A Comissão Executiva Nacional do PT publicou, na quinta-feira (10), uma resolução para orientar o Partido nas eleições de 2026 e diante da crise aberta no Supremo Tribunal Federal. O documento admite um “legítimo sentimento de mudança do povo diante da percepção de falência do sistema” e chega a afirmar que “o sistema brasileiro apodreceu”. Apesar disso, sua resposta é uma “ofensiva democrática”, a recuperação da autoridade do Judiciário e um “Pacto entre Poderes”.
Se o sistema apodreceu, por que a tarefa seria restaurar a confiança em suas instituições? Se existe uma revolta legítima da população, por que contê-la dentro dos limites dos partidos que administram esse mesmo sistema?
A resolução apresenta as eleições como uma disputa entre dois campos: de um lado, quem “defende a democracia”; de outro, aqueles que “atacaram permanentemente as instituições democráticas”. Assim, o eixo deixa de ser a organização dos trabalhadores contra os bancos, os grandes capitalistas e o imperialismo. A prioridade passa a ser uma frente em defesa das instituições contra a extrema direita.
É nesse marco que o STF aparece. O texto reconhece que “a Suprema Corte brasileira trava uma ‘guerra’ aos olhos estarrecidos da sociedade”, mas declara confiança “na autoridade de seu presidente, ministro Fachin, para que as apurações sejam aceleradas e conduzidas”. Depois afirma: “sabemos que não haverá democracia com o Judiciário desmoralizado”. O problema principal não seria um grupo de 11 ministros não eleitos acumular poderes gigantescos sobre a vida política de mais de 200 milhões de pessoas, mas a perda de prestígio dessa instituição.
No item 13, a ideia aparece de forma ainda mais clara:
“Precisamos organizar uma ofensiva democrática para não permitir que as forças do autoritarismo, as forças antidemocráticas, se apropriem do legítimo sentimento de mudança do povo diante da percepção de falência do sistema.”
A experiência europeia mostra onde essa política pode chegar. No domingo (6), a Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 43,8% dos votos na Saxônia-Anhalt. A CDU ficou com 17,2%. O Partido Social-Democrata (SPD), uma das maiores organizações surgidas do movimento operário mundial, tornou-se força secundária. Ao mesmo tempo, a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) superou a cláusula de barreira e conquistou cinco cadeiras.
Durante décadas, o SPD foi o grande partido da classe operária alemã, com vínculos profundos com sindicatos, milhões de eleitores, organizações populares e imprensa própria. Hoje participa do governo federal ao lado da CDU de Friedrich Merz.
Para conter a AfD, a direita tradicional, a social-democracia, liberais, verdes e outros setores construíram o chamado “cordão sanitário”. Quanto mais aparecem juntos na defesa da ordem existente, mais a extrema direita consegue se apresentar demagogicamente como adversária de todos eles.
Uma organização alemã financiada pela Open Society Foundations chegou a apresentar um documento de cerca de 1.500 páginas defendendo a declaração de inconstitucionalidade da AfD. Poucos meses depois, o partido alcançou 43,8% na Saxônia-Anhalt. Tribunais, serviços de inteligência, proibições e organizações da “sociedade civil” não eliminaram a revolta social que alimenta a direita.
O BSW mostra, por outro lado, que essa revolta não pertence naturalmente à extrema direita. Apesar de suas limitações, cresceu criticando a OTAN, a guerra, aspectos da política identitária e procurando falar das condições materiais dos trabalhadores.
Na Inglaterra, o Partido Trabalhista chegou ao governo em 2024 com ampla maioria parlamentar. Nas eleições de maio de 2026, sofreu uma derrota histórica enquanto o Reform UK, de Nigel Farage, avançou em antigas regiões trabalhistas, aprofundando a crise do governo de Keir Starmer.
O trabalhismo, desde a ofensiva comandada por Tony Blair, já havia lugar a um partido aceitável pelo imperialismo britânico. Quando a crise social se aprofundou, a classe trabalhadora ficou sem representação política própria, e a extrema direita ocupou parte desse espaço.
Na França, Emmanuel Macron construiu sua política proclamando a superação da divisão entre direita e esquerda. De um lado estariam os “democratas” e “progressistas”; do outro, os “extremos”. O resultado foi o fortalecimento da líder da extrema direita, Marine Le Pen, e o crescimento eleitoral do partido de Jean-Luc Mélenchon, da esquerda francesa.
A resolução do PT contém algumas reivindicações genéricas e bastante moderadas para a classe operária: fim da escala 6×1, redução da jornada sem redução salarial, aumento real do salário mínimo, redução dos juros, fortalecimento do SUS, melhoria da educação pública, tributação dos super-ricos e aumento da renda. O problema não é simplesmente que essas reivindicações sejam insuficientes. O problema é que elas estão subordinadas a uma política oposta aos interesses dos trabalhadores.
