Frente ampla

PT vendeu a alma ao diabo e isso pode levá-lo à derrota eleitoral

Prefeitos de partidos da coligação de Haddad fazem campanha para Tarcísio, enquanto outros aliados evitam vincular seus candidatos ao PT

A reta final da eleição paulista expôs uma contradição da coligação montada em torno de Fernando Haddad. Levantamento da Folha de S.Paulo publicado nesta quinta-feira (1º) encontrou 15 dos 18 prefeitos eleitos por PT, PSB e PDT sem manifestação pública de apoio ao petista nas redes desde o início da campanha. Dois prefeitos do PSB foram além: Flavia do Baiano Bittencourt, de Guaiçara, e Akira Auriani, de Rio Grande da Serra, declararam apoio a Tarcísio de Freitas.

A campanha de Haddad afirmou à Folha que ausência de postagem não significa necessariamente falta de apoio e informou que o candidato já se reuniu com cerca de 130 prefeitos, inclusive gestores ligados à base de Tarcísio. A explicação, porém, não alcança os dois casos em que houve apoio explícito ao adversário. Flavia publicou material eleitoral de Tarcísio. Em Rio Grande da Serra, a prefeitura confirmou que Auriani prefere a reeleição do governador. O PSB, partido dos dois prefeitos, ocupa justamente a vice da chapa de Haddad com Márcio França.

Na avaliação editorial do DCO, o fato resume um problema que acompanha a política de frente ampla: o PT abre espaço nas chapas, entrega posições e utiliza a força eleitoral de Lula para sustentar partidos da direita tradicional, mas não recebe deles um compromisso equivalente. A justificativa apresentada pela direção petista é que a ampliação das alianças seria necessária para derrotar o bolsonarismo. Em São Paulo, integrantes de uma legenda beneficiada pela composição estão pedindo votos ao próprio adversário do PT. Causa Operária

O caso de Simone Tebet mostra outra face da mesma política. No fim de setembro, a candidata do PSB ao Senado mandou imprimir 1 milhão de panfletos sem os nomes, imagens e números de Lula, Haddad e Marina Silva. Segundo a Folha, o material foi produzido após pedidos de lideranças do PSD e do MDB que queriam fazer campanha por Tebet sem carregar os demais integrantes da chapa. A assessoria da candidata não comentou o caso.

O DCO já havia tratado o episódio como demonstração do caráter desigual dessa aliança. Tebet passou quase toda a carreira no MDB e, em 2016, votou pelo prosseguimento do processo de impedimento de Dilma Rousseff. O registro oficial do Senado mostra seu voto favorável em 9 de agosto daquele ano. Mais tarde, tornou-se ministra de Lula, saiu do MDB, ingressou no PSB e chegou à eleição de 2026 como candidata ao Senado apoiada pelo PT. Agora, setores que não querem apoiar Lula nem Haddad podem trabalhar por sua eleição sem dificuldade.

A ligação com o PSD torna a contradição mais clara. Em agosto, o DCO noticiou que o partido de Gilberto Kassab não impediria seus prefeitos de pedir votos para Tebet. O PSD venceu as eleições municipais de 2024 em 206 dos 645 municípios paulistas e integra a sustentação política do governo Tarcísio. Assim, prefeitos ligados a uma das principais forças do governo estadual podem ajudar uma candidata da coligação petista sem abandonar o governador nem assumir compromisso com Haddad.

Minas Gerais forneceu outro exemplo. Em julho, dirigentes do PSB resistiram a ocupar a vice na chapa de Patrus Ananias. Segundo as informações repercutidas pelo DCO, havia temor de que uma identificação muito direta com o PT afastasse eleitores de direita dos candidatos proporcionais da legenda. Ao mesmo tempo, o partido queria negociar uma posição de destaque na composição, especialmente a candidatura ao Senado. A disputa sofreu alterações posteriores, mas revelou o cálculo existente naquele momento: aproveitar a força de Lula onde ela rende votos e reduzir a identificação com o PT onde ela pode custá-los.

A crítica do DCO parte justamente daí. Depois de 2016, processo que o jornal caracteriza como golpe contra Dilma Rousseff, setores da direita tradicional entraram em crise. O PSDB perdeu grande parte do espaço que havia ocupado durante décadas, enquanto antigos dirigentes tucanos e políticos do MDB encontraram novas legendas e novas combinações eleitorais. Geraldo Alckmin deixou o PSDB, filiou-se ao PSB e tornou-se vice de Lula. Márcio França, também oriundo do tucanato, está hoje na chapa de Haddad. Tebet saiu do MDB e ingressou no mesmo PSB.

Segundo essa análise, a força eleitoral do PT e o prestígio de Lula foram usados para recuperar políticos que estavam desgastados ou sem um partido capaz de lhes oferecer a mesma projeção. Em troca, esperava-se que essas legendas ajudassem o PT a derrotar seus adversários. Os episódios da campanha de 2026 mostram os limites desse acordo: o apoio vale enquanto não atrapalha os interesses eleitorais próprios dos aliados.

Em São Paulo, isso deixou de ser uma discussão abstrata. O PSB tem a candidatura a vice-governador e, ainda assim, dois de seus prefeitos fazem campanha para Tarcísio. Tebet ocupa uma das vagas ao Senado na coligação apoiada pelo PT, mas dispõe de material preparado para circular sem Lula e Haddad. Prefeitos do PSD podem apoiá-la mantendo seus vínculos com o governo estadual. O PT faz concessões para ampliar a coligação; seus aliados preservam a liberdade de trabalhar com quem lhes convém.

A direção petista costuma defender esse tipo de composição como uma necessidade eleitoral para ampliar sua base e derrotar o bolsonarismo. Mesmo aceitando esse raciocínio, o DCO considera que os acontecimentos da campanha colocam em dúvida o benefício recebido pelo PT. Se antigos adversários são incorporados para derrotar Tarcísio, o mínimo esperado seria que atuassem nessa direção. Quando prefeitos do partido do candidato a vice pedem votos ao adversário, até o argumento puramente eleitoral começa a se voltar contra a própria frente ampla.

A experiência de 2016 pesa nessa crítica. O PT já governara em aliança com partidos que depois participaram do afastamento de Dilma. Michel Temer, então vice-presidente pelo MDB, assumiu o governo após sua queda. Simone Tebet votou pela continuidade do processo. Ainda assim, segundo o DCO, a resposta da direção petista foi ampliar posteriormente a política de alianças com setores da direita tradicional sob a justificativa de formar um grande bloco contra o bolsonarismo.

O resultado observado nesta campanha é uma coalizão na qual o apoio não acompanha as concessões feitas pelo PT. O partido oferece vagas, estrutura e a presença eleitoral de Lula; setores aliados calculam, município por município e candidatura por candidatura, até onde lhes interessa aparecer ao lado dos petistas. Para o DCO, é esse desequilíbrio — e não apenas uma divergência abstrata sobre princípios — que transforma a frente ampla em um risco para o próprio PT.

Na reta final, Haddad disputa o governo contra Tarcísio enquanto prefeitos de uma legenda instalada em sua vice pedem votos ao governador. Isso não determina antecipadamente o resultado da eleição, mas fornece o dado mais concreto sobre a aposta feita pela direção petista: ela entregou espaço político a aliados que, quando seus próprios interesses eleitorais entram em jogo, podem trabalhar para o outro lado.

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