As forças do governo de Saná obtiveram novas conquistas militares nesta quinta-feira (10) na costa ocidental do Iêmen, expulsando tropas apoiadas pela Arábia Saudita de áreas estratégicas e aproximando-se do estreito de Bab al-Mandab.
A operação ocorre em meio à retomada da guerra entre o Iêmen e a monarquia saudita, após o colapso da trégua estabelecida em 2022. Nos últimos dias, tropas iemenitas passaram por al-Waziyah, al-Khokha e Hays e chegaram à região de al-Mokha, importante porto do Mar Vermelho.
Entre as posições conquistadas estão a base militar Khalid e o acampamento Jabal al-Nar, utilizado como centro de comando pelas tropas que atuavam na costa ocidental com apoio saudita.
Somente os distritos de Hays e al-Khokha possuem mais de 1.050 quilômetros quadrados. Uma estimativa citada pelo jornal britânico The Guardian calcula que mais de 6 mil quilômetros quadrados tenham passado às mãos das forças de Saná desde o início da nova campanha militar.
A situação em al-Mokha ainda apresentava informações contraditórias até o fechamento desta edição. Uma fonte militar ouvida pela AFP afirmou que a cidade havia sido tomada pelo Ansar Alá. Testemunhas relataram a entrada de combatentes entoando “Morte aos EUA, morte a ‘Israel’”.
A Al Mayadeen, porém, informou que o governo de Saná ainda não havia publicado uma confirmação oficial da conquista completa da cidade. O canal confirmou a tomada de posições militares na região e informou que o comandante das forças apoiadas pela Arábia Saudita teria recuado para Áden.
A AFP também informou, citando uma fonte militar, que os iemenitas conquistaram a ilha de Zuqar, no sul do Mar Vermelho, depois de ataques com foguetes e do desembarque de combatentes transportados por embarcações. Operações de varredura foram iniciadas em outras ilhas próximas à costa.
O objetivo seguinte é Bab al-Mandab.
O estreito liga o golfo de Áden ao Mar Vermelho e constitui passagem essencial para navios que seguem em direção ao Canal de Suez. Com o Irã enfrentando os Estados Unidos no estreito de Ormuz, uma ampliação da presença iemenita em Bab al-Mandab aumenta a pressão sobre duas das rotas marítimas mais importantes para o comércio internacional.
É justamente esse aspecto que provocou preocupação em Riade, na Casa Branca e em “Israel”.
O Guardian classificou a perspectiva de crescimento simultâneo da influência iraniana em Ormuz e do Ansar Alá em Bab al-Mandab como um “desastre estratégico” para os Estados Unidos e a Arábia Saudita.
A preocupação saudita é ainda maior porque o Mar Vermelho ganhou importância para o transporte de mercadorias e petróleo depois das dificuldades impostas à navegação no golfo Pérsico pela guerra contra o Irã.
A imprensa de “Israel” também acompanhou os acontecimentos com apreensão. A rádio do Exército sionista afirmou que a ocupação de novas áreas da costa ampliaria a capacidade dos iemenitas de atuar em Bab al-Mandab.
Outros órgãos israelenses destacaram a posição de al-Mokha como ponto a partir do qual seria possível vigiar embarcações que entram no Mar Vermelho e organizar ações contra navios ligados a “Israel”.
O Ansar Alá já demonstrou essa capacidade durante a guerra contra Gaza. Em solidariedade à resistência palestina, o movimento atacou embarcações vinculadas ao Estado sionista e obrigou grandes companhias marítimas a alterar suas rotas.
A Arábia Saudita tentou frear a atual operação com intenso bombardeio aéreo. Cerca de 40 ataques atingiram Taiz, Hodeida, al-Jawf e Marib em poucas horas. Um balanço posterior registrou 43 bombardeios.
Mesmo com os ataques, o exército fantoche teleguiado pela monarquia saudita e pelo imperialismo perdeu posições e precisou reorganizar sua estrutura militar.
Tariq Saleh, dirigente do chamado Conselho de Liderança Presidencial (o governo fantoche), determinou a criação de um centro de comando em uma área considerada segura para reagrupar seus homens. O deslocamento ocorreu depois das perdas sofridas na costa.
As dificuldades aumentaram após a retirada, no início deste ano, do apoio militar e financeiro dos Emirados Árabes Unidos a parte das forças fantoches do sul. Outros grupos armados dessa região também se recusam a combater fora das áreas que controlam.
A atual batalha é resultado direto da retomada das agressões sauditas contra o país.
Em julho, o Ansar Alá considerou encerrada a trégua de 2022 após um ataque contra o Aeroporto Internacional de Saná. Desde então, os iemenitas atingiram instalações sauditas, entre elas refinarias da Aramco e o aeroporto de Abha.
Saná também anunciou uma proibição à navegação de embarcações que utilizam portos sauditas, sob a fórmula “aeroporto por aeroporto e cerco por cerco”.
O Ministério das Relações Exteriores do governo iemenita afirmou que a concentração de tropas sauditas em território nacional obrigou uma resposta militar e que as Forças Armadas têm a responsabilidade de defender a soberania do país.
Abdulaziz bin Habtour, integrante do Conselho Político Supremo, rejeitou a tentativa de apresentar a recuperação do território iemenita como ameaça ao comércio marítimo.
“A navegação internacional é um interesse iemenita, regional e internacional e continuará segura”, declarou.
Acrescentou que “o exercício da soberania do Iêmen sobre suas terras é um direito inerente ao qual nenhuma parte externa tem o direito de se opor”.
Mohammad Abdelsalam, porta-voz do Ansar Alá, responsabilizou Riade pelo novo período de combates.
“O regime saudita deveria ter respondido aos apelos pela paz em vez de buscar a escalada e cometer crimes”, declarou.
Durante mais de uma década, a Arábia Saudita utilizou sua aviação, armas fornecidas pelas potências imperialistas, bloqueio econômico e forças subordinadas para tentar destruir o governo de Saná. A situação atual é inversa: são as tropas apoiadas por Riade que abandonam bases e recuam diante do Ansar Alá, enquanto os revolucionários iemenitas se aproximam de Bab al-Mandab.





