O artigo IA: A fartura de imagens e a escassez do imaginário, publicado nesta quinta-feira (24) no sítio Outras Palavras, parte de uma constatação verdadeira para chegar a uma conclusão duvidosa. Nunca se produziram tantas imagens. Com a inteligência artificial, uma pessoa pode gerar em minutos aquilo que antes exigiria horas ou dias de trabalho. As grandes plataformas têm evidente interesse nessa abundância, pois imagens baratas e numerosas alimentam continuamente a disputa pela atenção. O próprio artigo chama atenção para esse aspecto econômico.
A dificuldade surge quando a multiplicação das imagens é apresentada como empobrecimento da imaginação. No texto, a facilidade de produzir transforma-se quase automaticamente em esvaziamento: multiplicam-se as imagens, mas não a capacidade de imaginar. Essa relação, porém, precisaria ser demonstrada, pois a história da arte oferece boas razões para se desconfiar dela.
Em 1859, Charles Baudelaire reagiu duramente à fotografia. Em seu Salão de 1859, tratou o novo processo como uma indústria que deveria permanecer subordinada à arte e temeu que sua entrada no domínio do “impalpável e do imaginário” prejudicasse a criação artística. A Biblioteca Nacional da França destaca justamente o temor do poeta diante da rápida ascensão da fotografia.
Durante séculos, representar com precisão um rosto, um animal ou uma paisagem exigia domínio do desenho ou da pintura. A fotografia entregou parte enorme desse trabalho a um aparelho. Aquilo que dependia da habilidade da mão passou a poder ser obtido por um mecanismo físico e químico. Era, portanto, razoável se perguntar se a máquina não estava expulsando a imaginação do processo.
A história mostrou outra coisa. A fotografia não destruiu a pintura e não permaneceu simples cópia mecânica do mundo. Além disso, criou seus próprios problemas artísticos como enquadramento, distância, iluminação, instante, composição, seleção. A máquina automatizou uma parte enorme da execução, mas não eliminou a escolha humana.
A fotografia nos permitiu enxergar aquilo que o próprio olho não conseguia perceber.
O caso de Eadweard Muybridge ilustra bem esse fato. Contratado por Leland Stanford para investigar o movimento de um cavalo em galope, Muybridge utilizou uma sequência de câmeras e, em 1878, registrou aquilo que a observação humana não conseguia resolver com segurança: em determinado momento do galope, as quatro patas do cavalo ficam simultaneamente fora do chão. Uma sequência de 12 câmeras congelou frações do movimento rápidas demais para serem analisadas dessa maneira pelo olho.
Muybridge levou depois o método muito mais longe. Entre 1884 e 1886, realizou mais de 20 mil negativos de seres humanos e animais em movimento, utilizando conjuntos de câmeras para registrá-los de diversos ângulos. A fotografia, portanto, não apenas reproduziu aquilo que já víamos. Ela ampliou nossa capacidade de ver e forneceu material para pensar o movimento de uma maneira nova.
Esse episódio é especialmente importante para a discussão sobre inteligência artificial. Uma tecnologia pode retirar do homem determinada tarefa técnica e, ao mesmo tempo, ampliar aquilo que ele consegue perceber, experimentar e imaginar. A máquina não precisa possuir imaginação para tornar possíveis novas operações da imaginação humana.
Malena Segura Contrera afirma no artigo que “para a inteligência artificial, produzir aparências de imagens é muito fácil. Mas a imagem não é a aparência. […] A imagem é essa relação entre o ser imaginante e aquilo que se dá a revelar.”
Mas o “ser imaginante” não precisa estar dentro da ferramenta. Também não existe ninguém imaginando dentro de uma câmera fotográfica. A lente não sabe o que enquadra; o obturador não entende o momento que registra. Um pincel tampouco sabe o que pinta. O problema sempre foi o que o homem consegue fazer com o instrumento.
Com a IA, essa relação pode se tornar ainda mais fértil. Um escritor imagina uma cidade, produz uma representação, percebe que determinada construção deveria ser maior, muda a iluminação, altera a época histórica, elimina uma rua e descobre, na imagem resultante, uma possibilidade que não havia concebido antes. A representação deixa de ser apenas resultado da imaginação e passa a alimentá-la.
Isso já faz parte de toda criação. O pintor modifica a obra enquanto pinta. O esboço interfere na ideia original. O fotógrafo encontra possibilidades que não havia previsto antes de olhar o resultado. A montagem altera o filme. Produzir uma imagem não é simplesmente executar uma ideia previamente acabada; muitas vezes é uma maneira de pensar.
Por isso, a redução das barreiras técnicas entre imaginar e representar pode ter efeito oposto ao previsto pelo artigo. Uma pessoa que não sabe desenhar pode experimentar visualmente uma composição. Um escritor pode estudar a aparência de um cenário. Um cineasta sem recursos pode testar uma sequência impossível de construir naquele momento. Uma criança pode transformar uma história inventada em imagens e, a partir delas, inventar outra.
A abundância de fotografias banais nunca demonstrou que a fotografia empobrecia a imaginação. O erro está em tomar a produção industrial de material descartável como medida das possibilidades de uma técnica.
O artigo acerta ao lembrar que empresas procuram baratear a produção de imagens e produzi-las em volume cada vez maior. Mas a utilização capitalista de uma força produtiva não estabelece os limites dessa força produtiva. A imprensa industrial imprimiu grandes obras e toneladas de lixo; o cinema produziu obras extraordinárias e publicidade; a fotografia criou milhões de retratos esquecíveis e, ao mesmo tempo, transformou a própria maneira de olhar.
A passagem sobre o “simulacro” leva o argumento ainda mais longe: uma imagem produzida tecnicamente seria vazia porque “não há ninguém do outro lado imaginando-a”. Mas pode haver alguém deste lado escolhendo, dirigindo, rejeitando, combinando e transformando. Confundir a ausência de consciência na máquina com ausência de imaginação no processo é deslocar a criatividade do homem para a ferramenta.
Muybridge mostrou que a fotografia podia registrar coisas que o olho não alcançava. O desenvolvimento posterior mostrou que essa capacidade técnica não diminuiu a visão humana: ampliou-a. Algo semelhante pode ocorrer com a inteligência artificial. Ao diminuir drasticamente o trabalho necessário para testar uma imagem, ela permite que muito mais possibilidades visuais sejam experimentadas, comparadas, modificadas e abandonadas.
A máquina não começou a imaginar por nós. O bom é que, pela primeira vez, dispomos de uma máquina capaz de acompanhar, quase instantaneamente, uma parcela muito maior daquilo que conseguimos imaginar. E isso, seguramente, irá alargar nossos horizontes.




