Ricardo Mezavila publicou no Brasil 247 um artigo intitulado O eleitor adestrado, no qual procura explicar por que trabalhadores continuam apoiando Flávio Bolsonaro apesar das investigações relacionadas ao Banco Master. Sua explicação começa pela caracterização desse eleitor dizendo que “ele segue a boiada”.
Embora “adestrado” possa ser empregado para seres humanos, ninguém desconhece seu uso predominante para cães, cavalos e outros animais. É uma variação do velho costume de setores da esquerda de chamar os eleitores da direita de “gado”.
O problema é que, quando alguém classifica determinado eleitor como “adestrado”, este praticamente desiste de tentar convencê-lo, já que passa a ser tratado como alguém incapaz de pensar por conta própria.
Se milhões de trabalhadores estão sob influência do bolsonarismo, a questão deveria ser justamente compreender como isso aconteceu. Por que pessoas que poderiam apoiar partidos de esquerda passaram a votar na direita ou a considerar Bolsonaro ou e herdeiros políticos como oposição ao sistema?
Chamar essas pessoas de burras, “gado” ou “adestradas” é um subterfúgio. Pior: tende a criar uma barreira justamente com o eleitor que se pretende disputar. Quem é tratado como animal dificilmente ficará mais disposto a ouvir aquele que o insultou.
Se o objetivo é combater a influência do bolsonarismo, o eleitor influenciado por ele deveria ser conquistado politicamente, não desprezado. Considerá-lo um caso perdido significa abandonar antecipadamente a luta política.
Seria o caso de perguntar a Mezavila se existiriam eleitores “adestrados” somente na direita. E o caso de Alexandre de Moraes permite testar esse critério. Em abril de 2018, quando a defesa de Lula tentou impedir sua prisão antes do encerramento dos recursos, Moraes votou contra o habeas corpus. Lula foi encarcerado.
Anos depois, Moraes passou a ser apresentado por setores da esquerda como uma das principais figuras da defesa da democracia em razão de sua atuação contra Bolsonaro e seus aliados.
O caso do Banco Master diminuiu um pouco a aura de santidade do ministro. A Polícia Federal identificou nos metadados de um documento encontrado no celular de Daniel Vorcaro que Moraes realizou edições em uma minuta do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o banco e o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
Flávio Bolsonaro foi incluído numa investigação relacionada ao financiamento do filme Dark Horse. Segundo a PF, Vorcaro teria disponibilizado R$ 61 milhões para a produção a pedido do senador. Relatórios também registram que Flávio havia solicitado inicialmente R$131 milhões ao banqueiro. O senador afirma que não houve irregularidade e que se tratava de recursos privados destinados ao filme.
No Brasil 247, entretanto, Mezavila afirma que os fatos contra Flávio estariam “registrados e comprovados” e termina acusando seu eleitor de chamar de perseguição “aquilo que é crime”. Mas não trata assim Moraes, e o mesmo princípio deveria valer para qualquer pessoa investigada.
Durante décadas, Geraldo Alckmin foi uma das principais figuras do PSDB e adversário do PT. Reprimiu professores, estudantes, e hoje, Alckmin é vice-presidente de Lula. Seria razoável chamar de “adestrado” todo eleitor petista que aceitou essa aliança?
Em 2024, o Brasil vetou a entrada da Venezuela no BRICS, provocando uma crise diplomática com Caracas. Quantos eleitores de esquerda protestaram contra a decisão? E os que não protestaram deveriam, pelo mesmo método de Mezavila, ser classificados como incapazes de questionar o governo que apoiam? É muito cômodo transformar esse comportamento em deficiência intelectual quando ocorre no campo adversário.
Além disso, existe uma questão que o artigo praticamente deixa de lado: as razões materiais e políticas que podem fazer trabalhadores se afastarem da esquerda.
O Banco Central reduziu a Selic em setembro, mas a taxa permaneceu em 13,75% ao ano. Mesmo depois de cinco cortes consecutivos, os juros reais brasileiros continuam entre os mais elevados do mundo.
Quanto ao Bolsa Família, a proposta de Orçamento de 2027 enviada ao Congresso em 31 de agosto não previa reajuste do benefício e reservava R$ 157,1 bilhões ao programa, abaixo dos R$ 158,6 bilhões previstos para 2026. O benefício mínimo continuaria em R$ 600.
Somente em 17 de setembro, pressionado pelas pesquisas eleitorais, o governo anunciou uma correção de 15,04%, elevando o mínimo para R$691. Segundo o próprio governo, trata-se da recomposição da inflação medida pelo INPC desde março de 2023, e não de aumento real do benefício.
Há ainda a política de Frente Ampla. Lula chegou ao terceiro mandato tendo Geraldo Alckmin como vice e estabeleceu uma relação de defesa das instituições que estiveram no centro das crises políticas dos anos anteriores. Para setores da população, o governo passou a ser identificado com o sistema político e institucional, enquanto a direita procura ocupar retoricamente o espaço de oposição a esse sistema.
O trabalhador votou na direita por que é irracional ou por que deixou de confiar na esquerda? Alianças realizadas, as políticas econômicas aplicadas, as promessas abandonadas e a defesa de instituições, tudo isso deve entrar na avaliação das razões da população para seus apoios políticos.
Um trabalhador que hoje apoia Bolsonaro não nasceu bolsonarista e pode até mesmo ter votado no PT anteriormente. É justamente essa pessoa que uma organização política deveria procurar compreender e convencer para que retorne às posições de esquerda.
Quando o eleitor é previamente classificado como “gado”, integrante de uma “boiada” ou “adestrado”, a discussão política é substituída pelo desprezo. O bolsonarismo não precisa fazer muito para conservar esse eleitor quando seus adversários já decidiram que conversar com ele não vale a pena.
Criticar o eleitor serve para encobrir a política da esquerda, que se contentou em ser uma gestora do Estado burguês e, por conseguinte, os interesses da burguesia, inimiga da classe trabalhadora.





