“Não abandonamos nossas armas e nunca vamos abandonar.” A declaração dos combatentes do Hesbolá, divulgada nessa quarta-feira (30), é uma resposta direta à ofensiva dos Estados Unidos e do governo libanês para desarmar a resistência enquanto tropas de “Israel” permanecem dentro do Líbano.
A mensagem foi dirigida ao secretário-geral da organização, xeique Naim Qassem, poucos dias depois do segundo aniversário do assassinato de Hassan Nasseralá. Morto por um bombardeio terrorista israelense contra o subúrbio sul de Beirute em 27 de setembro de 2024, Nasseralá comandou o Hesbolá durante mais de três décadas e esteve à frente da organização nas guerras que terminaram com a retirada israelense do Líbano em 2000 e com o fracasso da nova invasão de 2006. Essas duas guerras são as grandes vitórias que transformaram Nasseralá em uma das principais figuras da resistência no Oriente Médio.
Os combatentes chamaram o antigo secretário-geral de seu “mais sagrado e elevado mártir” e afirmaram que sua orientação continua determinando o caminho da organização. A homenagem, portanto, não ficou restrita à memória do dirigente. Ela foi transformada em um compromisso de continuar a política pela qual Nasseralá se tornou conhecido: manter uma força armada independente capaz de enfrentar “Israel”.
“O eco de sua voz continuará a nos cercar, a acender dentro de nós a chama da revolução e a despertar o vulcão de nossa justa ira. Rejeitamos a humilhação e a desonra e, através de nossa luta inspirada em Carbala, enfrentaremos todo opressor e todo tirano arrogante. Os dias testemunharão que o Hesbolá vencerá.”
Em seguida, os combatentes dirigiram-se diretamente a Naim Qassem, sucessor de Nasseralá. A mensagem procura deixar claro que os assassinatos da direção do Hesbolá não conseguiram produzir a desorganização política e militar esperada por “Israel”.
“Somos seus filhos, seus combatentes. Permanecemos firmes aqui nas linhas de frente, observando e esperando o inimigo de Deus e nosso inimigo. […] Permaneceremos leais a você, dedicados à sua causa e ao seu caminho. Protegeremos esta Resistência, esta pátria e seu povo, e nossa comunidade de pessoas leais que tantos sacrifícios fez.”
As “linhas de frente” mencionadas pelos combatentes não são uma figura de linguagem. A guerra voltou ao território libanês em grande escala em 2026. Em março, tropas israelenses lançaram uma nova invasão terrestre no sul do país. Desde então, ocorreram sucessivos combates em que o Hesbolá atacou colunas, tanques, postos e concentrações militares israelenses em localidades como Khiam e Majdal Zoun. Em maio e junho, novas tentativas de avanço foram enfrentadas diretamente pelos combatentes da organização.
A ocupação não terminou. Em setembro, a Reuters ainda registrava localidades do sul do Líbano sob controle israelense e uma população submetida aos efeitos da guerra. O próprio governo libanês continua pedindo a retirada das tropas estrangeiras, enquanto “Israel” mantém posições dentro do país.
É precisamente nessa situação que o imperialismo e o governo fantoche de Joseph Aoun pressionam pelo desarmamento do Hesbolá. Em junho, um acordo patrocinado pelos Estados Unidos colocou a entrega das armas da resistência no centro das negociações. O desarmamento dos chamados “grupos armados não estatais” deve avançar antes de uma retirada israelense completa, que não recebeu sequer prazo fixo.
Aoun é um agente do imperialismo dentro do Líbano. Em setembro, o presidente libanês voltou a defender o monopólio estatal das armas, pediu apoio militar aos Estados Unidos e à Europa e propôs um acordo de segurança com “Israel”. A contradição é concreta: o governo exige que a resistência entregue seus meios de combate ao mesmo tempo em que forças israelenses continuam instaladas dentro do território nacional.
O resultado pretendido pelo plano norte-americano seria retirar do terreno justamente a principal força libanesa que combate diretamente as tropas israelenses. O Exército libanês não expulsou “Israel” em 2000, não conteve sozinho a invasão de 2006 e não é ele que está atacando blindados e posições da ocupação. O Hesbolá, ao contrário, continua exercendo esse papel militar.
