Nesta sexta-feira (11), completam-se 25 anos da Ghazwat Manhattan, ou “Incursão de Manhattan”, expressão utilizada por Osama Bin Laden e pela Al-Caida para designar os ataques de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas, em Nova Iorque, e o Pentágono.
Esta matéria trata de Osama Bin Laden, apontado como responsável intelectual pela incursão. Não se trata de apresentar uma biografia, mas de recuperar um aspecto praticamente apagado pela propaganda imperialista: as razões políticas que ele próprio apresentava para sua luta.
Durante décadas, Bin Laden foi apresentado simplesmente como um terrorista fanático, movido por um ódio irracional aos Estados Unidos e ao Ocidente. As três entrevistas feitas pelo jornalista britânico Robert Fisk, porém, mostram um personagem muito mais contraditório. Sua ideologia era confusa, religiosa e continha profundas limitações políticas. Seus métodos terroristas de luta também eram equivocados. Ao mesmo tempo, suas declarações revelam uma oposição consciente ao domínio imperialista sobre o mundo islâmico, à ocupação sionista da Palestina e à submissão dos governos árabes ao imperialismo.
Aparecem ainda em suas palavras a defesa dos povos submetidos às guerras dos Estados Unidos, a denúncia das sanções contra o Iraque, a preocupação com a pobreza na Arábia Saudita e a solidariedade com palestinos e libaneses. Há nelas um sentimento anti-imperialista, elementos de solidariedade pan-árabe e principalmente pan-islâmica e mesmo uma preocupação humanitária que desapareceu completamente da caricatura construída em torno de sua figura.
Não era um agente da CIA
A relação de Bin Laden com a guerra do Afeganistão é frequentemente apresentada de maneira simplificada: ele teria sido uma criação dos Estados Unidos utilizada contra a União Soviética.
Fisk nunca negou que Washington tenha armado e financiado a resistência afegã durante a década de 1980. A CIA, a monarquia saudita e vários tentáculos do imperialismo participaram diretamente dessa política, como está vastamente comprovado. O jornalista lembraria posteriormente que os Estados Unidos haviam ajudado a fortalecer forças islamistas que acabaram se voltando contra eles e perguntava quantos “novos Bin Ladens” poderiam ser produzidos por operações semelhantes.
Isso é diferente de dizer que Bin Laden fosse um agente norte-americano.
Quando a URSS entrou no Afeganistão, a família real saudita, estimulada pela CIA, pretendia enviar uma legião de voluntários árabes para combater ao lado dos afegãos. Queria que um príncipe saudita assumisse o comando. Nenhum deles aceitou.
Fisk relata:
“Bin Laden, furioso tanto com a covardia quanto com a humilhação dos muçulmanos afegãos nas mãos dos soviéticos, assumiu o lugar deles, e com o dinheiro e a maquinaria da sua própria empresa de construção, pôs de pé a sua própria jihad.”
Bin Laden pertencia a uma rica família saudita de origem iemenita e colocou recursos e equipamentos de sua empresa de construção a serviço da guerra. Sua atuação lhe deu enorme prestígio entre os voluntários árabes.
“Sendo um homem de negócios saudita multimilionário, embora de humilde ascendência iemenita, nos anos que se seguiram haveria de ser idolatrado tanto pelos sauditas como por milhões de outros árabes, uma figura lendária para todas as crianças árabes, do Golfo ao Mediterrâneo.”
Fisk considerou que sua imagem havia adquirido um caráter heroico comparável, em influência, ao de Lawrence da Arábia.
“Egípcios, sauditas, iemenitas, cuaiteanos, argelinos, sírios e palestinos punham-se a caminho da cidade fronteiriça paquistanesa de Pexauar para lutar ao lado de Bin Laden.”
Na primeira entrevista, em 1993, Fisk perguntou diretamente sobre a alegada ajuda dos Estados Unidos. Bin Laden respondeu:
“Pessoalmente, nem eu nem meus irmãos vimos qualquer prova de ajuda americana.”
Em 1996, Fisk voltou à pergunta. A resposta foi imediata:
“Nunca fomos amigos dos americanos. Sabíamos que os americanos apoiam os judeus na Palestina e que são nossos inimigos. A maior parte das armas que chegou ao Afeganistão foi paga pelos sauditas por ordem dos americanos porque Turki al-Faiçal [chefe da espionagem externa saudita] e a CIA trabalhavam em conjunto.”
Os norte-americanos participaram, portanto, do financiamento geral da guerra antissoviética, em associação com a Arábia Saudita. Mas o relato de Fisk – o jornalista ocidental com maior autoridade para falar de Bin Laden e um dos maiores especialistas em política do Oriente Médio – não sustenta a versão simplificada de que Bin Laden fosse um funcionário da CIA que posteriormente teria decidido mudar de lado.
Opositor da reacionária monarquia saudita
O conflito com os Estados Unidos tornou-se aberto depois da invasão do Cuvaite pelo Iraque.
Bin Laden já havia retornado à Arábia Saudita e ofereceu novamente seus serviços à família real. Defendeu que os combatentes muçulmanos poderiam proteger o território saudita e que não havia necessidade de entregar essa tarefa aos norte-americanos.
