Funcionários públicos e estudantes franceses realizaram nesta terça-feira (29) uma jornada nacional de greves e manifestações contra os cortes preparados pelo governo de Emmanuel Macron para o Orçamento de 2027. Professores, bombeiros, trabalhadores da saúde e funcionários de diferentes órgãos públicos participaram das paralisações. Nos liceus, estudantes ergueram barreiras diante dos portões para impedir o funcionamento normal das aulas — isto é, organizaram piquetes.
Mais de 330 liceus, quase um em cada dez do país, foram afetados, segundo o Ministério da Educação. O movimento vinha crescendo desde a semana anterior: na segunda-feira (28), 180 estabelecimentos já haviam registrado bloqueios ou tentativas de bloqueio. A União Sindical Liceal chamou a juventude a ampliar a mobilização justamente no dia da greve nacional do funcionalismo. Falta de professores, salas superlotadas, prédios em más condições e problemas de funcionamento das escolas aparecem entre as principais reivindicações dos estudantes.
A polícia de Macron foi mobilizada contra os piquetes. Houve 40 detenções nesta terça-feira e dez estudantes e funcionários ficaram feridos, segundo informações reunidas pela AP e pela Reuters. Em Lille, a polícia disparou gás lacrimogêneo diante do liceu César-Baggio. Em Saint-Denis, professores fizeram uma barreira em torno dos estudantes para protegê-los. Confrontos também foram registrados em Marselha, Bordeaux e Lyon.
A greve do funcionalismo foi convocada pelas principais organizações sindicais francesas. Bombeiros profissionais, que denunciam falta de recursos depois dos grandes incêndios do verão europeu, participaram dos atos. Aproximadamente 11% dos professores e funcionários das escolas aderiram à paralisação, segundo dados fabricados pelo governo. A perda de um dia de salário pesou sobre a participação de outras categorias, mas manifestações ocorreram em dezenas de cidades.
No centro da mobilização está o Orçamento de 2027. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou novo congelamento do ponto de índice usado para calcular o salário dos servidores. Será o quarto ano seguido sem aumento geral desse valor. A CGT afirma que a medida faz parte de uma economia de 2 bilhões de euros diretamente sobre o funcionalismo dentro de um pacote de austeridade que pode chegar a 54 bilhões de euros.
Lecornu também determinou que as despesas de vários órgãos do Estado permaneçam nominalmente no mesmo patamar de 2026. Com inflação, isso significa redução real de recursos. O governo preserva, porém, setores considerados prioritários de seu aparelho estatal. A mobilização ocorre quando professores denunciam perda prolongada de poder aquisitivo e as próprias escolas enfrentam carência de pessoal.
Os cortes são a continuação de uma política aplicada desde a chegada de Macron ao Eliseu. Seu governo atacou direitos trabalhistas, enfrentou os ferroviários e alterou as regras do seguro-desemprego. Em 2023, impôs uma reforma da Previdência que elevou de 62 para 64 anos a idade mínima de aposentadoria. Sem segurança de que conseguiria aprová-la normalmente na Assembleia Nacional, recorreu ao artigo 49.3 da Constituição para fazer passar a reforma sem votação parlamentar. A medida provocou meses de greves e manifestações de massa. A reforma foi um duro ataque neoliberal contra a classe trabalhadora francesa.
Macron chegou à política depois de passar pela alta administração pública e pelo banco Rothschild. Sua trajetória no governo confirmou a natureza política do macronismo: um governo dos banqueiros, neoliberal, profundamente ligado à política identitária e integralmente comprometido com o imperialismo francês. A França permanece uma das principais potências da União Europeia e da OTAN, ao mesmo tempo que procura conservar influência militar, econômica e política sobre antigas colônias, particularmente na África.
A política externa e a política interna fazem parte da mesma orientação reacionária do governo Macron. Enquanto direitos sociais e salários são brutalmente atacados, bilhões continuam sendo destinados ao aparelho militar francês e da OTAN, bem como ao capital financeiro, que guia a política de Macron. Na África, a presença francesa sofreu derrotas importantes nos últimos anos, com a retirada de tropas de vários países do Sael depois de fortes movimentos de rejeição popular aos antigos dominadores coloniais.
