Política internacional

Em assembleia da ONU, Trump volta a ameaçar o Irã

Presidente dos EUA falou em “aniquilar” o país e pediu seu isolamento econômico, enquanto Teerã alerta para preparativos de uma nova ofensiva

Donald Trump voltou a ameaçar o Irã nesta terça-feira (22), durante seu discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. O presidente dos Estados Unidos pediu aos demais países que aumentem o cerco econômico contra Teerã e afirmou que Washington poderá “aniquilar” a República Islâmica caso não consiga impor um acordo.

Trump apresentou a ofensiva contra o Irã como uma realização de seu governo e voltou a condicionar qualquer negociação ao programa nuclear iraniano. Ao mesmo tempo em que falou na possibilidade de um acordo depois das eleições legislativas norte-americanas de novembro, deixou aberta a ameaça de novos ataques. Segundo a Reuters, o presidente pediu às demais nações que participem do isolamento econômico de Teerã.

As declarações foram feitas quando o governo iraniano afirma que há sinais de preparação para outra ofensiva norte-americana. Em entrevista à Al Mayadeen, o professor Mohammad Marandi disse que Teerã recebeu informações de que forças dos Estados Unidos estariam sendo posicionadas para um novo ataque, com auxílio de governos aliados na região.

Marandi citou a presença de pelo menos 25 aviões norte-americanos de reabastecimento no Catar, que poderiam abastecer caças dos Estados Unidos ou de “Israel”. Segundo ele:

“Os iranianos têm informações de inteligência de que os Estados Unidos estão se preparando para um ataque e de que regimes da região alinhados aos Estados Unidos estão cooperando nesse sentido.”

O professor ressalvou que a movimentação militar não significa que Washington já tenha decidido realizar a operação. Para ele, significa que os meios necessários foram preparados. Marandi afirmou também que o Irã considera a possibilidade de atacar primeiro caso sua direção conclua que uma ofensiva é iminente.

“Sim, é uma opção que os iranianos têm. Eles podem atacar primeiro porque já estamos em guerra, não existe cessar-fogo e os Estados Unidos estão promovendo uma guerra econômica contra os iranianos”, declarou.

O governo iraniano, por outro lado, autorizou sua delegação em Nova Iorque a negociar uma saída para o conflito. Uma autoridade de Teerã disse à Reuters que o país aceita reabrir o Estreito de Ormuz caso Washington diminua a pressão militar e retire o bloqueio aos portos iranianos. A delegação iraniana classificou a Assembleia Geral como uma oportunidade para a retomada da diplomacia.

Washington responde com as duas armas tradicionais de sua política externa: negociação sob pressão e ameaça militar. O secretário de Estado Marco Rubio declarou que os Estados Unidos estão abertos a conversar com os iranianos, embora nenhuma reunião estivesse marcada. Horas depois, Trump utilizou a tribuna da ONU para falar abertamente na possibilidade de destruir o adversário.

Na interpretação do DCO, o discurso de Trump não deve ser tratado como uma excentricidade pessoal do atual presidente. A agressividade contra o Irã se insere numa política militar desenvolvida pelos Estados Unidos há décadas e mantida por governos republicanos e democratas.

Neste mês completaram-se 25 anos dos atentados de 11 de Setembro de 2001. O governo republicano de George W. Bush utilizou os ataques para lançar a chamada “guerra ao terror”, invadiu o Afeganistão e, dois anos depois, o Iraque. As operações militares continuaram sob Barack Obama. O democrata manteve a guerra no Afeganistão, ampliou o uso de aeronaves não tripuladas e participou da guerra que destruiu a Líbia.

O balanço dessas guerras dá uma medida do que significou a política inaugurada depois de 2001. O projeto Costs of War, da Universidade Brown, calcula que pelo menos 940 mil pessoas morreram diretamente pela violência nas guerras posteriores ao 11 de Setembro. Quando são consideradas também as mortes decorrentes da destruição da infraestrutura, dos serviços públicos, dos sistemas de saúde e das economias dos países atingidos, a estimativa chega a entre 4,5 milhões e 4,7 milhões. Mais de 38 milhões de pessoas foram deslocadas.

O levantamento abrange Afeganistão, Paquistão, Iraque, Síria, Iêmen e outras áreas atingidas pela chamada “guerra ao terror”. A Universidade Brown calcula entre 3,6 milhões e 3,8 milhões de mortes indiretas e ressalva que não é possível determinar com precisão o número total.

Esses números também impedem que a política de guerra dos Estados Unidos seja reduzida à oposição eleitoral entre republicanos e democratas. Bush iniciou as principais guerras depois de 2001; Obama herdou parte delas e abriu ou ampliou outras operações; governos posteriores conservaram bases, sanções, operações militares e a estrutura mundial organizada durante a “guerra ao terror”. O próprio Costs of War registra atividades norte-americanas de contraterrorismo em 78 países.

O Irã conhece essa política antes mesmo do 11 de Setembro. Na entrevista à Al Mayadeen, Marandi lembrou o caso do voo Iran Air 655, derrubado pelo cruzador norte-americano USS Vincennes em 1988, no Golfo Pérsico. As 290 pessoas a bordo morreram. O episódio permanece como uma das referências históricas utilizadas por Teerã para rebater a apresentação dos Estados Unidos como força defensiva na região.

Marandi também rejeitou a acusação de que os ataques iranianos tenham sido realizados sem preocupação com a população civil. Segundo ele, Teerã procurou atingir instalações militares dos Estados Unidos e estruturas utilizadas por suas forças nos países da região. William Lawrence, professor norte-americano que participou do mesmo programa, contestou parte dessa versão e responsabilizou o Irã por ataques contra diferentes países. Ambos concordaram, porém, que uma nova escalada continua possível.

Trump levou essa ameaça para dentro da Assembleia Geral. Na mesma organização em que diferentes governos discutiam formas de reduzir os conflitos internacionais, o presidente da maior potência militar do mundo exigiu maior pressão econômica contra o Irã e apresentou a “aniquilação” do país como uma possibilidade caso Washington não obtenha o resultado desejado.

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