O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) à Presidência da República, Rui Costa Pimenta, concedeu entrevista à BNTV Brasil e apresentou algumas das principais posições defendidas pelo Partido nestas eleições. Durante a conversa, falou sobre a crise do Supremo Tribunal Federal (STF), o funcionamento das instituições políticas, os processos contra Lula e Jair Bolsonaro, o futuro do PT, segurança pública e a luta do povo palestino.
Ao comparar a atual campanha com sua primeira disputa presidencial, em 2002, Pimenta considerou que o País vive o encerramento do período político aberto pela primeira vitória de Lula. Segundo ele, o PT despertou grandes expectativas naquele momento, mas chega a 2026 diante de um desgaste crescente entre seus próprios eleitores.
“A primeira eleição que eu participei foi a primeira vitória do PT, a vitória do Lula, em 2002. Isso abriu uma nova etapa política, etapa onde o PT vai predominar. Nos últimos 24 anos, nós tivemos aí só o governo Bolsonaro e uma parte com o Temer, sem o PT. Então, isso é uma mudança importante. E o PT, que começou, eu acho, infundindo bastante esperança no eleitorado, agora está numa situação difícil, uma situação de visível cansaço do eleitorado com o PT. […] Eu acho que nós estamos vivendo um fim de ciclo.”
Pimenta também destacou a importância assumida pela Internet. Para ele, as redes facilitaram a divulgação das posições do PCO e permitiram que o Partido formasse um público regular para seus programas políticos, algo muito mais difícil quando a campanha dependia principalmente dos meios tradicionais de comunicação.
Questionado sobre a diferença entre o PCO e a esquerda ligada ao governo federal, o candidato apontou como questão fundamental a atitude diante das instituições do regime político.
“A esquerda, digamos assim, institucional, representada pelo atual governo, ela é uma esquerda que optou por trabalhar no interior das instituições existentes. Então, a promessa que o PT faz, que eu acho que muita gente está vendo que não vai acontecer, é que dentro dessas instituições é possível fazer mudanças grandes no País. A nossa avaliação é que isso se mostrou uma expectativa equivocada. Para mudar o País, você precisa mudar as instituições políticas, e isso daí de uma maneira radical. Por meio dessas instituições, nós acreditamos que nós não vamos para lugar nenhum.”
O STF ocupou uma parte extensa da entrevista. Rui declarou que o Supremo assumiu poderes políticos cada vez maiores nos últimos anos e passou, inclusive, a interferir em atribuições que deveriam pertencer ao Legislativo. Ele lembrou que a defesa da extinção do STF enquanto Corte Constitucional não surgiu com a crise atual, mas faz parte do programa defendido há anos pelo PCO.
“A crise do STF é muito grave, do ponto de vista da continuidade do regime. Nós vimos aí nos últimos seis anos, aproximadamente, que o STF assumiu um papel gigantesco na situação política. Ele passou a criar leis, que é uma coisa que não poderia ter feito de forma nenhuma. […] Nós, da nossa parte, sempre fomos contra que houvesse uma Corte Constitucional com os poderes que o STF tem. Nós achamos que não poderia ter uma Corte que interpreta e modifica as leis. O trabalho legislativo tem que pertencer ao Congresso Nacional. Então nós somos favoráveis à extinção do STF enquanto Corte Constitucional.” Texto colado
Como parte dessa reforma, Pimenta defendeu a eleição popular dos juízes e mandatos reduzidos, sobretudo nos tribunais superiores. Para o candidato, os magistrados deveriam se limitar a aplicar as leis, em vez de transformar os tribunais em instrumentos de intervenção na política nacional.
A entrevista passou então aos acontecimentos de 8 de janeiro. Pimenta rejeitou a interpretação de que a invasão dos prédios públicos tenha constituído uma tentativa efetiva de golpe de Estado. Ao mesmo tempo, deixou claro que sua posição não decorre de apoio político ao bolsonarismo. Para ele, eventuais casos de depredação deveriam ter sido apurados individualmente e punidos de acordo com os atos concretamente praticados.
“Eu não tenho nenhuma simpatia pela posição política dessa gente. Não é esse o problema. Não estou defendendo porque eu acho que eles estavam certos, eu acho que eles estavam errados do ponto de vista político, mas eu acho que é direito de cada um se manifestar. E sofreram uma repressão brutal, com condenações de 14, 16 anos. Isso é totalmente inadmissível.”
O dirigente relacionou essa posição à campanha realizada pelo PCO contra a prisão de Lula durante a Operação Lava Jato. Para ele, a defesa das garantias democráticas não pode depender da posição política de quem está sendo processado. Pimenta considerou irregulares tanto o processo que afastou Lula da eleição de 2018 quanto os processos que retiraram Jair Bolsonaro da disputa de 2026.