A própria resolução deixa isso claro. No caso dos juros, por exemplo, o PT pede uma redução “de forma sustentável”. Sustentável para quem? O Brasil está submetido a uma verdadeira ditadura dos bancos. Uma parcela gigantesca do orçamento público é transferida aos grandes credores por meio da dívida pública, enquanto o Banco Central utiliza os juros para garantir a remuneração do capital financeiro. Diante disso, pedir simplesmente que os juros caiam “de forma sustentável” significa aceitar como intocável o mecanismo fundamental dessa pilhagem.
Uma política operária deve dizer exatamente o contrário: fim da independência do Banco Central, cancelamento da dívida com os bancos e grandes credores, estatização do sistema financeiro e formação de um banco estatal único sob controle dos trabalhadores.
O mesmo ocorre com a jornada de trabalho. A resolução fala no fim da escala 6×1, mas transforma a reivindicação em pura demagogia eleitoral. O que um partido operário deve fazer é organizar os trabalhadores para impor aos patrões a redução da jornada para 35 horas semanais, sete horas por dia e cinco dias por semana, sem redução dos salários. Também é preciso defender a proibição das demissões e ocupar, sob controle dos trabalhadores, as empresas que ameacem fechar ou dispensar funcionários.
Essa é a diferença entre apresentar uma reivindicação para conquistar votos e utilizá-la para desenvolver a luta de classes. A resolução do PT faz a primeira coisa, ao chamar “partidos aliados, movimentos sociais e sindicatos” para panfletagens, caminhadas, carreatas e outras atividades eleitorais. Os sindicatos aparecem como auxiliares da campanha eleitoral.
Para um partido operário, a relação deveria ser inversa. A eleição deve servir à organização dos trabalhadores, e não as organizações dos trabalhadores servirem à eleição. As conquistas fundamentais não serão obtidas porque um candidato venceu as eleições, mas porque os trabalhadores desenvolveram força suficiente para impô-las.
É justamente por isso que a posição da resolução diante da crise do STF é tão grave. O STF está mergulhado numa crise sem precedentes. Seus ministros brigam entre si, aparecem envolvidos em denúncias, relações obscuras com grandes capitalistas e escândalos como o Banco Master. Durante anos, essa mesma instituição censurou cidadãos, derrubou perfis nas redes sociais, interveio no funcionamento dos partidos, interferiu diretamente nas eleições e concentrou poderes que nenhum órgão composto por pessoas não eleitas deveria possuir.
A conclusão da direção do PT, porém, é que “não haverá democracia com o Judiciário desmoralizado”. Ou seja, quando a população começa a enxergar a podridão do Judiciário, a preocupação do PT é recuperar a autoridade dos juízes.
A política dos trabalhadores deve ser exatamente a oposta. Não há motivo algum para salvar a autoridade de uma instituição que funciona acima da população e que ninguém elegeu. É preciso aproveitar sua crise para lutar pelo fim do STF, pela eleição de todos os juízes e procuradores pelo voto popular e pela possibilidade de revogação de seus mandatos. A mesma oposição aparece em toda a resolução. O PT vê a decomposição do regime e procura restaurá-lo.
Se milhões de pessoas estão endividadas, não basta prometer aumento de renda: é preciso defender a anulação das dívidas dos trabalhadores com o sistema financeiro. Se os salários foram destruídos pela inflação e pelas derrotas acumuladas desde o golpe de 2016, não basta falar em “aumento real”: é preciso defender a reposição integral das perdas, um aumento emergencial dos salários e uma escala móvel que reajuste automaticamente os vencimentos conforme aumente o custo de vida.
Se a reforma trabalhista rasgou os direitos de milhões, não basta administrar aquilo que restou da legislação: é preciso revogar integralmente a reforma trabalhista, acabar com a terceirização e restabelecer e ampliar os direitos da CLT. Se empresas privatizadas saqueiam a população e remetem lucros para o exterior, não basta falar vagamente em desenvolvimento nacional: é preciso cancelar as privatizações, reestatizar a Eletrobrás, a Vale e demais empresas entregues ao capital privado, defender a Petrobrás 100% estatal e colocar as empresas públicas sob controle dos trabalhadores.
A direita explora a revolta contra um regime que ela própria serve porque os partidos tradicionais da esquerda se recusam a organizar essa revolta numa direção operária. Combater a direita, portanto, não significa defender as instituições contra ela. Significa retirar dela essa bandeira.





