A candidatura de Lula chega a uma fase cada vez mais difícil da eleição. A disputa já estava apertada e os levantamentos mais recentes indicam que o presidente não conseguiu melhorar de maneira relevante sua posição nos três maiores colégios eleitorais do País. Ao mesmo tempo, aparecem sinais de perda no Nordeste, justamente a região que garantiu a vantagem decisiva para sua vitória em 2022.
Agora, o escândalo envolvendo Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acrescenta um problema particularmente grave para o candidato petista.
Pesquisas eleitorais não devem ser tomadas como retratos exatos da opinião pública. Os institutos manipulam seus resultados por meio da escolha das amostras, da ponderação dos entrevistados, das perguntas e da maneira como os números são divulgados. Essa manipulação, porém, não é ilimitada. Para possuir alguma aparência de credibilidade, precisa se mover dentro das margens permitidas pela situação real.
Por isso, mais importante que tratar cada decimal como uma verdade absoluta é observar o movimento geral indicado pelos próprios levantamentos. E o movimento é ruim para Lula.
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro reúnem quase 40% dos eleitores brasileiros. Em 2022, o desempenho de Lula nesses estados foi fundamental para reduzir a vantagem de Jair Bolsonaro no Sudeste e tornar possível a vitória nacional. Quatro anos depois, o PT esperava avançar nessa região. Não avançou.
Em São Paulo, os números atribuídos a Flávio Bolsonaro praticamente repetem o resultado obtido por Jair Bolsonaro em 2022. A diferença apontada é de apenas 0,17 ponto percentual.
Em Minas Gerais, Flávio Bolsonaro aparece 2,15 pontos acima da votação alcançada pelo pai na eleição anterior. No Rio de Janeiro, Lula apresenta melhora de 2,78 pontos.
As diferenças estão dentro das margens de erro. O elemento importante não é, portanto, saber se houve avanço ou recuo de alguns décimos. O problema para o PT é que a correlação de forças nos três principais estados permanece essencialmente a mesma.
Isso não seria tão grave caso Lula estivesse preservando a enorme vantagem que obteve no Nordeste.
Os levantamentos, entretanto, apontam perda de terreno justamente nessa região. Há indicação de crescimento no Norte, mas o peso eleitoral dos estados nortistas é muito menor e não seria suficiente para compensar uma diminuição importante da votação nordestina.
Em 2022, Lula venceu porque conseguiu combinar uma vantagem esmagadora no Nordeste com uma melhora de desempenho no Sudeste. Se repetir praticamente os mesmos números nos grandes estados e perder votos onde sua vantagem era maior, a conta começa a não fechar.
Esse problema já existia antes da atual crise do Supremo Tribunal Federal. O caso Master tornou a situação mais perigosa porque Alexandre de Moraes não é uma figura politicamente estranha ao governo Lula.
Durante quatro anos, Lula, o governo federal e a direção do PT defenderam sistematicamente o ministro e o STF. As arbitrariedades praticadas pelo Supremo foram apresentadas como instrumentos necessários para defender a democracia contra o bolsonarismo.
A censura foi defendida em nome do combate às chamadas notícias falsas. Inquéritos conduzidos pelo próprio tribunal foram justificados. Perseguições políticas foram tratadas como medidas excepcionais necessárias. A concentração de poderes nas mãos de ministros que não receberam um único voto foi apresentada como proteção contra a extrema direita.
O PT tornou-se o principal avalista pela esquerda da política ditatorial do STF. Agora, essa escolha possui consequências eleitorais. Quando a imagem de Moraes é atingida, o desgaste não fica restrito ao ministro. Ele alcança também aqueles que passaram anos apresentando sua atuação como indispensável à democracia. E Lula é a principal figura desse campo político.
O presidente não pode passar quatro anos apoiando o poder extraordinário do Supremo e, quando Moraes entra numa crise de grandes proporções, agir como se não tivesse qualquer relação com o problema. O escândalo do Banco Master transformou essa associação numa arma contra a candidatura petista.
As mensagens envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes abriram uma crise justamente em torno do ministro que se tornou o maior símbolo do regime judicial defendido pela frente ampla. Quanto mais o caso se amplia, maior é a dificuldade do PT de se afastar de uma figura que ajudou politicamente a fortalecer.
Esse é o problema que os números eleitorais começam a registrar, ainda que de maneira deformada. O governo tentou melhorar sua situação entre setores da classe média por meio de medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e novas linhas de crédito. Isso não produziu, até agora, a mudança eleitoral que o PT esperava nos grandes estados. Ao mesmo tempo, a vantagem no Nordeste mostra sinais de redução.
A candidatura de Lula, portanto, já estava em dificuldades antes do caso Master-Moraes. O escândalo atinge justamente um dos pontos mais frágeis da política adotada pelo PT desde 2022: a decisão de se colocar como defensor do STF e de Alexandre de Moraes contra a direita.
Ao sustentar todas as arbitrariedades do Supremo em nome da luta contra Bolsonaro, o PT amarrou sua própria sorte política à de Moraes. Agora, quando o ministro é atingido, Lula também paga a conta.