Foi contra essa tentativa de desarmamento que os combatentes fizeram o trecho mais contundente de sua declaração:
“Confie em Deus e confie em nós. Tenha certeza de que, se nos ordenasse semear esta terra com nossos corpos e nunca sair de nossas posições, estaríamos exatamente onde deveríamos estar. […] Que a paz esteja com você se combater, e que a paz esteja com você se permanecer paciente e esperar. Sob seu comando, estamos prontos em todas as frentes. Não abandonamos nossas armas e nunca vamos abandonar.”
A questão das armas do Hesbolá acompanha toda a história recente do Líbano. “Israel” invadiu o país em 1982 e manteve durante 18 anos uma faixa de ocupação no sul. Em maio de 2000, suas foram expulsar da região. A ONU confirmou formalmente em 16 de junho daquele ano a retirada das forças israelenses, encerrando o que o então secretário-geral Kofi Annan chamou de uma provação de mais de 22 anos para o povo libanês.
A retirada, no entanto, não caiu do céu. Durante anos, o Hesbolá conduziu uma guerra de desgaste contra as forças israelenses e seus aliados locais. A libertação do sul foi uma vitória da luta armada libanesa e Nasseralá, secretário-geral desde 1992, foi seu principal dirigente.
Em 2006, “Israel” lançou outra grande ofensiva contra o país. Durante mais de um mês, o Hesbolá manteve seus combatentes no sul, continuou disparando foguetes e impediu que o exército israelense destruísse a organização. A guerra terminou com a Resolução 1701 do Conselho de Segurança e uma retirada por etapas das tropas israelenses. O resultado foi uma segunda derrota de “Israel”.
Essa experiência também explica a recusa atual em trocar as armas por garantias dos Estados Unidos. Foram justamente essas armas que permitiram enfrentar uma ocupação contra a qual o Estado libanês se mostrou incapaz de defender o território durante décadas.
A organização voltou a usar sua capacidade militar em solidariedade aos palestinos depois de 7 de outubro de 2023. No dia seguinte ao início da guerra em Gaza, o Hesbolá começou a atacar posições militares israelenses na fronteira. Durante aproximadamente um ano, sua direção afirmou que a frente libanesa era uma frente de apoio à Palestina e que os ataques continuariam enquanto permanecesse a ofensiva israelense contra Gaza.
A abertura dessa frente teve um custo enorme para a própria organização. “Israel” ampliou os bombardeios, atacou Beirute, assassinou dirigentes e, em setembro de 2024, matou Nasseralá. Poucos dias depois, também assassinou Hashem Safieddine. Mesmo após essas perdas, o Hesbolá manteve sua estrutura e voltou a enfrentar tropas israelenses quando a guerra se ampliou novamente em 2026.
Dois anos depois do assassinato de Nasseralá, a pressão para destruir essa capacidade militar continua. Mudou o método: ao lado dos bombardeios, assassinatos e invasões, o imperialismo procura usar o próprio Estado libanês para obter politicamente aquilo que “Israel” não conseguiu impor no campo de batalha. O acordo de desarmamento tenta condicionar a retirada das tropas israelenses à entrega prévia das armas da resistência, deixando o povo libanês desarmado diante do invasor apoiado pelo próprio governo títere de Beirute.
Os combatentes do Hesbolá responderam que não aceitarão essa condição. Na parte final da mensagem, dirigiram-se às famílias e às populações que sustentaram a organização durante as sucessivas guerras:
“Vocês deram tudo o que é precioso e querido por esta terra e por esta Resistência. E juramos que ofereceremos aquilo que temos de mais precioso: nosso sangue e nossas almas, por sua honra e dignidade e para retirar de vocês a humilhação e a opressão.”
A carta termina vinculando diretamente a resistência atual ao dirigente assassinado há dois anos. Depois das invasões de 1982, 2006, 2024 e 2026, da ocupação ainda mantida no sul e da pressão imperialista pelo desarmamento, os combatentes encerraram o juramento com uma referência a Hassan Nasseralá: “Juramos que permanecemos fiéis ao compromisso, ó Nasseralá.”



