Editorial

Aonde vai a Europa?

O desgaste dos partidos tradicionais expõe a crise da democracia imperialista; a esquerda adaptada ao regime não oferece saída aos trabalhadores

Na Baixa Saxônia, a AfD saltou de 4,6% para 15,9% dos votos nas eleições municipais. Na Suécia, a oposição obteve 176 cadeiras contra 173 do bloco governista. Em Berlim, às vésperas da eleição de 20 de setembro, pesquisas colocam o partido A Esquerda à frente da CDU, enquanto o SPD fica em 12%. (Deutschlandfunk, SVT, pesquisa de Berlim)

O avanço da AfD na Baixa Saxônia, no Oeste, desmente a tentativa de restringir o problema à antiga Alemanha Oriental. Em Berlim, a AfD aparece com 18%, seis pontos acima do SPD. A social-democracia perdeu apoio ao executar a política neoliberal dos conservadores com os quais se alternava no governo.

O imperialismo já não controla os partidos e as eleições como controlou durante décadas. A crise atinge a democracia imperialista, sustentada pela alternância entre conservadores e social-democratas. Como afirmou Rui Costa Pimenta: “O regime está se esfacelando. Não é uma crise ocasional, é uma crise definitiva, uma crise terminal”.

A fórmula “onda de direita” ignora o crescimento de organizações à esquerda. O BSW disputa a entrada no parlamento de Berlim contra a cláusula de barreira de 5%. Há uma polarização: os partidos tradicionais perdem votos para os dois lados.

O partido A Esquerda, o Die Linke, cumpre a função de substituto de emergência do SPD. Sua origem no partido governante da antiga Alemanha Oriental não transforma seu avanço numa “vitória do socialismo”. A burguesia procura conservar, por meio dessa esquerda, os votos que o centro perde. A troca de partido no governo mantém a submissão aos bancos.

Na Grécia, o Syriza substituiu o Pasok e chegou ao governo durante a crise da dívida. Assinou o acordo exigido pelos bancos europeus, sobretudo alemães, e destruiu o apoio que conquistara. Hoje aparece perto de 1,5% em pesquisas. A Nova Democracia conserva cerca de 30%, diante de uma oposição fragmentada. (Pesquisas gregas)

Alexis Tsipras procura recuperar os votos perdidos com um partido “social e patriótico”, imitando a aparência da extrema direita. O Podemos, na Espanha, perdeu força ao apoiar o governo do Partido Socialista. O Bloco de Esquerda português perdeu eleitores por sustentar governos socialistas. No Chile, Boric repetiu a política que prometia superar. A França Insubmissa e, em parte, o BSW resistiram melhor ao desgaste por manterem maior distância da esquerda tradicional.

A proibição da Aurora Dourada fragmentou a extrema direita grega, sem eliminá-la. Bolsonaro e Milei são forças do regime, apesar da ideologia de extrema direita. A Aurora Dourada é uma organização de tipo fascista. A burguesia conteve essa organização quando seu desenvolvimento não lhe convinha. Poderá voltar a utilizá-la se precisar enfrentar uma mobilização dos trabalhadores.

Na Suécia, os Democratas da Suécia perderam 11 cadeiras depois de quatro anos apoiando o governo conservador. Os social-democratas perderam oito, embora seu bloco tenha conquistado a maioria. O Partido da Esquerda, antigo partido comunista, foi o que mais ganhou cadeiras: seis. Esse crescimento não altera seu compromisso com as instituições burguesas. (Resultados suecos)

O apoio ao governo conservador fez a extrema direita sueca responder por sua política, como ocorre com a esquerda que sustenta governos neoliberais. A alegação da direita sueca de que as naturalizações decidiram a eleição é uma hipótese a verificar, insuficiente para explicar sozinha a derrota.

O PSOL é o equivalente brasileiro dessa esquerda. Num regime mais rígido, associou-se ao PT e abandonou a pretensão de substituí-lo. A autoridade de Lula retardou o desgaste petista; a frente ampla com a burguesia e o STF o aprofunda. A diferença é de velocidade: governar para os bancos destrói o apoio dos trabalhadores.

A Europa caminha para maior instabilidade e enfrentamentos mais duros entre as classes. Os substitutos da social-democracia podem adiar derrotas eleitorais, mas também se desgastam ao governar para os bancos. A classe operária precisa organizar uma força própria para disputar o poder; subordinada a esses partidos, continuará pagando pela crise do imperialismo.

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