À medida que se aproxima o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, volta ao centro da propaganda eleitoral um argumento bastante conhecido: diante da ameaça representada pela extrema direita, qualquer crítica ao governo Lula deveria ser deixada em segundo plano.
Um exemplo particularmente claro apareceu no artigo Expectativas para 4 de outubro de 2026: civilização ou barbárie!, publicado por Elisabeth Lopes no portal Brasil 247. A autora transforma a disputa presidencial numa oposição praticamente absoluta entre Lula e Flávio Bolsonaro. Segundo ela, “entre civilização ou barbárie, não há meio-termo”.
A formulação merece atenção porque não se limita a apontar diferenças entre os dois candidatos. Ela estabelece uma política segundo a qual qualquer discussão sobre os problemas do governo atual se torna secundária diante da necessidade de impedir uma vitória da direita.
É justamente aí que está o problema político. Quando uma eleição é apresentada dessa maneira, desaparece a discussão sobre aquilo que interessa diretamente ao trabalhador: salários, emprego, jornada de trabalho, preços, moradia, serviços públicos e condições gerais de vida. O debate deixa de ser sobre o programa necessário para enfrentar esses problemas e passa a ser reduzido à escolha do adversário considerado menos perigoso.
Essa política já apareceu diversas vezes nos últimos anos. Toda vez que cresce a direita, setores da esquerda concluem que é necessário diminuir as reivindicações, evitar conflitos com o governo e ampliar as alianças com partidos burgueses em nome da defesa da democracia.
O resultado é que o trabalhador é convocado a apoiar uma coalizão política sem que essa coalizão tenha de romper com os interesses econômicos responsáveis por muitos dos problemas enfrentados pela população.
A discussão sobre o governo Lula desaparece atrás da ameaça da direita.
O artigo de Elisabeth Lopes leva essa lógica bastante longe. Ao tratar da possibilidade de uma votação expressiva em Flávio Bolsonaro, a autora afirma que isso demonstraria “o quanto metade da sociedade brasileira está profundamente adoecida” e que faltariam a esses eleitores “memória política” e “senso crítico”.
Esse tipo de explicação pouco ajuda a compreender o fenômeno político.
Não é necessário concordar com o bolsonarismo para perceber que milhões de pessoas não podem ser explicadas simplesmente como uma população politicamente “adoecida”. Uma corrente política que conquista apoio de massas precisa ser analisada a partir das condições sociais que permitem seu crescimento.
A questão, portanto, deveria ser outra: por que uma parcela importante da população trabalhadora continua vendo na direita uma alternativa?
Responder que isso ocorre por falta de memória ou de senso crítico significa praticamente abandonar a tentativa de disputar politicamente esses trabalhadores.
Além disso, a própria política de conciliação com a direita tradicional precisa entrar nessa discussão. Quando setores da esquerda formam governos com representantes dos grandes empresários e dos partidos tradicionais, defendendo essas alianças como condição necessária para impedir a extrema-direita, criam uma situação contraditória.
Combate-se uma ala da direita enquanto outra é incorporada ao próprio governo.
A consequência é que problemas econômicos e sociais continuam existindo, enquanto a extrema-direita procura apresentar-se como oposição ao sistema político.
É necessário examinar esse mecanismo para compreender a permanência do bolsonarismo. Reduzir o problema à suposta incapacidade intelectual de seus eleitores não explica praticamente nada.
O artigo procura reforçar sua argumentação contrapondo Flávio Bolsonaro à atuação internacional de Lula. Um dos exemplos utilizados é o discurso pronunciado pelo presidente brasileiro na Assembleia Geral da ONU.
Na ocasião, Lula declarou:
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
A declaração é importante e expressa uma posição contrária à ingerência norte-americana na América Latina.
Mas a questão da soberania nacional não pode ser analisada apenas a partir de discursos diplomáticos.
Ela precisa ser confrontada com a política econômica realizada dentro do País.
