Análise da 3ª

Rui Pimenta: ‘o responsável pela derrota de Lula é Lula e o PT’

Presidente do PCO relacionou o aperto eleitoral à política do governo, criticou os poderes do STF e tratou de soberania, Senado e da luta dos índios no Mato Grosso do Sul

Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e candidato à Presidência da República, atribuiu à política do próprio governo Lula a deterioração da situação eleitoral do PT. No programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, ele rejeitou a tentativa de responsabilizar candidaturas da esquerda pelo crescimento de Flávio Bolsonaro e afirmou que o governo está pagando pelo que fez nos últimos quatro anos.

A análise partiu de uma pesquisa eleitoral que apontava aproximação entre Lula e Flávio Bolsonaro. Para Pimenta, a situação deveria ser tratada como um sinal de perigo pela campanha petista, principalmente porque Lula disputa a eleição ocupando a Presidência e não enfrenta Jair Bolsonaro diretamente.

“O governo foi vítima da sua própria política, da sua própria falta de perspectiva. Agora eu vejo, por exemplo, o pessoal procurando um bode expiatório. Tem muita gente na Internet atacando a esquerda, os candidatos da esquerda, que seriam responsáveis pela derrota do Lula. Isso é uma coisa totalmente absurda. O responsável pela derrota do Lula é o Lula e o PT. Eles fizeram uma política que foi um erro, tem que reconhecer.”

Pimenta relacionou a piora eleitoral ao reajuste do Bolsa Família anunciado na reta final da campanha. Ele declarou apoio ao aumento do benefício, mas criticou o fato de a correção ter sido feita apenas quando o governo passou a enxergar risco real de derrota.

“O Lula não deu reajuste, o Lula seguiu uma política de contenção de despesas, não deu reajuste pro pessoal, que na minha opinião foi uma política totalmente errada. E aí, quando chega a 15 dias antes da eleição, eles veem que estão arriscados de perder a eleição e lançam esse pacote. Nós seríamos favoráveis ao reajuste do Bolsa Família, lógico. Nós não vamos ser contrários a reajustar o Bolsa Família de gente muito necessitada, mas é obviamente uma manobra eleitoral. Por que não fizeram antes?”

Para o dirigente do PCO, o governo acreditou que uma política econômica aceita pela burguesia bastaria para assegurar a reeleição. Quando as pesquisas apertaram, procurou recuperar terreno com medidas sociais que poderiam ter sido tomadas antes.

“Eles estavam confiantes de que fazendo uma política que fosse aceita pela burguesia, de contenção de custos, isso daí era suficiente para a eleição, só que não.”

O problema, para Pimenta, vai além da campanha. Ele fez um balanço negativo do governo Lula e disse que a política econômica permaneceu sob domínio dos bancos, limitando também as medidas sociais.

“Eu avalio que o governo Lula foi um não governo, no final das contas. A política econômica foi dominada pelos bancos. A política social foi extremamente restrita porque a política econômica foi dominada pelos bancos. E a política, no que diz respeito às instituições políticas do País, foi uma política antidemocrática, mas não era a do Lula. Era uma política também da burguesia e do imperialismo, que o Lula acabou sacramentando. Em grande medida, o PT está nessa situação, nessa saia justa, porque o governo Lula foi um governo muito negativo.”

Ao responder se Lula seria um “mal menor” diante de Flávio Bolsonaro, Pimenta disse que a comparação não resolve o problema colocado para os trabalhadores. Para ele, seja qual for o presidente, os grandes bancos mantêm enorme poder sobre a política nacional, e o PT não se dispõe a enfrentá-los.

O problema é o próprio STF

A crise do Supremo Tribunal Federal também ocupou parte importante do programa. Pimenta comentou as revelações envolvendo o Banco Master e pessoas próximas a integrantes da Corte. Questionado sobre um contrato relacionado a pessoas ligadas a Kassio Nunes Marques, afirmou que o caso deveria ser investigado, mas considerou que os elementos conhecidos não permitiam colocá-lo no mesmo nível das denúncias envolvendo Alexandre de Moraes.

