Eleições 2026

Apreensivo, PIG usa caso Master para chantagear Lula e Flávio

Reportagens publicadas no mesmo dia expõem relações de Flávio Bolsonaro e de integrantes do governo Lula com o entorno de Vorcaro

A burguesia não conseguiu, até agora, fazer decolar uma candidatura que substitua Lula e Flávio na disputa principal. Nenhum dos dois é a solução preferida do grande capital. Se a eleição acabar decidida entre eles, porém, resta uma alternativa: reduzir a margem de manobra do vencedor antes mesmo de sua chegada ao Palácio do Planalto.

O caso Master acumulou material envolvendo banqueiros, advogados, ministros do Supremo, integrantes do governo, políticos e empresários. Nas mãos do chamado Partido da Imprensa Golpista, o PIG, esse conjunto pode ser empregado para manter os dois principais candidatos permanentemente sob pressão.

Flávio Bolsonaro recebeu nesta quinta-feira duas novas manchetes negativas.

O Globo informou que a Polícia Filial encontrou um correio eletrônico referente à reserva de um voo para Flávio, sua mulher e suas filhas numa aeronave administrada pela Prime You, empresa que teve Vorcaro entre seus sócios. O jatinho, um Legacy 650 de prefixo PP-NLR, seria usado num trecho entre Brasília e São Paulo em janeiro de 2024.

A própria investigação concluiu que a viagem não ocorreu conforme a reserva. Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio, estava fora do País no horário programado, enquanto Flávio retornou ao Brasil em outro voo. Isso não impediu que o episódio fosse transformado em nova manchete sobre a ligação do presidenciável com o avião associado ao banqueiro.

A reportagem recuperou ainda uma viagem realizada no mesmo jatinho em janeiro de 2025, quando Flávio voltou da Flórida acompanhado da família e de Willer. Questionado pelo jornal, o candidato negou qualquer relação de Vorcaro com o episódio:

“Na época, o avião era do Willer, eu tive zero contato com Vorcaro. Fizemos uma viagem em família, mais nada. O avião era dele. Não sabia da cota da empresa (Prime You). Para mim, o avião era do Willer. Qualquer coisa além disso é distorção da realidade.”

Mais pesada foi a revelação publicada pelo Estadão. Registros retirados do telefone de Vorcaro mostram que Flávio procurou o banqueiro durante os quatro dias que antecederam sua prisão, ocorrida em 17 de novembro de 2025.

No dia 13, escreveu: “Fala mermao! Bom dia! Pode atender?”. Houve novas tentativas nos dias seguintes. Em 16 de novembro, Flávio enviou outra mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. S6 preciso que me dê uma luz! Abs”. Vorcaro seria preso no dia seguinte.

O jornal acrescentou às tentativas de ligação informações já encontradas pela PF sobre a relação entre os dois. Flávio vinha procurando Vorcaro para tratar de recursos destinados a Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Num dos áudios divulgados, o então senador reclamava das contas da produção e cobrava uma definição do banqueiro.

O resultado é um conjunto muito mais útil politicamente do que a mera reserva de um avião: conversas frequentes, pedidos de recursos, encontros e tentativas insistentes de falar com Vorcaro justamente quando o Master já estava sob forte pressão.

No mesmo dia, contudo, O Globo abriu uma frente contra o outro polo da eleição.

A reportagem revelou conversas entre Walfrido Warde, advogado de Vorcaro, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que era chefe de gabinete de Lula. As mensagens foram trocadas quando o banqueiro tentava impedir o fracasso da operação de venda do Master ao BRB.

Warde queria que Lula fosse avisado das dificuldades enfrentadas no Banco Central. Num grupo de WhatsApp, escreveu: “@Marco Aurélio Marcola teremos de ir pra cima do Bacen. Peço pra avisar o presidente”. Pouco depois, atacou Gabriel Galípolo: “Não dá mais. O Gabriel não tem estofo pro cargo. Avise o chefe por favor”.

Marcola respondeu inicialmente: “Vixe. Blz”. Quando Warde voltou a reclamar que o Banco Central estava “embarreirando” a operação, o então chefe de gabinete escreveu: “Avisarei aqui. Dou notícias”.

O Planalto negou que Lula tenha participado de qualquer articulação em favor de Vorcaro. A Presidência afirmou que houve apenas um encontro entre os dois, em dezembro de 2024, e que Lula teria dito ao banqueiro que eventuais denúncias deveriam ser tratadas tecnicamente pelo Banco Central. Marcola também negou ter intermediado interesses privados e afirmou que apenas faria os encaminhamentos institucionais cabíveis.

A questão não é transformar cada uma dessas revelações numa prova definitiva de crime. Algumas mostram relações diretas; outras, apenas aproximações, tentativas de contato ou declarações de terceiros. Justamente por isso o caso pode ser usado com tanta flexibilidade na disputa política.

Há material contra Flávio. Há material que permite pressionar Lula. Há documentos sobre ministros do Supremo. Há contratos, mensagens, aeronaves, reuniões e advogados circulando entre diversos centros de poder. Cada fragmento pode ser destacado em determinado momento para abrir um novo flanco contra um adversário.

A ofensiva simultânea sobre Lula e Flávio revela uma preocupação maior do grande capital. Se a burguesia não conseguir substituir os dois principais candidatos por uma terceira alternativa, procura garantir que o futuro presidente chegue enfraquecido ao governo.

Isso ajuda a entender por que atacar os dois pode ser mais útil do que escolher imediatamente um deles. Um governo vulnerável é mais fácil de pressionar na discussão sobre bancos públicos, privatizações, direitos trabalhistas, gastos do Estado e outras medidas econômicas de interesse do grande capital.

A imagem do “revólver apontado para a cabeça” resume essa situação política. O próximo governo pode assumir sabendo que há material suficiente para produzir uma crise caso entre em conflito com setores poderosos.

Para Flávio, ficam expostos os contatos com Vorcaro, as cobranças de recursos e as viagens associadas ao círculo do banqueiro. Para Lula, aparecem as tentativas de interlocutores do Master de chegar ao presidente por dentro do próprio Palácio do Planalto.

O caso Master oferece, assim, uma reserva de munição política contra qualquer um dos dois. A eleição ainda não terminou, mas o PIG já trabalha para que o vencedor saiba quais armas poderão ser usadas contra seu governo.

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