"Melhor amigo"

Moraes recebeu almoço de luxo de Vorcaro, com foie gras e caviar

Banqueiro chamou ministro de “meu convidado mais importante”, mandou preparar recepção de luxo e tratou Moraes como a estrela do almoço

Alexandre de Moraes foi recebido como hóspede de honra de Daniel Vorcaro em um almoço de luxo realizado em Campos do Jordão, em 30 de dezembro de 2023. Quatro dias antes, o dono do Banco Master procurou o chefe José Maria Meira e lhe anunciou uma “missão”. O motivo de tanto cuidado era o homem que ocuparia o centro da mesa: “meu convidado mais importante até hoje”, escreveu Vorcaro. O convidado era o ditador que, junto com sua quadrilha no STF, mandava e desmandava no País até dar de cara com a parede no caso Master.

Vorcaro pediu um “almoço espetacular”, mas queria evitar qualquer ostentação demasiado explícita. Mais reveladora foi a ordem para que seu próprio nome não fosse mencionado desnecessariamente. A recepção deveria transcorrer praticamente como se fosse de Moraes. Vorcaro nem sequer compareceu, mas acompanhou à distância o andamento do encontro e recebeu informações sobre a satisfação dos convidados. Moraes era a estrela da festa.

E a estrela foi tratada como tal. O cardápio incluía pata negra, vieiras com ovas de salmão, degustação de caviar, ovos trufados, foie gras e carne wagyu. Vorcaro também se preocupou com fotografias. Ao saber que o chefe havia tirado uma foto com Moraes, reclamou; tranquilizou-se quando lhe disseram que o próprio ministro pedira para posar com os presentes.

O foie gras torna a cena particularmente irônica. Em julho deste ano, Lula sancionou a Lei nº 15.475, proibindo a produção e comercialização de alimentos produzidos por alimentação forçada de animais, medida que atinge diretamente o tradicional fígado gordo de pato ou ganso. Tratou-se de uma intervenção do Estado naquilo que o cidadão pode produzir, vender e comer. O almoço de Moraes aconteceu antes da proibição e, portanto, não envolveu nenhuma ilegalidade. Mas a contradição é política: enquanto a esquerda pequeno-burguesa celebra proibições desse tipo e transformou Moraes em símbolo da “democracia”, seu ídolo degustava uma das principais iguarias que essa política resolveu banir.

O banquete seria apenas mais uma curiosidade sobre os hábitos da alta sociedade brasiliense se estivesse separado do restante do caso Master. Não está. Na quarta-feira (30), veio a público uma gravação de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, descrevendo a relação entre os dois: “O Xandão é melhor amigo do Daniel”. Zettel acrescentou que os dois faziam jantares e saíam juntos. A afirmação é de um integrante do círculo íntimo do banqueiro; somada ao tratamento dispensado no almoço, dá outra dimensão à alegação de que Moraes e Vorcaro mantinham apenas contatos ocasionais.

Há ainda as aeronaves. Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, havia reservado com antecedência um Legacy 650 e um helicóptero EC-155 administrados pela Prime You, empresa da qual Vorcaro havia sido sócio. Nas mensagens da companhia, ela aparecia registrada como “Cotista Legacy (PP-NLR) e EC-155”. Na manhã de 18 de novembro de 2025, poucas horas depois de se tornar pública a prisão do banqueiro, Viviane pediu o cancelamento da viagem. Chegou a voltar atrás — “cancele o cancelamento” — e, cinco minutos depois, confirmou a desistência. As conversas reveladas mostram que os pedidos de voos eram frequentes.

Esse ponto é particularmente comprometedor porque o Legacy 650 já havia aparecido em outra revelação. Um vídeo registrou Moraes e Viviane desembarcando da aeronave no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em agosto de 2025. O gabinete do ministro havia afirmado que Moraes “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. Posteriormente, o escritório de Viviane reconheceu a contratação de voos e afirmou que Moraes acompanhou a mulher em algumas viagens. Ou seja, Moraes mentiu para esconder sua relação promíscua com o banqueiro corruptor.

As aeronaves também aparecem nos negócios investigados pela Polícia Filial. No total, os contratos entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes giravam em torno de R$200 milhões. Uma das propostas encontradas, de R$ 50 milhões, envolvia uma empresa ligada a Vorcaro, com previsão de pagamento de parte do valor mediante cotas de um Legacy 650 e de um helicóptero EC-155.

As mensagens recuperadas do celular do banqueiro completam o quadro. A PF encontrou contatos em que Vorcaro perguntava a Moraes sobre o avanço da investigação, procurava saber sobre possíveis medidas contra ele e pedia ajuda para chegar ao diretor-geral da Polícia Filial e ao procurador-geral da República. Dois dias antes da prisão, perguntou ao ministro se já deveria estar fora do País. As conversas não puderam ser reconstruídas integralmente porque parte das comunicações usava mecanismos de visualização única e as respostas de Moraes não foram recuperadas. Ou seja, Moraes apagou suas mensagens sabendo que elas o incriminariam.

O “melhor amigo” de Vorcaro já deveria ter caído há muito tempo. Moraes comandou processos nos quais a interpretação ampla sobre participação, organização e responsabilidade coletiva resultou em penas elevadíssimas. Nos primeiros julgamentos do 8 de Janeiro, réus receberam 14 e 17 anos. No processo da tentativa de golpe, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses, Braga Netto a 26 anos e Augusto Heleno a 21 anos.

Se Moraes fosse submetido à mesma régua e ao mesmo rigor que ajudou a impor aos adversários do STF, a discussão não seria apenas sobre sua permanência no tribunal: estaria sendo tratado como réu, preso preventivamente e ameaçado com décadas de cadeia.

Mesmo diante do volume de material revelado, Moraes continua no STF. A explicação está na proteção que recebe dentro da própria Corte. Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino já atuaram nas disputas internas provocadas pelo caso Master, desviando a discussão para a atuação de André Mendonça ou adiando decisões sobre a investigação. Essa atuação é claramente uma blindagem política montada pelos comparsas de Moraes, constituindo uma verdadeira quadrilha, ou o Bando dos Quatro.

Por isso, o escândalo não pode terminar na simples substituição de Alexandre de Moraes. O caso Master expôs um sistema em que ministros não eleitos convivem com banqueiros e grandes empresários, familiares mantêm contratos milionários com grupos que possuem interesses perante o Estado e os próprios integrantes do tribunal decidem até onde podem ser investigados. O STF é uma instituição corrupta, ditatorial, ilegítima e profundamente ligada aos grandes capitalistas.

A saída é a dissolução do STF e uma reforma completa do Judiciário. É preciso estabelecer a eleição direta de todos os juízes, mandatos revogáveis e o fim dos privilégios da magistratura, com remuneração equivalente à de um trabalhador médio. O princípio é retirar as funções judiciais das mãos de uma casta praticamente vitalícia, escolhida pelo alto e sem controle popular.

As funções atualmente concentradas numa suprema corte deveriam passar ao Congresso, exercidas por representantes rotativos entre os deputados, com substituição a cada seis meses, por exemplo. Tudo isso é necessário para impedir a formação de uma corporação vitalícia de 11 ministros, nomeados pelo presidente, com enormes salários e poderes para interferir em eleições, partidos, imprensa e direitos políticos.

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