Polêmica

Vai funcionar o entusiasmo por decreto?

Diante de reajuste eleitoreiro e capitulação aos poderosos, ninguém vai se animar com sermão

lula

No dia 20 de setembro, o Brasil 247 publicou o artigo A hora do entusiasmo!, de Emir Sader. O sociólogo começa listando medo, pânico e susto — e manda trocar tudo por euforia. O discurso seria o de sempre: fome, emprego, desigualdade, “feminicídio”. “Impressionante o nosso querido Lula”, diz ele.

O problema é que não adianta mandar o eleitorado se entusiasmar. Entusiasmo não nasce de artigo. Nasce de ação concreta. O governo Lula não faz isso. O que fez, na reta da urna, foi um aumento eleitoreiro do Bolsa Família. Noventa e um reais.

Três dias antes do texto de Sader, Lula assinou o reajuste do Bolsa Família. O piso sai de R$600 e vai para R$691. O governo chama de correção da inflação desde março de 2023, sendo que passou quatro anos com o mesmo piso e decidiu fazer o anúncio a 17 dias do primeiro turno. O impacto será de R$ 5,8 bilhões neste ano — e só agora cabia no orçamento.

Quem vai ao mercado sabe o que R$91 compram. Não compram entusiasmo. Compram o recado de que o benefício social do governo ficou parado a legislatura inteira e só anda quando a pesquisa aperta.

Sader não cita o decreto. Prefere a caravana, o comício, o “vigor”, a “saúde”, a “confiança que transmite às pessoas”. O sociólogo descreve o palanque e esconde que o programa que deveria medir o combate à fome só foi corrigido na véspera do voto, e pelo índice que o próprio governo deixou acumular.

Sader escreve que o Brasil vive “movimentos de mobilização popular como não havia há muito tempo” e “uma nova onda de luta de massas”. O que ele aponta como prova é a agenda de Lula. Comício em algum lugar do Brasil todos os dias.

A militância que ele pede para “retomar” passou quatro anos vendo o Palácio ceder ao Centrão, cumprir o arcabouço fiscal e proteger o STF. Quando o espaço aparece, aparece em setembro, no piso do Bolsa Família, no valor de uma conta de luz fraca.

O artigo pede para convencer o vizinho, o colega, quem anda na rua. Convencer de quê? De que o presidente está disposto? Disposição física não enche geladeira.

“Dá continuidade ao discurso do combate às desigualdades”. Só se ficar no discurso mesmo. O salário mínimo preso à regra fiscal, a saúde e a educação com corte autorizado de até R$ 16,6 bilhões em 2027, quase dois milhões de famílias aptas ao Bolsa Família fora da folha, segundo levantamento da CNM no começo do ano.

Nada disso entra no texto. Entra “arsenal de argumentos” e “grito por todos os lados”.

O governo é uma lástima porque se acomodou aos inimigos do povo. Tratou Alexandre de Moraes como trincheira da democracia. Quem está na rua não recusa derrotar Flávio Bolsonaro. Recusa teatro. A extrema direita cresce no vazio deixado por um mandato que prometeu reconstrução e administrou o regime. Sader inverte a conta. O perigo seria o eleitor sentir medo. O perigo é o eleitor ter memória.

Entusiasmo de 15 anos, “como se fosse a primeira campanha presidencial”, só existe para quem não pagou o preço do terceiro mandato. A primeira campanha tinha fome zero como horizonte e uma base que ainda acreditava que o Palácio brigaria. Esta tem reposição inflacionária de R$91 e um sociólogo pedindo que a militância grite para tapar o buraco.

Lula “fala das necessidades das pessoas”. As pessoas medem necessidade no preço do arroz, no aluguel, na jornada, no posto de saúde. O governo mediu necessidade no calendário eleitoral e na folga que o ministro Moretti disse ter encontrado no orçamento. Folga de setembro. Não de 2023, não de 2024, não de 2025.

A tarefa não é “empunhar toda a nossa capacidade de entusiasmo”. É exigir o que o mandato recusou. Reajuste que não seja eleitoreiro. Fim do teto que come saúde e educação. Fora Moraes e controle popular do Judiciário. Redução da jornada de trabalho sem redução do salário. Inclusão das famílias que o Bolsa deixou na fila. Sem isso, o grito que Sader pede é campanha cobrando do povo o trabalho que o Palácio não fez.

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