Ceará

“Nós queremos a estatização de todo o sistema financeiro”, diz candidato do PCO

Eleição não vai resolver o problema da população, "ai resolver a situação dos senadores que estão lá. O bolso deles vai estar recheado durante esses 8 anos"

O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao Senado pelo Ceará, Lino Alves, encerrou na quinta-feira (24) a série de sabatinas promovida pelo Grupo de Comunicação O Povo. Engenheiro de 70 anos, ele respondeu a perguntas sobre seu registro eleitoral, os presos pelos acontecimentos de 8 de Janeiro, a existência do Senado, salário mínimo, dívida pública e sistema financeiro.

A primeira pergunta tratou da situação de seu registro eleitoral, que aparece como indeferido, mas ainda está sob recurso. Lino afirmou que existe uma pendência relacionada a uma eleição anterior e criticou a burocracia da Justiça Eleitoral, que impõe dificuldades especialmente aos partidos menores.

“A gente tem uma pendência na questão eleitoral. Eu não lembro em qual foi o ano que parece que não foi prestada conta, alguma coisa desse tipo. A prestação de contas do TSE deveria ser uma coisa muito mais simples. O tribunal tem muito dinheiro, mas infelizmente não utiliza esse dinheiro para melhorar os recursos de como você vai preencher a prestação de contas. Para partido pequeno, geralmente inviabiliza muito isso. Eu vejo isso mais como uma maneira do TSE nos perseguir, como já vem fazendo ao longo da trajetória do nosso Partido.”

A entrevista passou então à anistia aos envolvidos nos acontecimentos de 8 de Janeiro. Perguntado sobre a posição defendida por Ieri Braga, candidato do PCO ao governo do Ceará, Lino afirmou que apoiaria uma anistia geral. Essa é a posição do Partido. Ele rejeitou a caracterização daqueles acontecimentos como tentativa de golpe de Estado e criticou as penas aplicadas aos condenados.

“Com certeza. Até porque o pessoal do 8 de Janeiro não deu um golpe de Estado. Foi uma manifestação de direita, uma manifestação dos bolsonaristas, acreditando que ia melhorar a situação. Foi uma situação errada, lógico, mas daí você colocar, como colocaram a Débora do Batom, 14 anos de prisão, é outra coisa. Prisão, para quem não sabe o que é prisão, visite uma cadeia. Cadeia é a pior desgraça que existe para o ser humano. Esse pessoal deve ser solto.”

Um dos principais pontos da sabatina foi a defesa da extinção do próprio Senado. Lino afirmou que a Casa é ocupada predominantemente por representantes ou aliados de banqueiros, grandes empresários e outros setores da burguesia e, por esse motivo, não atende aos interesses da maioria da população.

A entrevistadora perguntou por que disputar um mandato de oito anos numa instituição cuja extinção ele próprio defende. Lino respondeu que sua eventual eleição não seria apresentada pelo PCO como solução em si mesma, mas como instrumento para defender o programa do Partido.

“As pessoas que chegam ao Senado são banqueiros ou patrocinadas por banqueiros, patrocinadas pela grande burguesia. Então essas pessoas não estão preocupadas com o trabalhador, estão preocupadas única e exclusivamente com aquilo que é delas, ou seja, com os bancos, com os grandes empresários. Jamais esses senadores vão estar preocupados com a classe trabalhadora. Então, se não estão preocupados com a classe trabalhadora, para que serve esse Senado? Simplesmente para nada. Se não serve para o trabalhador, extingue essa Casa.”

Lino citou ainda projetos que saem da Câmara dos Deputados e são modificados para pior ao passarem pelo Senado. Ao ser perguntado se aceitaria perder o próprio mandato caso a Casa fosse extinta, respondeu que nem sua eleição nem a dos demais senadores resolveria os problemas sociais.

A partir daí, apresentou a defesa de um salário mínimo de aproximadamente R$7.500. Para ele, o piso atual é insuficiente para garantir não apenas alimentação e moradia, mas também descanso, lazer e demais necessidades.

“A minha eleição não vai resolver o problema dos trabalhadores. E nem a eleição dos 81 senadores. Muito pelo contrário, ali vai resolver a situação dos senadores que estão lá. O bolso deles vai estar recheado durante esses oito anos, seja com emenda, seja com outra coisa, mas o bolso do trabalhador vai estar vazio com R$1.621. Isso não é salário para o trabalhador. Nós queremos um salário de R$7.500, R$8.000, que é um salário digno para a classe trabalhadora.”

O entrevistador questionou como um aumento dessa dimensão poderia ser suportado por micro e pequenas empresas sem produzir demissões ou crescimento da informalidade. Lino respondeu que o problema deveria ser enfrentado por meio da suspensão do pagamento da dívida pública e da redução do peso do sistema financeiro sobre a economia.

Na proposta apresentada pelo PCO, os recursos destinados aos juros poderiam ser empregados em educação, saúde e outros serviços. O sistema financeiro, por sua vez, deveria ser estatizado, permitindo a concessão de crédito barato aos pequenos empresários.

“O que nós propomos, na verdade, é a extinção da dívida pública. Nós continuamos pagando aos banqueiros. Quem está achando bom, quem está gostando de receber esse dinheiro todo ano, são os banqueiros. Acabando a dívida pública, vai sobrar dinheiro para educação, vai sobrar dinheiro para saúde, vai sobrar dinheiro para que a gente possa fazer alguma coisa a mais no País. Porque trabalhar para dar dinheiro para banqueiro não serve para a classe trabalhadora.”

Lino afirmou que os juros elevados atingem tanto assalariados quanto pequenos e médios empresários. A estatização dos bancos, em sua proposta, permitiria utilizar o crédito como instrumento de financiamento da produção, em vez de fonte de lucros para instituições privadas.

“Se a gente estatizar o sistema financeiro e colocar um juro bem baixo, os próprios pequenos empresários, os MEIs, podem usar esse crédito a seu favor. Hoje os bancos cobram de quem vai pedir um empréstimo um juro absurdo. Fazem isso contra os trabalhadores, contra os pequenos empresários, contra os médios empresários, contra toda a população. Nós não queremos trabalhar para dar dinheiro para banqueiro.”

A Petrobrás também foi mencionada. O candidato criticou a distribuição de lucros aos acionistas e defendeu que os recursos produzidos pela empresa sejam utilizados em benefício da população.

No encerramento, Lino reuniu suas propostas em torno da ampliação do controle público sobre setores essenciais. Defendeu saúde e educação estatais, estatização do sistema financeiro e retomada das empresas entregues ao capital privado.

“Nós queremos estar no Senado Federal exatamente para defender o trabalhador. Nós queremos defender a estatização do ensino, da saúde e de todo o serviço público, porque entendemos que só assim os trabalhadores poderão ter uma situação menos ruim do que têm hoje. Não interessa para o trabalhador ter uma empresa privada cuidando da saúde, uma empresa privada cuidando da educação. Aí nós estamos dando dinheiro para a burguesia de novo. Nós queremos a estatização de todo o sistema financeiro e a reestatização de todas as empresas que foram privatizadas.”

Lino foi o último participante da série de entrevistas do O Povo com os candidatos ao Senado. As sabatinas destinadas às candidaturas de menor representação partidária tiveram duração de 15 minutos, segundo o critério definido pelo grupo de comunicação a partir da tabela de representatividade do TSE. Trata-se de um critério extremamente antidemocrático que beneficia os principais candidatos da burguesia. O Povo, assim, dá mais espaço para os candidatos favoritos de seu proprietário, manipulando o voto do eleitor.

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