Uma foto extraída pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro mostra o procurador-geral da República, Paulo Gonet, bebendo uísque e fumando charuto com o dono do Banco Master em Londres. Gonet comanda a PGR e é responsável pelo caso Master desde novembro de 2025.
O registro, divulgado na sexta-feira (18), desmente a tentativa de reduzir a relação entre os dois a um encontro “brevíssimo e banal”. Gonet aparece sentado diante do banqueiro numa degustação realizada no George Club, clube privado localizado em Mayfair, um dos bairros mais ricos da capital inglesa.
A cena foi registrada em 25 de abril de 2024. As mesas estão cobertas de copos, enquanto o chefe da PGR e outros dois homens fumam charutos. Um deles é o advogado Ciro Soares, que atuou para o Master e serviu de intermediário entre Vorcaro e Gonet. O quarto participante ainda não foi identificado pelas reportagens sobre o caso.
Pessoas que acompanham a investigação afirmaram que Vorcaro pagou o encontro. A confraternização ocorreu durante o 1º Fórum Jurídico — Brasil de Ideias, realizado entre 24 e 26 de abril de 2024, com patrocínio do banco. O programa incluía uma degustação de uísque Macallan.
A colunista Malu Gaspar, de O Globo, informou que Vorcaro gastou R$3,2 milhões no evento privado. A assessoria da PGR confirmou a autenticidade da imagem, mas não explicou a participação de Gonet.
‘PG me mandou’
A PF encontrou o arquivo numa conversa entre Vorcaro e Ciro Soares. O advogado o enviou ao banqueiro em 19 de junho de 2025 com a mensagem: “PG me mandou”. As iniciais fazem referência a Paulo Gonet.
O envio ocorreu no mesmo ano em que Vorcaro tentava vender o Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). O registro permaneceu fora do conhecimento público até ser retirado do telefone do banqueiro.
O relatório policial também informa que, em 15 de março de 2025, Soares enviou a Vorcaro outra foto, desta vez ao lado de Gonet. Logo depois, escreveu: “Liga aqui. Ele quer falar com você”. Vorcaro telefonou para o aparelho do advogado.
Treze dias mais tarde, Soares encaminhou frases atribuídas ao chefe da PGR: “Estou na torcida por vocês!” e “Já estou com saudades de você!”. Ao tratar de uma segunda edição do evento em Londres, posteriormente cancelada, repassou outra mensagem: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”.
Em 19 de junho de 2025, Soares ainda perguntou a Vorcaro: “O Pedrinho filho do PG pode ir com a gente, né?”. A PF identificou “Pedrinho” como Pedro Gonet, filho do procurador-geral.
As frases foram atribuídas a Gonet por Soares e não retiradas diretamente do telefone do procurador. Permanecem comprovados, porém, a confraternização em Londres, o telefonema e o papel do advogado como intermediário entre os dois.
Gonet tenta enterrar o relatório
Na terça-feira (15), durante uma sessão do Supremo Tribunal Federal, Gonet negou qualquer proximidade com Vorcaro. Afirmou que encontrou o banqueiro uma única vez, na presença de várias autoridades, e classificou a ligação telefônica como “brevíssima e banal”.
Em manifestação ao Conselho Superior do Ministério Público Federal, declarou: “Não tenho com o Sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado”.
A cena no George Club derruba essa versão. Gonet está à mesa de Vorcaro durante uma festa milionária paga pelo dono do Master.
O procurador-geral agora tenta anular o relatório que revelou seus contatos. Alega que o documento foi produzido sem autorização prévia do Ministério Público e que uma investigação envolvendo um ministro do Supremo dependeria da aprovação do plenário.
Gonet usa o próprio cargo para atacar o material que o compromete. A autoridade responsável por fiscalizar o caso mantém relações com um dos principais envolvidos e procura enterrar as provas que expõem essa ligação.
O Conselho Superior do MPF marcou para 25 de setembro a análise das suspeitas. O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil pediu a substituição de Gonet no caso Master. Mesmo assim, ele se recusa a reconhecer sua suspeição e permanece à frente do processo.
O Ministério da Perseguição Pública
O cuidado dispensado a Gonet desaparece quando o alvo é uma organização da esquerda. Contra o Partido da Causa Operária, a instituição atuou como verdadeiro Ministério da Perseguição Pública.
Em 2022, o Ministério Público Eleitoral pediu ao Tribunal Superior Eleitoral a abertura de um inquérito contra o PCO por publicações que criticavam o tribunal. Alexandre de Moraes incluiu o Partido no chamado inquérito das “fake news” e mandou bloquear seus perfis nas redes sociais.
A perseguição ganhou uma nova etapa em 11 de agosto deste ano, apenas três dias depois do lançamento da candidatura de Rui Costa Pimenta à Presidência da República. Agentes armados da Polícia Federal invadiram às 6 horas a casa do presidente do PCO, arrombaram portões e apreenderam seu telefone e seu passaporte.
A Justiça Eleitoral afastou Rui Costa Pimenta da presidência do Partido por 180 dias e determinou o bloqueio de até R$4,5 milhões. A medida atingiu as contas do PCO em plena campanha eleitoral.
O escândalo mostra o caráter de classe do Ministério Público. A instituição persegue os adversários da burguesia e protege seus integrantes. Gonet é o chefe corrupto de um órgão corrompido por sua função política: charutos e uísque para os banqueiros; censura, bloqueios e polícia para a esquerda.





