Supremo Tribunal Federal

Os presos do 8 de janeiro assassinados pela ditadura de Alexandre de Moraes

Doze perseguidos pelo STF morreram sob prisão, tornozeleira, cautelares ou exílio, enquanto Moraes permanece no cargo em meio ao escândalo do Banco Master

Doze pessoas processadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em razão dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 morreram após serem submetidas à prisão, tornozeleira eletrônica, bloqueio de bens, proibição de trabalhar, condenações próximas de 20 anos e exílio. Alexandre de Moraes, principal responsável por esse crime, continua no STF e participa das manobras destinadas a impedir que suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro sejam investigadas.

A crise provocada pelo escândalo do Banco Master deve servir para relembrar os crimes cometidos contra os manifestantes do 8 de Janeiro. Pessoas sem antecedentes, idosos, doentes e trabalhadores foram tratados como integrantes de uma organização criminosa e condenados a penas superiores às aplicadas a autores de homicídios. Em lugar da individualização das condutas, a Corte transformou a presença em uma manifestação em prova de participação em uma imaginária tentativa de golpe.

Ao mesmo tempo, o STF não conseguiu decidir se deve investigar Moraes pelas mensagens trocadas com Vorcaro e pelos negócios do Banco Master com o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes. Para os manifestantes, condenações em massa e penas próximas de duas décadas. Para o ministro, proteção corporativa, adiamentos e participação nas decisões sobre o próprio caso.

Flávia morreu com a tornozeleira

A inclusão de Flávia de Medeiros Ardovino Rosa no levantamento sobre as vítimas da repressão elevou para 12 o número de mortos entre presos, condenados e réus do 8 de Janeiro. Ela faleceu em 27 de fevereiro de 2026, aos 45 anos, no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Somente em 3 de março, depois de sua morte, Moraes extinguiu sua punibilidade.

Flávia foi presa em 9 de janeiro de 2023 no acampamento montado diante do Quartel-General do Exército, em Brasília. Posteriormente, o STF a condenou por organização criminosa e incitação ao crime. Desde janeiro de 2023, vivia com tornozeleira eletrônica e uma série de restrições. Em 5 de setembro de 2025, passou formalmente à execução da pena.

No depoimento prestado à Polícia Federal, Flávia relatou que raramente viajava porque cuidava da mãe idosa. Em janeiro de 2023, entrou em um ônibus gratuito que saiu da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, porque pretendia aproveitar a viagem para visitar um tio em Brasília. Dormiu em uma lona no acampamento e chegou a comprar uma barraca. Não descreveu qualquer participação em atos de violência ou depredação:

“Eu cheguei a Brasília umas duas e meia da manhã do dia 8, foi uma oportunidade. Falaram que havia ônibus saindo aqui do Rio de Janeiro para Brasília. Eu tenho parentes em Brasília, era uma oportunidade. Não tinha pretensões, queria ver o meu tio. Havia muito tempo que não viajava, ficava só cuidando da minha mãe, que é idosa.”

Flávia sofria de graves problemas cardíacos e precisava realizar consultas, exames e tratamentos frequentes. As autorizações judiciais demoravam, enquanto a tornozeleira dificultava seus deslocamentos, procedimentos e internações. O estresse da condenação e da vigilância permanente agravou seu quadro. Ela morreu antes de conseguir retirar o equipamento.

Flávia tornou-se uma das vítimas fatais da ditadura judicial de Moraes. Mesmo gravemente doente, foi mantida sob um regime que dificultava seu tratamento e a submetia a uma pressão contínua.

Morte dentro da Papuda

O caso mais evidente é o de Clériston Pereira da Cunha, morto em 20 de novembro de 2023 dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. Clériston tinha problemas graves de saúde e a própria Procuradoria-Geral da República havia pedido sua liberdade provisória. Moraes não examinou o pedido a tempo. O preso sofreu um mal súbito e morreu sob a custódia do Estado.

A Justiça conhecia a condição clínica de Clériston e tinha em mãos um pedido formal de libertação apresentado pela PGR. Moraes o manteve preso. Mesmo após a morte, não respondeu pelo que aconteceu nem foi submetido a qualquer investigação.

A morte de Clériston expôs o funcionamento do regime estabelecido pelo STF. A manutenção da campanha de terror em torno do 8 de Janeiro prevaleceu sobre a vida de um preso doente.

Perseguidos morreram tentando sobreviver

Antônio Marques da Silva, operador de máquinas em Barra do Garças, Mato Grosso, morreu em 29 de outubro de 2023 depois de cair de um telhado durante um serviço temporário. Com tornozeleira eletrônica e impedido de exercer normalmente sua profissão, precisou fazer um “bico” para sobreviver.

Giovanni Carlos dos Santos, de São José dos Campos, São Paulo, morreu em 24 de janeiro de 2024 em circunstâncias semelhantes. Ele caiu enquanto realizava um trabalho temporário de corte de galhos. Também usava tornozeleira e enfrentava limitações profissionais.

