A esquerda pequeno-burguesa passou anos apresentando Alexandre de Moraes como um herói da democracia. Agora, diante das revelações sobre a sociedade do ministro com Daniel Vorcaro e o Banco Master, alguns dos poodles da ditadura do Supremo Tribunal Federal (STF) procuram se livrar da responsabilidade pela política criminosa que defenderam.
Valério Arcary, historiador e dirigente da Resistência, corrente interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), é um dos exemplos mais acabados dessa posição hipócrita, oportunista, pró-imperialista e irresponsável. Arcary não se limitou a apoiar a condenação farsesca de Jair Bolsonaro. Ele defendeu abertamente os métodos autoritários de Moraes, atacou quem denunciava os abusos do STF e convocou toda a esquerda a se colocar sob a direção política do ex-chefe da PM paulista.
Multas, prisões e censura
Em 28 de outubro de 2022, Arcary afirmou que Alexandre de Moraes havia se tornado “uma referência internacional pelo gigantismo do seu papel no combate às fake news”. O suposto “combate às fake news” era o pretexto utilizado pelo ministro para instaurar inquéritos sem prazo, bloquear perfis, censurar publicações e acumular as funções de vítima, investigador e juiz.
Arcary conhecia perfeitamente as consequências desses poderes. Em junho daquele ano, Moraes havia incluído o Partido da Causa Operária (PCO) no inquérito das fake news, ordenado o depoimento de Rui Costa Pimenta à Polícia Filial e determinado o bloqueio das contas do Partido no Twitter, Instagram, Facebook, Telegram, YouTube e TikTok. Em novembro de 2022, o próprio STF confirmou a censura contra o PCO.
Nada disso impediu Arcary de apresentar Moraes como uma referência. Em artigo publicado em 1º de novembro de 2022, ele defendeu uma decisão que estabelecia multas e ameaçava prender quem desobedecesse às ordens do ministro. Para Arcary, a medida “merece o apoio da esquerda”.
Em 10 de janeiro de 2023, depois dos acontecimentos de 8 de janeiro, Arcary considerou “justa” a decisão individual de Moraes de afastar Ibaneis Rocha do governo do Distrito Federal. No mesmo artigo, declarou que “as prisões preventivas são inescapáveis”.
A questão não era apenas prender Bolsonaro ou investigar uma tentativa de golpe. Arcary defendia que um juiz tucano colocado no STF por Temer pudesse afastar um governador, ordenar prisões em massa, impor multas, comandar investigações e censurar organizações políticas. Bastava que o alvo imediato fosse a direita para que qualquer arbitrariedade de um burocrata não eleito se transformasse em uma medida progressista.
Defesa aberta de Moraes
Em 16 de fevereiro de 2024, Arcary tornou sua posição ainda mais explícita. Afirmou que quem havia se preocupado com os supostos “abusos de poder” dos tribunais superiores estava errado e declarou: “A esquerda não pode titubear em apoiar e realizar uma defesa da iniciativa do STF liderada por Alexandre de Moraes”.
Não se tratava, portanto, de um apoio crítico ou circunstancial. Arcary exigia que a esquerda defendesse a ofensiva judicial e policial comandada por Moraes. Censura, violação do devido processo legal e perseguição política foram descartadas como preocupações sem importância.
A política é profundamente irresponsável porque poderes de exceção não permanecem restritos à direita. O próprio PCO já havia sido censurado, teve seus dirigentes investigados e permaneceu meses sem acesso às suas principais contas nas redes sociais. Simplesmente todos os cidadãos residentes no Brasil foram impedidos de utilizar o Twitter por um mês a mando de Moraes. Arcary viu tudo isso acontecer e continuou defendendo o responsável por tamanho atropelo da legalidade e dos direitos democráticos mais elementares.
Sua posição também é pró-imperialista. O STF foi um dos principais pilares do golpe de 2016, da Operação Lava Jato e da prisão de Lula. É uma instituição vitalícia, colocada acima de qualquer tipo de controle popular e encarregada de proteger o regime político dominado pelos bancos, pelos grandes monopólios e pelo imperialismo. Apresentar esse órgão como direção da luta contra a direita significa subordinar os trabalhadores à ala mais reacionária da própria burguesia.
O “trotskista” Arcary transformou a disputa entre setores da direita em um falso confronto entre democracia e fascismo, pisoteando em cada ensinamento de Leon Trótski. Dessa maneira, a esquerda deveria abandonar sua independência política e apoiar os tribunais, a Polícia Filial da CIA e do Mossad, o PIG e os setores da burguesia que tentavam rifar Bolsonaro para abrir caminho para a direita tradicional.
O escândalo explode
O relatório da Polícia Filial divulgado em 1º de setembro de 2026 reuniu mensagens de Daniel Vorcaro, referências a encontros com Alexandre de Moraes e tratativas envolvendo o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
A PF identificou pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro. O banqueiro procurou o ministro para falar sobre as investigações da Polícia Filial e da Procuradoria-Geral da República, perguntou se era possível bloquear medidas contra o Master e, dois dias antes de ser preso, consultou Moraes sobre a conveniência de deixar o País.
A investigação também apontou que Moraes participou da edição de um contrato de R$131 milhões entre o Banco Master e o escritório de sua esposa. Mensagens internas mostram Vorcaro tratando os repasses à banca como o pagamento mais importante do banco. No total, são mais de R$200 milhões de Vorcaro para Moraes.
Diante das revelações, Arcary já não conseguiu repetir que Moraes era simplesmente o homem mais maravilhoso do mundo. Em artigo publicado em 4 de setembro, reconheceu que as mensagens são “indícios de uma relação indefensável, por variadas razões, com Daniel Vorcaro”.
O poodle morde o rabo
O oportunismo é evidente. Quando Moraes concentrava poderes, censurava o PCO, bania todo o país de redes sociais, afastava governadores e ordenava prisões, Arcary atacava quem denunciava os abusos e exigia apoio da esquerda. Quando Moraes foi pego de calças curtas, passou a reivindicar garantias, rigor processual e limites para o Judiciário.
O argumento de que as revelações favorecem a direita não elimina os fatos. Pelo contrário: a direita somente pôde explorar o escândalo porque a esquerda pequeno-burguesa transformou Moraes em um herói e amarrou sua própria sorte à de uma instituição completamente apodrecida.
O escândalo do Banco Master não mudou a natureza de Alexandre de Moraes. Apenas tornou impossível continuar escondendo o que o PCO denunciava enquanto Arcary e os demais poodles do STF aplaudiam multas, censura, prisões e perseguições políticas. O próprio Arcary acabou obrigado a registrar o veredicto sobre o ministro que tanto defendeu: uma relação “indefensável” com Daniel Vorcaro.