“Eu também não aprovei o processo contra o Lula. Nós protestamos contra aquele processo da Lava Jato e eu acho que é uma coisa essencial, do ponto de vista da defesa dos direitos do povo brasileiro, exigir que os processos judiciais sejam justos. É antidemocrático você submeter a pessoa a julgamentos que são visivelmente manipulados.”
Para Pimenta, a crise não se limita ao Supremo. O funcionamento do Congresso também demonstra o esgotamento do regime político. Ele citou, entre outros exemplos, o poder concentrado nas mãos dos presidentes da Câmara e do Senado e afirmou que a própria evolução da crise poderá trazer novamente ao debate a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.
“A população está tendo uma experiência política muito importante, porque toda essa crise é um aprendizado. O que eu vejo, em geral, é que está todo mundo discutindo esse problema. Então, a crise em si prepara o País para mudanças. E eu acho que é necessário pensar em mudanças de grande alcance. Não é só o STF. […] De um modo geral, todas as instituições, há um visível esgotamento do regime político e esse esgotamento, as pessoas tendo consciência plena ou não nesse momento, vai levar a uma mudança.” Texto colado
Perguntado sobre os objetivos de sua candidatura, Rui explicou que a participação do PCO nas eleições serve para divulgar seu programa e reunir pessoas em torno de uma alternativa política. Ele reconheceu que considera Lula e Flávio Bolsonaro os dois nomes que concentram a disputa presidencial, mas avaliou positivamente o alcance obtido pelo Partido durante a campanha.
“Nós entramos na eleição num sentido para divulgar as nossas ideias. Isso tem sido um trabalho bem-sucedido, eu acho. Nós conseguimos uma audiência bastante ampla durante a campanha eleitoral, discutimos muitas coisas e fortalecemos um movimento político alternativo. Não é apenas divulgar as ideias, mas agrupar pessoas em torno dessas ideias. Eu acho que o PT, como partido de esquerda, como partido que representa a esquerda nacional e principalmente os trabalhadores também, ele caminha para um esgotamento assim como o regime político.” Texto colado
Sobre o futuro do PT, Pimenta disse não enxergar atualmente um sucessor de Lula capaz de reunir as diferentes correntes do Partido. Para ele, a legenda depende fortemente da liderança pessoal do presidente e já apresenta sinais de perda de força em vários estados. O dirigente comparou ainda lulismo e bolsonarismo como movimentos que agrupam setores diferentes em torno de lideranças carismáticas, embora considere que atualmente estejam em momentos políticos distintos.
A possibilidade de governar diante de um Congresso hostil levou Pimenta a defender novamente a mobilização popular. Segundo ele, um governo pode adaptar sua política à maioria parlamentar ou recorrer à pressão organizada da população sobre as instituições. A segunda alternativa, afirmou, foi defendida pelo PCO também no início do atual governo Lula.
“Fazer como Lula fez, procurar chegar num acordo com as forças predominantes dentro do Congresso, o que limita de uma maneira muito grande a sua capacidade de realização. E outra possibilidade, que foi o que nós propusemos ao governo do PT no começo, nós apoiamos o Lula na eleição passada, que era mobilizar a população, exercer uma pressão política sobre as instituições. Acho que sem essa pressão não há como destravar o processo do Congresso Nacional e das instituições em geral.”
Na discussão sobre segurança pública, o candidato rejeitou propostas baseadas principalmente no aumento das penas e na construção de presídios. Para Pimenta, o sistema policial não está organizado para garantir proteção permanente aos bairros populares. Como alternativa, defendeu formas de policiamento organizadas regionalmente e submetidas ao controle da própria população.
“Nós defendemos que o policiamento nos bairros populares, que é o nosso interesse, porque a população de mais dinheiro tem como se defender, mas os bairros populares, de classe média baixa etc., nós achamos que deveria ter um policiamento que fosse feito pela própria população, que fosse feito regionalmente, quer dizer, nos bairros mesmo. […] Uma polícia com essas características seria, na minha opinião, uma maneira de proteger o cidadão, não de proteger o banco.”
No encerramento, o apresentador perguntou sobre a posição do PCO diante do Hamas e da luta palestina. Pimenta lembrou que viajou ao Catar depois de 7 de outubro de 2023, onde encontrou dirigentes do movimento palestino e realizou entrevistas que posteriormente serviram para o livro O Hamas conta o seu lado da história. Ele reafirmou que o apoio do PCO ao Hamas está ligado à posição histórica do Partido em defesa da luta nacional palestina.
“Nós, PCO, sempre apoiamos a luta do povo palestino, sempre. Nós achávamos que a criação do Estado de ‘Israel’ foi uma operação política contra o povo palestino. Nós sempre propusemos uma mudança radical na situação, que seria a substituição do Estado de ‘Israel’ por um Estado multinacional em toda a Palestina. Então, nós apoiamos a luta do povo palestino desde o começo e apoiamos o Hamas há muito tempo, acompanhamos a trajetória do Hamas. Nós vemos o Hamas como pessoas que lutam pelo seu país, pelo seu povo.”



