As investigações sobre o Banco Master expuseram uma situação difícil de conciliar com a propaganda feita em torno da “autonomia” do Banco Central. Segundo a Polícia Filial, dois servidores que chegaram a ocupar postos de chefia na supervisão bancária receberam milhões de reais e outras vantagens ligadas a Daniel Vorcaro enquanto auxiliavam o banqueiro nas relações com o próprio BC.
Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza trabalharam no Departamento de Supervisão Bancária, responsável justamente pela fiscalização das instituições financeiras. A PF estima em pelo menos R$6,8 milhões os valores relacionados aos dois.
As mensagens apreendidas indicam que Vorcaro recebia orientações sobre como defender os negócios do Master em reuniões com integrantes da direção do Banco Central. Os servidores sugeriam argumentos e transmitiam informações que poderiam ajudar o banco diante de Roberto Campos Neto e outros dirigentes da instituição.
O acesso chegava a assuntos ainda mais sensíveis. Vorcaro obteve os nomes de policiais federais envolvidos numa investigação sobre o Master. A informação apareceu poucos dias depois de representantes da Polícia Filial e do Banco Central terem discutido o banco.
A situação dentro do BC ficou tão grave que o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, declarou posteriormente que restringiu informações sobre a liquidação do Master por medo de vazamentos.
O órgão encarregado de fiscalizar um banco precisava esconder de seus próprios funcionários as providências que pretendia tomar contra esse mesmo banco.
No caso de Belline, a Polícia Filial encontrou registros de pagamentos desde 2023. As quantias encontradas em planilhas e mensagens oscilavam entre R$500.000,00 e R$760.000,00.
Os investigadores afirmam que foi montado um mecanismo para esconder a origem dos recursos. Belline aparecia formalmente ligado a um projeto destinado à preparação de jovens para trabalhar no setor financeiro. O dinheiro, entretanto, teria saído de empresas ligadas a Vorcaro, passado pela empresa de um operador financeiro e chegado ao servidor.
Vorcaro teria dado uma ordem expressa: o pagamento não poderia sair diretamente do Master.
Em setembro de 2025, o banqueiro também custeou uma viagem de Belline e da mulher a Paris. Foram organizados transporte, reservas em restaurantes e outros serviços.
Paulo Sérgio aparece em outro conjunto de episódios.
Ele e o irmão venderam uma propriedade rural em Muzambinho, Minas Gerais. Um contrato particular estabelecia o preço de R$4,8 milhões. Na escritura pública, o imóvel aparecia por R$3 milhões.
A compradora formal era uma empresa pertencente a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. A PF afirma, porém, que o negócio foi conduzido diretamente pelo banqueiro e que Zettel sequer negociou com os vendedores.
Há mais. Os metadados do contrato apontaram que o arquivo foi produzido por outro servidor do Banco Central lotado no mesmo departamento.
Vorcaro também teria custeado assistência a Paulo Sérgio e sua família durante uma viagem à Disney, nos Estados Unidos.
Belline sustenta que os recursos estavam relacionados ao projeto social e nega ter recebido vantagens para favorecer o banqueiro. Paulo Sérgio afirma que a venda do imóvel foi legítima e que a ajuda recebida durante a viagem foi apenas uma gentileza. Vorcaro também nega ter comprado informações.
As acusações ainda dependem de julgamento. O material reunido pela PF, porém, já expôs o grau de proximidade que um grande banqueiro conseguiu estabelecer com funcionários encarregados de fiscalizá-lo.
E não é a primeira vez que uma relação desse tipo aparece dentro do Banco Central.
No fim dos anos 1990, o caso dos bancos Marka e FonteCindam produziu um enorme escândalo envolvendo operações cambiais realizadas pelo BC durante a desvalorização do real.
Em 2005, a Justiça Federal condenou em primeira instância o banqueiro Salvatore Cacciola, o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, dirigentes do FonteCindam e antigos diretores do BC. A sentença considerou que as operações favoreceram os bancos privados. Os acusados ainda podiam recorrer.
O então presidente do FonteCindam, Luiz Antonio Gonçalves, havia ocupado cargos no governo e possuía livre acesso ao Banco Central. Segundo a acusação aceita naquela decisão judicial, essa proximidade foi utilizada em benefício da instituição financeira.
O caso Master mostra outra modalidade do mesmo problema. Um banqueiro não precisa apenas tentar influenciar quem ocupa a direção do BC. Pode buscar informações e ajuda entre os próprios funcionários da fiscalização.
