Flydubai

‘Terrorismo’ de copiloto é ação legítima contra os verdadeiros terroristas

Voo foi desviado dois dias depois de Netaniahu ser recebido em Abu Dabi; causa do ataque ainda é investigada pelas autoridades emiradenses

Um copiloto da Flydubai atacou o comandante do voo FZ1073, que seguia de Dubai para Tel Aviv, e teria tentado derrubar o avião na quarta-feira (30). Segundo as autoridades israelenses, o comandante Smit Machchhar foi esfaqueado dentro da cabine, enquanto a aeronave perdeu quase 14 mil pés de altitude em menos de 30 segundos. Passageiros e tripulantes dominaram o copiloto, e outros dois pilotos da companhia, que estavam a bordo, assumiram o controle da aeronave e pousaram em Tabuk, na Arábia Saudita.

O regime genocida israelense rapidamente procurou apresentar o caso como terrorismo. O ministro da Defesa, Israel Katz, chamou o episódio de uma “tentativa de ataque terrorista jihadista”. O próprio Benjamin Netaniahu, porém, admitiu que ainda era cedo para determinar o motivo. A Procuradoria-Geral dos Emirados Árabes Unidos abriu uma investigação para apurar justamente a causa da ação, eventual planejamento anterior e a existência ou não de vínculo com alguma organização.

Uma autoridade israelense, sob anonimato, afirmou à Reuters que o copiloto seria cidadão de Omã. A informação ainda não foi confirmada oficialmente pelos investigadores emiradenses. Se a apuração comprovar que a ação teve motivação política ligada à Palestina, ela terá ocorrido apenas dois dias depois de um acontecimento capaz de provocar enorme revolta no mundo árabe: a recepção oficial de Netaniahu pelo governo dos Emirados.

No domingo anterior ao incidente, Netaniahu esteve em Abu Dabi e se reuniu com o presidente dos Emirados, Mohamed bin Zayed Al Nahyan. A agência oficial do país informou que os dois discutiram as relações bilaterais e formas de “fortalecer” os vínculos entre os Emirados e “Israel”.

A própria recepção é uma afronta aos palestinos e aos povos árabes. Os Emirados abriram relações diplomáticas com “Israel” em 2020, dentro dos chamados Acordos de Abraão, patrocinados pelos Estados Unidos. Desde então, os acordos vêm sendo usados para ampliar relações econômicas, diplomáticas e de segurança entre o Estado sionista e governos árabes vendidos ao imperialismo, sem que a ocupação da Palestina tenha sido encerrada. Essa política é parte da tentativa norte-americana de quebrar o isolamento de “Israel” no Oriente Médio.

A visita de Netaniahu torna essa política ainda mais grave. Ele chegou a solo árabe depois de quase três anos de um massacre sem precedentes que deixou Gaza destruída. Segundo a UNICEF, até 30 de junho pelo menos 21.700 crianças palestinas haviam sido mortas desde outubro de 2023 e outras 45 mil estavam feridas. A Al Jazeera registra mais de 74 mil palestinos mortos desde o início da ofensiva israelense, a maioria mulheres e crianças. Essa estimativa foi corroborada pelo próprio exército de “Israel”, responsável pelo genocídio, portanto é certo que a contagem seja muito conservadora.

De tão óbvia que é, a qualificação de genocídio deixou de ser apenas uma denúncia dos palestinos e de seus apoiadores. Em setembro de 2025, a Comissão Internacional Independente de Inquérito criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu que autoridades e forças israelenses haviam cometido quatro dos cinco atos de genocídio previstos na Convenção de 1948. A Comissão declarou ainda que Netaniahu, o presidente Isaac Herzog e o então ministro da Defesa Joave Galante haviam incitado a prática do genocídio.

Netaniahu também está sob mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional desde novembro de 2024. O TPI o acusa de responsabilidade por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, entre eles o uso da fome como método de guerra, ataques contra civis, assassinato, perseguição e outros atos desumanos. Ele permanece classificado pelo tribunal como foragido. E o TPI não pode ser considerado um órgão influenciado pelos inimigos de “Israel”, pois todo o seu histórico aponta para uma perseguição política contra governos inconvenientes ao imperialismo, como os de Muamar Gadafi ou de Vladimir Putin.

Um governo árabe recebeu, portanto, o chefe de um regime terrorista responsável pelo maior genocídio dos nossos tempos e procurado pelo TPI. Nem sequer seria necessária uma ordem de um tribunal internacional para que um governo árabe se recusasse a receber Netaniahu. A solidariedade aos palestinos e a oposição à ocupação israelense têm raízes históricas em toda a região, e os mortos de Gaza não são vistos por milhões de árabes e muçulmanos como vítimas de uma guerra distante.

É também por isso que a nacionalidade do copiloto, caso realmente seja omanense, não altera o problema político. Omã não possui relações diplomáticas formais com “Israel” e se recusou a aderir à normalização realizada por outros governos da região, que se ajoelharam diante do sionismo. A indignação com Gaza, contudo, ultrapassa as fronteiras palestinas, jordanianas, libanesas, omanenses ou emiradenses.

O que não pode ser apresentado como fato é a motivação específica do ataque no FZ1073. Até agora, nenhuma fonte demonstrou que o copiloto tenha agido por causa da guerra em Gaza, da visita de Netaniahu ou da política dos Emirados. O avião também não transportava Netaniahu: fazia a rota comercial de Dubai para Tel Aviv e levava 174 pessoas, em sua maioria israelenses. Esses elementos continuam sob investigação.

Se a motivação palestina for confirmada, ela está situada dentro da enorme revolta produzida pelo massacre em Gaza e pela colaboração de governos árabes com “Israel”. Essa posição não deve ser confundida com a afirmação de um fato que ainda não foi demonstrado. A investigação dirá o que levou o copiloto a agir; a política que cerca o episódio, porém, já é conhecida.

Desde o início da guerra a resistência palestina não pode ser reduzida à palavra “terrorismo”, utilizada por “Israel” e pelas potências imperialistas contra organizações que enfrentam a ocupação. O Hamas deve ser compreendido como movimento político e de resistência nacional, e não simplesmente pela classificação arbitrária adotada pelo imperialismo.

Quem exerce a violência da ocupação, estabeleceu uma ditadura militar que aterroriza, prende, tortura e extermina civis é o Estado de “Israel”. Este sim é terrorista. A resistência armada não é terrorismo, é uma resposta a ele, a única resposta efetiva ao terrorismo praticado por “Israel”.

A propaganda sionista utiliza o caso do copiloto para apresentar o regime israelense como vítima de terrorismo e assim justificar o seu próprio terrorismo contra os palestinos, árabes e muçulmanos. Se há algo que possa ser classificado como “terrorismo” em ações violentas contra os representantes desse regime de terror sionista, então esse “terrorismo” é plenamente justificado, pois é uma resposta dos oprimidos contra o opressor.

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