A questão principal, porém, não seria decidir qual ministro está mais envolvido em escândalos. Pimenta defendeu que a própria concentração de poder no Supremo favorece abusos e corrupção.

“Eu acho que o problema do STF não é só Alexandre Moraes, é o próprio STF. Porque você levantar a lebre de que Alexandre Moraes tem esses negócios com o Vorcaro como se fosse um caso individual, isso aí não soluciona nada. Lógico que ele já saia de arrasto, saia. Só que não dá para deixar o STF com o poder que tem. Isso aí é um convite à corrupção.”

Na avaliação do presidente do PCO, um regime político não pode depender da honestidade individual de autoridades que dispõem de poderes extraordinários.

“O correto não é confiar na sensatez e na honestidade da pessoa pública, é não dar esse tipo de poder para ela. Não tem que dar, não tem que ter o STF com os poderes que ele tem hoje de maneira nenhuma.”

Pimenta também vinculou a crise do tribunal à situação eleitoral do PT. Segundo ele, a legenda passou anos apresentando Moraes como defensor da democracia e apoiando suas medidas contra o bolsonarismo. Agora, diante dos escândalos, tornou-se difícil romper com essa associação.

“Um dos problemas que o PT está tendo na campanha é que ele não consegue se desvencilhar da parceria política com Moraes de quase cinco ou seis anos. É complicado, porque apoiaram Moraes, falaram que o Moraes era o bastião da democracia, que se não fosse Moraes o País já estava na mão do fascismo, apoiaram as arbitrariedades do Alexandre Moraes, não protestaram contra nenhuma medida dele. Então agora é difícil.”

Ingerência estrangeira nas eleições

Outro assunto foi a declaração de Lula sobre o risco de interferência externa nas eleições brasileiras. Pimenta disse considerar a ingerência estrangeira um problema permanente da política nacional, e não uma novidade desta eleição.

“Eu acho que toda eleição brasileira tem ingerência estrangeira. Só que a gente não vê isso daí porque é uma coisa que é feita de maneira camuflada. No Brasil, por exemplo, antes de proibir o financiamento por empresas, até empresas estrangeiras podiam financiar campanhas. Sempre houve uma ingerência grande.”

Ele defendeu que o governo apresente publicamente qualquer informação concreta que possua sobre uma operação estrangeira contra o processo eleitoral.

“Se o Lula está vendo essa possibilidade de ingerência estrangeira, se saiu um relatório da Abin que fala que teria detectado a ingerência estrangeira, eu acho que é obrigação do governo tornar público o que está acontecendo. Se não, fica uma coisa que parece uma manipulação da eleição. Diz-se que há ingerência e isso daí só vai servir para justificar determinado tipo de política.”

Polarização favorece o bolsonarismo

A disputa pelo Senado apareceu no programa como outro sinal da situação política. Pimenta comentou projeções que apontavam crescimento de candidaturas bolsonaristas e perda de espaço dos partidos tradicionalmente apresentados como centro.

“É um encolhimento ainda maior do centro que mostra uma tendência muito séria, a polarização política, aí atingindo também o centrão. Só que a polarização é favorável ao bolsonarismo.”

Ele afirmou que o PCO vem alertando há meses para as dificuldades da candidatura de Lula e rejeitou a ideia de que essas análises representem propaganda contra o PT.

“Muita gente acha que, quando a gente faz essas avaliações, nós estamos fazendo propaganda contra a esquerda, contra o PT. Mas não é verdade. O pessoal não quer ver a realidade, esse é o problema. Quantas vezes eu não ouvi durante a campanha eleitoral que o Lula ia ganhar fácil, que o Flávio Bolsonaro era um candidato fácil de derrotar? Eu falei: não tem nada a ver isso aí. A situação é difícil.”

