Eleições 2026

Não é o eleitor que está em xeque, mas a esquerda institucional

Ao responsabilizar o eleitor pela escolha, o artigo desvia a discussão da política que aproximou a esquerda das instituições do regime e permitiu à direita posar de “antissistema”

Urna

O artigo A responsabilidade do eleitor está em xeque!, de Elisabeth Lopes, publicado nesta sexta-feira (2) no Brasil 247, começa pelo lugar errado. A autora transforma a eleição numa espécie de exame de consciência do eleitor dizendo é preciso ter “lucidez”, investigar candidatos, identificar financiadores, procurar fontes confiáveis, escapar da desinformação e compreender corretamente as consequências do voto. No final, chega a responsabilizar quem escolha um candidato que considera “aventureiro perigoso” em lugar de outro apresentado como “idôneo” e experiente.

Antes de colocar a responsabilidade do eleitor “em xeque”, seria correto colocar em xeque a política adotada pela própria esquerda.

Milhões de pessoas não passaram subitamente a votar na direita porque deixaram de consultar páginas oficiais, perderam a capacidade de verificar notícias ou foram hipnotizadas por grupos de WhatsApp. Existe um problema político muito mais profundo que é o da esquerda institucional passar anos procurando apresentar-se como guardiã das instituições do regime, enquanto o bolsonarismo procura vender a imagem — demagógica, mas politicamente eficaz — de inimigo do sistema.

A esquerda, que historicamente deveria aparecer diante do trabalhador como força de combate contra o Estado burguês, passou a ser identificada com a defesa do Supremo Tribunal Federal, da Polícia Federal e de mecanismos cada vez mais amplos de controle das redes sociais. O bolsonarismo, por sua vez, explora ataques a essas mesmas instituições para apresentar-se como perseguido, rebelde e defensor da liberdade.

Não foi o eleitor que inventou essa situação. A própria política de alianças mostra o tamanho do problema. Lula disputa novamente a Presidência ao lado de Geraldo Alckmin. Alckmin foi adversário histórico do PT e apoiou a abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

A mesma contradição aparece em São Paulo. Lula pediu votos para Marina Silva e Simone Tebet ao Senado durante a campanha deste ano. Marina defendeu em 2016 a admissibilidade do impeachment de Dilma; Simone Tebet votou no Senado pelo afastamento e pela continuidade do processo. Dez anos depois, estão no mesmo campo eleitoral do PT.

O efeito político é que uma esquerda que incorpora antigos adversários e defensores do impeachment perde capacidade de aparecer como força exterior ao sistema que afirma combater. Enquanto isso, a direita denuncia “o sistema” e procura ocupar exatamente esse espaço.

Não adianta responder culpando a insuficiente “lucidez” do eleitor, ou recomendando que cada pessoa investigue quem financia os candidatos, analise seus vínculos, verifique informações e até consulte a produtividade legislativa de parlamentares nas páginas do Congresso. A política aparece quase como prova escolar, na qual o cidadão que não chega à conclusão esperada não estudou suficientemente o material.

Eleições de massas não funcionam assim. São os partidos que precisam demonstrar, por sua própria política, quais interesses representam. São as organizações que precisam conquistar a confiança da classe trabalhadora, organizar seus interesses e oferecer respostas aos problemas materiais de milhões de pessoas. Quando isso não acontece, atribuir o resultado à desinformação ou à falta de discernimento do eleitor é retirar a responsabilidade de quem deveria atuar politicamente.

Discutindo informação e comunicação. De um lado, o texto apresenta os grandes meios como subordinados a interesses econômicos e políticos. Até aí, nenhuma novidade. De outro, descreve as chamadas “mídias progressistas” como espaços que informariam “com rigor”, “sem manipulação”, “com pluralidade e responsabilidade”.

É uma imagem conveniente demais. Jornalismo político é também disputa política. A diferença não está entre uma imprensa “ideológica” e outra milagrosamente livre de interesses, mas entre os interesses sociais e as políticas defendidas por cada setor.

A mesma atitude defensiva aparece diante das redes sociais. O artigo volta repetidamente à desinformação, às notícias falsas e à necessidade de o eleitor aprender a separar informação confiável de manipulação.

Enquanto isso, a burguesia, com o sistema eleitoral brasileiro, desenvolveu mecanismos cada vez mais abrangentes e detalhados de intervenção sobre a comunicação digital. Para as eleições deste ano, o TSE determinou que grandes plataformas apresentassem planos de conformidade que incluem remoção de conteúdo, suspensão de perfis, fornecimento de dados e medidas específicas para sistemas de inteligência artificial. A esquerda institucional protestou? Não.

A inteligência artificial serve como ótimo exemplo. Em vez de tratar prioritariamente a nova tecnologia como instrumento de produção e comunicação — capaz de permitir a organizações pequenas editar vídeos, traduzir materiais, produzir imagens, organizar dados e multiplicar sua capacidade de propaganda —, boa parte da discussão política gira em torno de fazer alarde de seus “perigos” e das formas de regulá-la.

A direita, muito mais esperta, não espera a tecnologia tornar-se moralmente aprovada. Procura ocupá-la. Esse é um problema de política, não de educação do eleitor.

A autora também elogia a atuação do STF na questão das emendas parlamentares, apresentando as decisões da Corte como instrumento para ampliar transparência, rastreabilidade e fiscalização.  Novamente aparece a confiança em uma instituição do Estado como agente corretor dos vícios das demais instituições.

Do ponto de vista marxista, essa forma de apresentar o problema inverte a relação. O Judiciário não é um árbitro desinteressado. Faz parte do mesmo Estado e da mesma estrutura de poder burguês.

Quando uma parcela da esquerda passa a depositar suas esperanças no STF, na Polícia Federal e na regulamentação estatal das redes para combater a direita, entrega a essa mesma direita uma bandeira extremamente poderosa: a denúncia contra o regime.

O bolsonarismo utiliza essa contradição permanentemente. Encontrou um terreno político praticamente abandonado por uma esquerda que passou a confundir defesa da democracia com defesa das instituições existentes.

Depois, quando parte do eleitorado compra a propaganda “antissistema” da direita, surge a explicação de que as pessoas foram enganadas pelas redes. É cômodo demais.

O próprio título A responsabilidade do eleitor está em xeque! mostra o desvio. Quem está em xeque não é o trabalhador que chega à urna depois de quatro anos avaliando seu salário, o preço da comida, os serviços públicos, o governo e aquilo que os partidos fizeram diante dele.

A questão é por que a esquerda permitiu que a direita pudesse apresentar-se como força de contestação.

Não foram os eleitores que escolheram Geraldo Alckmin para compor novamente a chapa presidencial de Lula. Muito menos foram os eleitores que fizeram Marina Silva e Simone Tebet, que apoiaram o processo contra Dilma, tornarem-se candidatas apoiadas ao Senado. Também não foram os eleitores que decidiram depositar tantas esperanças políticas no STF, na PF ou na regulamentação das redes.

Foram decisões políticas. É nelas que uma análise séria precisa começar. Quem deixou de lado o convencimento, organização e mobilização dos trabalhadores? Então, não venham adora com um sermão sobre “voto consciente”.

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