar por que o povo não responde como o desejado.

Não é o ódio que explica a frente ampla. Não foi o ressentimento que colocou Alckmin ao lado de Lula. Não foi Espinosa que levou setores tradicionais da direita para dentro do governo. Foram escolhas políticas.

Não dá para esconder Alckmin e a Frente Ampla atrás de Espinosa, E é por aí que uma análise da polarização deveria começar. Enquanto se procurar a origem da crise no temperamento do brasileiro, nos afetos, na raiva do cunhado ou numa herança psicológica colonial, continuará se ocultando que a esquerda se adaptou cada vez mais à ordem existente, amarrou-se à direita em nome da democracia e abriu mão de uma política independente dos trabalhadores.

Bucci diz que o Brasil seria governado pelo ódio. É uma frase de efeito. O problema é que o País tem presidente, vice, ministros e uma política concreta. Trocar tudo isso por uma teoria dos afetos não explica absolutamente nada, apenas absolve essa esquerda de sua política desastrosa.

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