Para Pimenta, números macroeconômicos não substituem mudanças concretas percebidas pela população. Foi nesse ponto que voltou ao reajuste do Bolsa Família e à tentativa do governo de melhorar sua situação eleitoral na reta final.

Contra a perseguição política

Ao responder a uma pergunta sobre Monark, Pimenta voltou à defesa dos direitos democráticos. Ele separou a opinião que alguém possa ter sobre o influenciador da posição diante da perseguição sofrida por ele.

“O cidadão pode achar o Monark louco. É direito dele. Assim como ele pode achar qualquer coisa sobre o PCO, tudo bem. Agora, não é possível, alegando que o cidadão é louco, ser favorável à perseguição criminosa que sofreu. Ou se calar, porque tem gente que é a favor e tem gente que não fala nada.”

O dirigente criticou a prática de defender medidas repressivas quando elas atingem adversários políticos e rejeitá-las apenas quando passam a atingir aliados.

“Se a esquerda quer chegar a algum lugar, ela tem que ter uma política de princípios. O que me favorece eu apoio, o que não me favorece eu sou contra: isso pode dar um resultado imediato, o pessoal pode achar que é uma coisa muito esperta, mas no médio e longo prazo isso leva a esquerda à ruína.”

Terra e violência contra os índios

Na parte final do programa, Pimenta relatou sua passagem por Mato Grosso do Sul e a atividade realizada com índios guarani-caiuás. Ele destacou a pobreza das comunidades e criticou a ideia de apresentar a falta de infraestrutura como parte de um suposto “modo de vida originário”.

“Mato Grosso do Sul é o estado com a segunda maior população de índios do Brasil inteiro. E a situação do pessoal é lamentável. Eles vivem numa pobreza enorme. Aí alguém vai falar: ‘não, mas é o modo de vida originário’. Não tem nada de modo de vida originário. O pessoal vive em casa de alvenaria e tal. É uma população pobre. É um sem-terra, um trabalhador da terra com pouco recurso.”

Pimenta disse que a ausência de pavimentação nas aldeias próximas de Dourados chamou sua atenção logo na chegada. Para ele, trata-se de um exemplo simples do abandono a que essas comunidades estão submetidas.

A disputa pela terra é mais grave. Muitas famílias vivem em retomadas sem garantia de permanecer nelas, enquanto empresas e fazendeiros utilizam processos judiciais para retomar as áreas.

“Uma parcela grande do pessoal vive sem terra ou em retomadas, onde eles não têm a garantia da terra. Eles organizam as retomadas com base em um determinado plano que foi elaborado em algum momento, que diz que aquelas terras seriam da população guarani, mas eles não têm o título da terra. E eu acho muito impressionante que o governo não simplesmente manda um cara lá e fala: ‘legaliza todo esse negócio’. Aí vêm as empresas, usando truques jurídicos, para tirar a terra do pessoal. Uma barbaridade.”

O presidente do PCO denunciou ainda a violência de fazendeiros, pistoleiros, policiais e do Judiciário contra os índios.

“Eles têm contra eles a polícia, o Judiciário. Volta e meia tem assassinato de pessoas que resistem às arbitrariedades. É muito comum. Os latifundiários que procuram tomar a terra do pessoal têm aí uns capangas, uns pistoleiros. Esses pistoleiros têm impunidade. A polícia não vai atrás deles. Agora, se você pegar um índio armado lá, o negócio fica muito feio para esse índio.”

Segundo Pimenta, a atividade reuniu mais de 200 pessoas vindas de aldeias e retomadas próximas. Os candidatos lançados pelo PCO na região são guarani-caiuás e pertencem à população pobre do campo.

No fim do programa, o presidente do Partido convocou para o ato nacional de sua candidatura marcado para o dia 27, na Praça Oswaldo Cruz, em São Paulo, com participação de candidatos de outros estados.

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