A frente ampla montada pelo PT em São Paulo produziu uma situação particularmente reveladora. Simone Tebet, candidata ao Senado pelo PSB com o apoio da coligação que reúne também PT, PCdoB, PSOL e Rede, mandou imprimir 1 milhão de panfletos nos quais seu nome e seu número aparecem sozinhos, enquanto ficam em branco os espaços destinados a Lula, Fernando Haddad, Marina Silva e aos candidatos proporcionais.
Segundo informação publicada pela Folha de S.Paulo no sábado (26), a impressão foi autorizada pela própria Tebet depois de pedidos feitos principalmente por políticos do PSD e do MDB. Esses dirigentes querem pedir votos para a ex-ministra, mas não querem fazer campanha pelos demais candidatos de sua chapa. A assessoria de Tebet foi procurada pelo jornal e não quis comentar.
O significado político do material da latifundiária inimiga dos índios e sem terra é bastante simples: sua campanha produziu uma peça específica para permitir uma campanha em que ela não apoia o PT, embora o PT aposte tudo em Tebet.
O episódio dificilmente poderia ser mais ilustrativo sobre o que é a frente ampla. O PT entregou uma das candidaturas ao Senado de sua coligação em São Paulo a uma política que passou praticamente toda a carreira no MDB, apoiou a derrubada de Dilma Rousseff e é uma patife neoliberal. Depois de receber amplo o apoio eleitoral da esquerda institucional, Tebet passou a perna no PT.
Não há surpresa na trajetória da candidata. Simone Tebet permaneceu durante décadas no MDB e votou em 2016 pela procedência das acusações que levaram ao impedimento de Dilma. A votação nominal do Senado registra seu voto favorável em 9 de agosto daquele ano.
Após disputar a Presidência contra Lula em 2022, Tebet apoiou o petista no segundo turno já de olho em um ministério e em uma ascensão política, buscando se reciclar. Recebeu o Ministério do Planejamento e, neste ano, abandonou o MDB para ingressar no PSB e concorrer ao Senado por São Paulo. Foi uma manobra meramente oportunista, porque ficaria feio para PT, PSOL e PCdoB apoiarem uma candidata do MDB ao Senado.
Em julho, numa entrevista à Folha, ela própria se definiu como “centro-direita na economia e centro-esquerda na pauta de costumes”. Ou seja, neoliberal e identitária. A combinação perfeita da política imperialista.
Tebet é uma representante política do latifúndio de Mato Grosso do Sul. O DCO já revelou suas ligações familiares e patrimoniais com o latifúndio. A candidata da Pocahontas do PSOL pertence a uma tradicional família de proprietários rurais no estado e é inimiga dos índios e dos sem terra.
Mesmo com esse histórico, Tebet tornou-se um dos nomes centrais da frente ampla organizada pela esquerda institucional em São Paulo. Sua mudança para o PSB permitiu acomodá-la eleitoralmente ao lado do PT, do PCdoB e PSOL. O PSB é uma legenda que passou a receber políticos vindos da direita tradicional, particularmente depois da decadência do PSDB. É também um partido notoriamente sionista, que tem como uma de suas principais figuras a nefasta Tabata Amaral, autora do PL da Mordaça Sionista, que tenta incriminar a crítica a “Israel” e a defesa da Causa Palestina.
O principal terreno da operação de sabotagem de Tebet é o interior paulista. A campanha de Tebet vinha procurando apoio de prefeitos ligados ao PSD de Gilberto Kassab. O partido controla uma extensa máquina municipal em São Paulo e, embora esteja formalmente associado a candidaturas adversárias ao Senado, decidiu não impedir que seus prefeitos trabalhassem pela eleição da candidata do PSB, porque veem nela uma representante de seus interesses no Senado.
Kassab, por sua vez, não é uma figura distante do governo estadual. Ele integra o núcleo político de Tarcísio de Freitas, sendo seu braço direito. Portanto, a campanha montada para apresentar Tebet como candidata da frente contra o bolsonarismo chegou à seguinte situação: aliados de um dos principais dirigentes do governo Tarcísio querem elegê-la, ao mesmo tempo em que combatem o PT.
Foi para atender exatamente esse público que surgiram os novos panfletos.
O material possui o nome de Tebet e o número 400 em destaque. Os campos para presidente, governador, segundo senador, deputado federal e deputado estadual foram deixados para serem preenchidos de acordo com a conveniência de quem receber ou distribuir a peça. A campanha da candidata, dessa maneira, pode entrar em municípios controlados por aliados do PSD e do MDB sem obrigá-los a carregar consigo os candidatos petistas.
Que grande aliada! E o PT justifica a aliança com Tebet e com a direita dizendo que isso trará votos de eleitores de centro e de direita. Parece que não.