O caminhoneiro Eder Parecido Jacinto caiu do próprio veículo no fim de 2023. A queda provocou uma fratura, seguida de problemas renais, hemorragia e falência hepática. Depois de semanas internado, morreu em 2 de março de 2024.

Antônio e Giovanni tiveram de aceitar trabalhos perigosos porque as medidas impostas pelo STF destruíram suas condições normais de vida. As mortes não podem ser separadas das decisões que lhes retiraram a possibilidade de trabalhar e sustentar suas famílias.

Kleber Freitas, preso no Quartel-General em 9 de janeiro de 2023, foi encontrado morto na casa dos pais, em Borrazópolis, no Paraná, em 10 de maio de 2024. Ele se sentia injustiçado pelo tratamento imposto aos manifestantes.

Jony Figueiredo da Silva morreu em 27 de setembro de 2024, vítima de parada cardiorrespiratória e edema pulmonar. Preso no acampamento e levado à Papuda, passou depois a usar tornozeleira e comparecia regularmente ao fórum.

Marco Aurélio, de Cuiabá, morreu em abril de 2025, vítima de leucemia. Ele respondia à Ação Penal 1538 e havia firmado um acordo de não persecução penal em agosto de 2024.

O policial federal aposentado José Fernando Honorato Azevedo morreu em novembro de 2025. Durante quase três anos, foi submetido à prisão preventiva, cautelares rígidas, bloqueio de bens, destruição financeira e internações sucessivas.

Condenado a 13 anos, morreu trabalhando

Cláudio Fernando Gonçalves, de Pancas, no Espírito Santo, morreu em 10 de fevereiro de 2026 depois de sofrer um acidente de trabalho que fraturou uma vértebra do pescoço. Ficou 50 dias internado em uma Unidade de Terapia Intensiva. Réu na Ação Penal 2214, havia sido condenado pelo STF a 13 anos e seis meses de prisão.

José Éder Lisboa morreu em 28 de março de 2026 na Argentina, onde vivia exilado desde 2023. Condenado no Brasil, encontrava-se em estado gravíssimo de saúde. Sua morte ocorreu longe do País, para onde fugiu a fim de não ser submetido aos julgamentos políticos comandados por Moraes.

Ronaldo Edison Richard morreu em 10 de agosto de 2026, aos 63 anos, enquanto ainda respondia a uma ação penal na Primeira Turma do STF. Ele nunca esteve em Brasília no 8 de Janeiro. Mesmo assim, foi acusado de financiar um golpe de Estado porque ajudou a organizar ônibus que levariam manifestantes à capital.

Em 8 de janeiro de 2024, a Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão na casa de Ronaldo. Sua ausência na manifestação não impediu o indiciamento. O caso desmente a alegação de que os processos se destinavam a punir depredações: até quem nunca esteve em Brasília foi arrastado para a perseguição.

Um autista ameaçado de voltar à prisão

Rodismar Regasse Liro, de 56 anos, continua vivo, mas está sob a ameaça de ser novamente preso. Ele é autista, tem atraso mental, hipertensão, diabetes e outros problemas de saúde. Mora em um pequeno cômodo cedido por terceiros na Comunidade Chico Mendes, em Costa Barros, no Rio de Janeiro, e sobrevive com R$ 600 do Bolsa Família.

Rodismar cumpriu a prestação de serviços comunitários determinada pelo STF. A Justiça do Rio de Janeiro informou que ele atendeu às exigências da pena, mas não consegue pagar uma multa superior a R$ 14 mil. Ele sequer sabia que havia sido condenado e só tomou conhecimento da cobrança porque pessoas que acompanham os processos o avisaram.

Mesmo informados de sua condição psiquiátrica e de sua pobreza, a PGR e Moraes recusaram a dispensa da multa. Em 25 de agosto, o ministro determinou a manutenção da cobrança. Se não pagar um valor equivalente a quase dois anos de toda a sua renda, Rodismar poderá voltar à prisão.

Moraes permanece protegido

O rigor aplicado contra Flávia, Clériston, Rodismar e os demais manifestantes desapareceu quando o escândalo do Banco Master atingiu Alexandre de Moraes. Relatórios da Polícia Federal revelaram mensagens e registros de pelo menos seis encontros entre o ministro e Daniel Vorcaro.

A relação começou antes da assinatura do contrato de aproximadamente R$ 31 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes. A perícia encontrou nos metadados do documento o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação do arquivo. Uma segunda minuta, de R$50 milhões, previa pagamentos por meio de cotas de um jatinho e de um helicóptero.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram o banqueiro recorrendo a Moraes nos dias anteriores à sua prisão. Em uma delas, perguntou: “Acha que segunda tenho que estar fora?”. Em outra, pediu que o ministro reforçasse contatos com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Moraes nega ter favorecido o banqueiro ou tratado de assuntos do Master com o Banco Central. O STF, porém, não conseguiu sequer decidir se o ministro deve ser investigado. Na sessão de 15 de setembro, Flávio Dino pediu vista e suspendeu a análise por até 90 dias.

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