Proibição das bets

Lula conseguiu unir Palmeiras e Corinthians contra o governo

A MP que acaba com as casas de apostas atingiu uma fonte bilionária de receita do futebol e colocou clubes rivais altamente populares contra Lula

Palmeiras e Corinthians passaram mais de um século cultivando uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. A proibição das bets pelo governo Lula conseguiu colocá-los, ao menos nesse assunto, do mesmo lado. Os dois participaram, nessa segunda-feira (28), da reunião da Federação Paulista de Futebol (FPF) convocada para discutir os prejuízos provocados pela Medida Provisória nº 1.394. São Paulo, Santos, Mirassol, Red Bull Bragantino e outros clubes paulistas também estiveram no encontro. Ao final, ficou acertado que as equipes continuariam agindo coletivamente diante da medida federal.

Isso não significa que Palmeiras e Corinthians tenham adotado exatamente a mesma tática. O Palmeiras recusou-se a mandar representantes à reunião organizada pelo Ministério do Esporte em Brasília. O Corinthians, que atravessa uma situação financeira muito mais difícil, aceitou discutir com o governo alternativas para suas dívidas. O que os colocou na mesma frente foi a oposição aos efeitos econômicos da proibição. Até os maiores rivais do futebol nacional passaram a discutir conjuntamente como impedir que uma decisão do governo abra um buraco em suas contas.

A reação tomou conta do futebol. No Rio de Janeiro, Flamengo e Fluminense estavam entre os mais irritados com a MP. Palmeiras e Flamengo estiveram entre os principais clubes da articulação que esvaziou a reunião marcada pelo governo para esta terça-feira (29). A resistência cresceu a tal ponto que o encontro acabou cancelado. A tentativa do Ministério do Esporte de reunir dirigentes de todas as divisões, poucos dias antes da eleição, terminou antes de começar.

Não há nenhum mistério sobre o motivo da revolta. O governo atingiu uma das principais fontes recentes de financiamento do futebol brasileiro. As casas de apostas colocaram R$ 1,03 bilhão nos clubes da Série A em 2025. O valor equivaleu a 7,2% de todas as receitas das equipes e a cerca de um terço de suas receitas comerciais. A maior parte dos grandes clubes possui contratos com empresas do setor, alguns deles assinados por vários anos.

Não se trata, portanto, de apagar uma marca da camisa e seguir a vida. Os dirigentes montaram seus orçamentos contando com esse dinheiro. Contratações, salários, parcelas de compras de jogadores e despesas de outras modalidades foram planejados levando em conta receitas que o governo decidiu eliminar por uma Medida Provisória.

A decisão foi tomada na sexta-feira (25). A MP nº 1.394 proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em todo o território nacional, inclusive as apostas esportivas. As autorizações serão extintas depois do período de transição e as empresas precisam retirar publicidade e patrocínios. O próprio governo informa que 85 outorgas haviam sido concedidas anteriormente, pelas quais as empresas pagaram R$ 2,55 bilhões. Ou seja, o Estado regulamentou o setor, vendeu autorizações para seu funcionamento e agora decidiu fechá-lo.

A confusão criada pela medida aparece naquilo que veio logo depois. Enquanto os clubes mais populares do País recusavam a reunião de Brasília, outros negociavam com o governo uma linha de crédito e um programa de renegociação de dívidas para aliviar a crise. Primeiro, o governo elimina uma receita dos clubes. Depois, começa a discutir maneiras de emprestar dinheiro a eles para compensar a perda.

O Palmeiras recusou esse tipo de “socorro”. O clube afirmou possuir uma situação financeira que lhe permite atravessar o problema sem recorrer ao programa federal. Mesmo assim, tem razões enormes para lutar contra a proibição: seu contrato com a Sportingbet pode chegar a R$ 170 milhões por ano. O acordo representa uma parcela importante de suas receitas e não desaparece das contas simplesmente porque o governo resolveu proibir a atividade de sua patrocinadora.

O governo sabia que estava mexendo numa atividade de grande alcance popular e resolveu fazê-lo a pouco mais de uma semana da eleição. Integrantes da campanha consideravam uma medida dura contra as apostas capaz de produzir dividendos eleitorais na reta final.