A combinação entre ataques sociais e autoritarismo desgastou profundamente Macron. Pesquisa do Ifop realizada entre 9 e 17 de setembro apontou apenas 17% de satisfeitos com o presidente, quatro pontos abaixo de agosto. O dado não prevê o resultado eleitoral de 2027, mas mede o tamanho da rejeição acumulada ao governo a poucos meses do fim do mandato.
Mesmo assim, o macronismo atravessou sucessivas crises sem ser derrubado. Uma das razões políticas está na dependência de parcelas da esquerda francesa em relação à chamada “frente republicana”. Nas eleições legislativas antecipadas de 2024, 217 candidatos desistiram do segundo turno para concentrar votos contra o Reagrupamento Nacional de Marine Le Pen. Dessas desistências, 130 partiram da Nova Frente Popular, ajudando candidatos macronistas e da direita tradicional a conservar cadeiras que estavam ameaçadas.
O resultado mostrou o limite dessa política. Depois da eleição, Macron recusou-se a entregar o governo à força que havia conquistado o maior número de deputados. Em vez disso, manteve o bloco presidencial no comando e procurou apoio entre partidos tradicionais da burguesia. A “frente republicana” não passa de uma política em que a esquerda mobiliza seus próprios eleitores para salvar representantes do centro neoliberal e depois recebe deles novos cortes e ataques. É o que a esquerda institucional (PT, PSOL e PCdoB) está copiando no Brasil com a famigerada “frente ampla”.
A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, tem indicado sinais de ruptura com essa dependência. Nesta semana, Mélenchon apoiou os piquetes nos liceus e acusou o governo de promover uma “repressão irresponsável”. A organização também promete combater o Orçamento de Lecornu e tem procurado aproximar sua atuação das greves e das mobilizações contra os cortes.
Essa mudança ganha peso diante da disputa presidencial de 2027. Pesquisa Ipsos-BVA realizada de 3 a 9 de setembro com 13.060 eleitores registrou Mélenchon entre 15,5% e 17% das intenções de voto nos diferentes cenários examinados. Entre os eleitores que se declaram próximos da França Insubmissa, 95% afirmaram que votariam no candidato do partido. Isso indica uma base eleitoral consolidada para a candidatura.
Mélenchon e a França Insubmissa também acumulam choques com o aparato estatal. A sede da organização e a residência do dirigente foram alvo de buscas policiais em 2018. Em junho deste ano, a Prefeitura de Polícia de Paris proibiu um concerto organizado pela LFI na Praça da República; o Tribunal Administrativo suspendeu a decisão e concluiu que a prefeitura não havia demonstrado os riscos alegados, classificando a proibição como grave e manifestamente ilegal contra a liberdade de reunião. A LFI apresenta episódios desse tipo como parte de uma ofensiva política contra a organização, o que é uma avaliação correta.
Enquanto a França Insubmissa busca se opor ao governo nas ruas e no Parlamento (com todos os seus limites pequeno-burgueses), o macronismo passou a negociar diretamente com o Reagrupamento Nacional, partido que durante anos foi apresentado como justificativa para a formação da “frente republicana”. Em setembro, Lecornu avançou em quatro pontos defendidos pelo RN no debate orçamentário. Marine Le Pen, por sua vez, abriu a possibilidade de um acordo de não censura que permita a aprovação do Orçamento. As equipes do partido também mantêm discussões com técnicos do Ministério da Economia.
A aproximação expõe a contradição da campanha permanente pela unidade com Macron contra a extrema direita. A direita que deveria ser isolada torna-se interlocutora possível do governo quando este precisa sobreviver no Parlamento, enquanto a esquerda que denuncia o arrocho enfrenta polícia, proibições administrativas e uma campanha política cada vez mais intensa. O próprio DCO já advertia, depois das eleições de 2024, que a “frente republicana” terminaria fortalecendo o macronismo e abrindo ainda mais espaço para a direita.
Nas ruas, a discussão assumiu uma forma mais concreta. Estudantes fecham os liceus com piquetes; professores, bombeiros e outros funcionários exigem dinheiro para salários e serviços públicos. Sophie Binet, secretária-geral da CGT, deu ao governo 48 horas para retirar os cortes e afirmou que os sindicatos decidirão a continuidade das paralisações caso Lecornu mantenha o pacote.