O Brasil continua convivendo, por exemplo, com um Banco Central dotado de autonomia formal desde a Lei Complementar nº 179, de 2021. O próprio Banco Central informa que a legislação estabelece mandatos para sua direção e autonomia na condução da política monetária.
Ao mesmo tempo, o peso dos juros sobre as contas públicas permanece enorme. Nos 12 meses encerrados em maio de 2026, os juros nominais do setor público somaram R$ 1,111 trilhão, equivalentes a 8,48% do Produto Interno Bruto, segundo dados do próprio Banco Central.
A Dívida Pública Federal, por sua vez, chegou a R$ 9,268 trilhões em junho. Apenas naquele mês, a apropriação de juros acrescentou R$ 93,48 bilhões ao estoque da dívida.
Esses números mostram por que o debate sobre soberania não pode parar na política externa.
Um país submetido a uma enorme transferência de recursos por meio da dívida e dos juros enfrenta um problema econômico concreto que não desaparece porque seu governo adota uma posição mais independente em determinados temas internacionais.
Da mesma maneira, o governo continua submetido a metas fiscais e limites de despesas. Em julho, mesmo depois de um desbloqueio de R$ 5,7 bilhões, permaneciam R$ 17,9 bilhões em despesas bloqueadas para o cumprimento das regras orçamentárias.
É possível defender determinadas posições internacionais do governo e, ao mesmo tempo, discutir criticamente sua política econômica. Uma coisa não elimina a outra.
A fórmula do “civilização ou barbárie”, porém, dificulta justamente esse debate.
Ao transformar a eleição numa espécie de emergência permanente, ela tende a considerar qualquer cobrança feita pela esquerda como algo que poderia beneficiar a direita.
Surge então uma lógica circular.
A direita cresce; por isso seria necessário ampliar a Frente Ampla. A ampliação da Frente Ampla exige maiores concessões políticas e econômicas. As concessões provocam frustração entre setores populares. A direita procura explorar essa frustração. E seu crescimento passa a ser utilizado novamente como argumento para novas concessões.
Nesse processo, o programa próprio da classe trabalhadora é continuamente adiado.
Também por isso é insuficiente explicar o crescimento da direita apenas pela propaganda, pelas redes sociais ou por uma suposta irracionalidade dos eleitores.
O problema é político.
Se a esquerda pretende disputar os trabalhadores que hoje votam na direita, precisa oferecer respostas para seus problemas materiais. Não basta classificá-los como desinformados, manipulados ou “adoecidos”.
É preciso disputar politicamente essa parcela da população.
Da mesma forma, combater a extrema-direita não deveria significar suspender as reivindicações dos trabalhadores ou transformar qualquer crítica ao governo numa ameaça à democracia.
Uma política de esquerda precisa ser capaz de enfrentar simultaneamente a direita e os interesses do grande capital.
Caso contrário, cria-se uma situação em que o trabalhador é convocado eleição após eleição a aceitar um programa cada vez mais limitado porque a alternativa seria sempre pior.
A expressão “civilização ou barbárie” cumpre precisamente essa função retórica: elimina as alternativas antes mesmo que elas possam ser discutidas.
O problema fundamental da eleição não deveria ser obrigar o trabalhador a escolher entre duas caracterizações morais dos candidatos, mas permitir que ele examine quais políticas estão sendo propostas para salários, empregos, bancos, dívida pública, serviços públicos e soberania nacional.
A luta contra a direita não se fortalece quando a crítica pela esquerda é proibida. Ao contrário: sem um programa próprio e sem organização independente dos trabalhadores, o terreno permanece aberto para que a direita tente explorar todas as frustrações produzidas pela situação econômica e política do País.
A principal mudança em relação ao original é que agora o texto possui um eixo único: parte do artigo de Elisabeth Lopes, demonstra como funciona a fórmula “civilização ou barbárie”, passa pela caracterização dos eleitores da direita, relaciona isso à política de conciliação e só então entra na contradição entre soberania externa e política econômica. Isso elimina a sensação de três artigos diferentes colados no mesmo texto.