Há ainda uma forma perfeitamente legal de aproximação entre os bancos e o órgão que deveria controlá-los: a circulação permanente de executivos entre o sistema financeiro privado e a direção do Banco Central.
Roberto Campos Neto trabalhou durante anos no Santander antes de assumir a presidência do BC. Depois de deixar o cargo e cumprir a quarentena legal, foi para o Nubank.
Gabriel Galípolo, atual presidente do Banco Central, comandou o Banco Fator antes de ingressar no governo.
Nilton David, diretor de Política Monetária, chegou ao BC depois de trabalhar como chefe de operações da tesouraria do Bradesco. Antes disso passou por outras instituições financeiras internacionais.
Ou seja, os bancos fornecem continuamente quadros para a instituição que os fiscaliza e, depois, podem contratar antigos dirigentes dessa mesma instituição. É o conhecido esquema da porta giratória.
De um lado, o funcionário sai de um banco e passa a participar de decisões que afetam todo o sistema financeiro. De outro, um presidente ou diretor do Banco Central deixa o cargo, cumpre alguns meses de quarentena e pode retornar às instituições que até pouco antes estavam submetidas às suas decisões.
Ao lado dessa relação legal aparece agora aquilo que a PF atribui ao Master: pagamentos escondidos, viagens custeadas, contratos suspeitos e fornecimento de informações sigilosas.
Isso ocorre graças à “autonomia” do Banco Central, que já vinha sendo implementada gradualmente desde os anos 1990 e foi oficializada em 2021 sob Jair Bolsonaro.
O que a Lei Complementar nº 179 fez foi dar mandatos fixos ao presidente e aos diretores e reduzir a capacidade do governo eleito de alterar a direção do órgão. O presidente da República continua indicando seus dirigentes, mas, uma vez nomeados e aprovados pelo Senado, eles possuem mandato próprio.
A justificativa sempre foi proteger decisões “técnicas” da influência política.
Mas influência de quem?
O Banco Central determina a taxa básica de juros, fiscaliza os bancos, regulamenta o crédito, administra reservas e toma decisões que movimentam centenas de bilhões de reais.
Os maiores interessados nessas decisões são justamente os bancos.
Essas instituições possuem departamentos especializados, advogados, economistas, antigos funcionários públicos, relações permanentes com autoridades e dinheiro suficiente para acompanhar cada movimento do BC.
Um trabalhador não dispõe dessa estrutura.
Um desempregado não conversa regularmente com diretores da autoridade monetária.
O pequeno comerciante não contrata um antigo presidente do Banco Central depois que ele deixa o cargo.
Os bancos fazem tudo isso normalmente.
A chamada autonomia retirou uma parte do controle do governo sobre o BC sem retirar um centavo do poder econômico dos banqueiros.
Na prática, criou-se uma instituição mais distante do resultado das eleições e da população, mas que é controlada pelas empresas financeiras que deve regular. Os juros não estão em 14% à toa: quem mais ganha com essa fixação, feita pelo BC, são justamente os bancos. E quem perde é o povo, que fica mais pobre.
O caso Master acrescenta a esse quadro a suspeita de corrupção direta.
Se as acusações forem confirmadas, Vorcaro não se contentou em exercer a influência que qualquer grande banqueiro já possui sobre a política econômica. Comprou informações dentro do próprio órgão fiscalizador.
É uma enorme bandidagem, típica dos banqueiros. Vorcaro, contudo, não parece ser tão profissional como os outros, que continuam nas sombras.
A ideia de que basta afastar o Banco Central do governo para transformá-lo numa instituição neutra e puramente técnica é uma fraude. Juros, crédito, fiscalização e moeda envolvem interesses econômicos concretos.
Quando o BC é colocado fora do alcance do governo eleito, ele não passa a flutuar acima da sociedade. Fica ainda mais submetido à pressão daqueles que possuem dinheiro e poder para influenciá-lo.
A experiência do Master torna isso particularmente visível.
A chamada autonomia deve ser revogada. O Banco Central é um órgão decisivo para o funcionamento da economia nacional e deve estar integralmente submetido ao Estado.
Isso, porém, não resolve sozinho a questão.
Enquanto os principais bancos permanecerem nas mãos de grupos privados, eles continuarão utilizando seu poder econômico para influenciar o Estado, controlar o crédito e apropriar-se de uma parcela gigantesca da riqueza produzida no País.
Todo o sistema financeiro deve ser estatizado e colocado sob o controle dos trabalhadores.