A aposta política era simples: apresentar Lula como o presidente que protegeria as famílias das casas de apostas, responsabilizando as bets pelo endividamento. O problema é que o endividamento dos trabalhadores é muito anterior à expansão dessas empresas. Salários insuficientes, juros extorsivos, aluguel, alimentação, cartão de crédito e empréstimos já consumiam a renda das famílias quando as atuais plataformas nem sequer existiam no País.

Em novembro de 2022, 78,9% das famílias brasileiras já estavam endividadas. Em junho de 2024, o índice permanecia em 78,8%. O sistema federal regulamentado de apostas só começou a funcionar em janeiro de 2025. A expansão das bets pode piorar a situação financeira de uma pessoa que perde dinheiro jogando, mas não criou a calamidade do endividamento brasileiro.

A dependência do jogo também é um problema real. O que não faz sentido é transformar todo apostador em doente para justificar a proibição de uma atividade praticada por milhões de adultos. Segundo dados do Ministério da Fazenda, 43,8 milhões de brasileiros haviam realizado pelo menos uma aposta nas plataformas regulamentadas até o fim de agosto. A média de pessoas que depositavam dinheiro mensalmente era de 8,5 milhões. Estamos falando de uma atividade de massas, não de um pequeno grupo social.

Foi justamente aí que o governo entrou numa briga cujo efeito político ainda não pode ser medido. Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Fluminense e os demais grandes clubes reúnem dezenas de milhões de torcedores. Uma decisão que reduz drasticamente as receitas dessas equipes não fica restrita às diretorias: chega rapidamente às torcidas.

A consequência eleitoral mais perigosa para Lula seria uma parcela dos torcedores que pretendia votar no presidente passar a responsabilizá-lo diretamente pelo prejuízo sofrido pelo clube e procurar outro candidato, inclusive Flávio Bolsonaro.

Em outras palavras, uma medida lançada na reta final para produzir apoio eleitoral abriu uma frente de atrito com o setor mais popular do esporte brasileiro. Lula esperava aparecer como inimigo das bets. Acabou por se apresentar como inimigo dos clubes mais populares do País.

Há ainda a questão dos bancos. A ofensiva contra as apostas coincide com interesses materiais do setor financeiro. Um trabalhador que perde dinheiro numa casa de apostas possui menos recursos para pagar cartão, empréstimo e financiamento. Pesquisa feita com 1,3 milhão de associados do Sicredi encontrou inadimplência 40% maior entre os que haviam apostado pela Internet em 2025. A Febraban também vinha divulgando levantamentos sobre os efeitos das apostas nas finanças familiares. Esses dados mostram um interesse concreto dos bancos na discussão.

O caminho escolhido pelo governo evita justamente um confronto com os problemas econômicos que pesam de forma permanente sobre o trabalhador. Para diminuir o endividamento seria necessário elevar salários, reduzir juros e aliviar o preço dos produtos básicos. A proibição é muito mais simples: basta uma canetada determinando que milhões de pessoas não podem mais apostar legalmente.

Só que a canetada não elimina a vontade de apostar. Ela pode eliminar a empresa regulamentada, mas não o jogo clandestino.

Os primeiros números depois da MP já mostram o tamanho dessa dificuldade. O monitoramento Bet Legal encontrou 415 novos domínios não autorizados entre a sexta-feira (25) e o domingo (27). O total acompanhado passou de 295 para 710 páginas, uma alta de 141%. A empresa responsável pelo levantamento ressalva que o registro de um domínio nesse período não prova necessariamente que ele tenha sido criado somente depois da MP, mas o crescimento do número de endereços identificados ocorreu imediatamente após o anúncio da proibição.

O Estado pode proibir as empresas autorizadas, retirar seus patrocínios das camisas, bloquear seus pagamentos e fechar suas páginas. Isso não significa que milhões de brasileiros interessados em apostar desaparecerão. Parte deles simplesmente procurará o setor clandestino, muito mais difícil de fiscalizar e que não paga imposto algum.

Enquanto isso, a parte legal da atividade já começou a desmontar seus contratos e o futebol calcula o tamanho do rombo. O governo conseguiu algo incomum: no assunto das bets, os maiores rivais futebolísticos descobriram que tinham o mesmo adversário fora de campo.

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