Meca e Medina, locais sagrados do Islã, deveriam ser defendidas apenas por muçulmanos.
A monarquia escolheu os Estados Unidos.
A entrada das tropas norte-americanas na Arábia Saudita foi vista por Bin Laden como uma profanação das terras sagradas. A partir daí, rompeu com a família real, deixou o país e posteriormente estabeleceu-se no Sudão. O governo saudita acabaria retirando sua nacionalidade, por pressão dos EUA.
No Sudão, utilizou recursos em obras destinadas à população pobre e conquistou simpatia entre aldeões. Como o governo sudanês lhe havia dado abrigo, os Estados Unidos passaram a acusar o país de patrocinar o terrorismo internacional.
“Colônia americana”
Quando Fisk o encontrou novamente, em 1996, a ruptura com a monarquia e com os Estados Unidos já estava claramente formulada.
Bin Laden afirmou ter advertido norte-americanos, britânicos e franceses para que abandonassem a Arábia Saudita e o Golfo. Os problemas do Oriente Médio seriam resultado da tentativa dos Estados Unidos de dominar a região e de seu apoio a “Israel”.
Chamou a Arábia Saudita de “colônia americana”.
Naquele momento, procurou diferenciar a população ocidental do governo que combatia:
“Tal não significa uma declaração de guerra ao Ocidente ou ao povo do Ocidente, mas contra o regime americano que é contra todos os americanos.”
A formulação entraria em contradição com ações posteriores da Al-Caida que atingiram civis, bem como a sua carta aos americanos divulgada logo após o 11 de Setembro. Ainda assim, é importante porque mostra como Bin Laden definia politicamente o adversário: não simplesmente como “o Ocidente”, mas como o poder norte-americano que dominava a região.
Ao falar do ataque de al-Khobar, relacionou-o “ao comportamento americano em relação aos muçulmanos”, ao apoio dos Estados Unidos aos sionistas na Palestina e aos massacres ocorridos em Sabra e Chatila e Qana, no Líbano.
Também denunciou a repressão do governo saudita contra os ulemás que usavam as mesquitas para atacar a submissão do reino aos Estados Unidos.
Sua oposição não se dirigia apenas a determinado integrante da família Saud. Bin Laden dizia combater todo o regime existente desde 1932, quando a dinastia consolidou seu domínio sobre o país.
Acusou a monarquia de permitir que os Estados Unidos “sugassem a economia” saudita. Lembrou que Riad apoiara o Iraque contra o Irã e depois apoiara a guerra imperialista contra o próprio Iraque. Denunciou ainda o apoio dado a Iasser Arafat contra o Hamas, que atribuía às exigências do imperialismo.
Sua denúncia alcançava também a situação econômica do povo saudita:
“Ao mesmo tempo, instala-se no país uma crise financeira e o povo sofre com isso. (…) Os preços estão subindo e o povo tem de pagar mais pela eletricidade, a água e os combustíveis. Os agricultores sauditas não recebem dinheiro desde 1992 e os que conseguem auxílio financeiro o obtêm devido a empréstimos contraídos pelo governo junto aos bancos. A educação está se deteriorando e as pessoas têm de retirar as crianças das escolas públicas e dar-lhes instrução nas privadas, que são muito caras.”
Depois disso, declarou que “os sauditas sabem agora que seu verdadeiro inimigo são os EUA”.
Palestina, Líbano e Iraque
A Palestina aparece repetidamente nas entrevistas.
Bin Laden comparava a resistência contra a presença militar norte-americana na Arábia Saudita e contra a ocupação sionista da Palestina à resistência dos povos europeus nos territórios ocupados pelo nazismo.
“Nós, enquanto muçulmanos, temos um forte sentimento que nos une (…) Sentimos pelos nossos irmãos da Palestina e do Líbano (…) Quando 60 judeus são mortos no interior da Palestina no espaço de uma semana, todo mundo se junta para criticar a sua ação [da resistência], ao passo que a morte de 600.000 crianças iraquianas não obteve a mesma reação.”
A referência era ao bloqueio econômico imposto ao Iraque durante os anos 1990. Bin Laden era inimigo político de Saddam Hussein, mas separava sua oposição ao governo iraquiano da situação da população submetida às sanções.
“Nós, como muçulmanos, não gostamos do regime do Iraque, mas pensamos que o povo iraquiano e as suas crianças são nossos irmãos e nos preocupamos com o seu futuro.”
Essas declarações explicam melhor sua hostilidade aos Estados Unidos do que a ideia de um ódio religioso abstrato. Bin Laden citava continuamente fatos políticos: Palestina, Líbano, Iraque, bases militares norte-americanas e submissão dos governos árabes.
Previa ainda que a resistência aos Estados Unidos se espalharia por “muitos, muitos lugares dos países muçulmanos” e afirmou que ulemás haviam proclamado uma fátua exigindo a expulsão das tropas norte-americanas.
“Israel” e os Estados Unidos
Na terceira entrevista com Fisk, em 1997, Bin Laden já apresentava “Israel” diretamente como um instrumento da dominação norte-americana sobre a região.
“Para nós não existe diferença entre os governos americano e israelense, nem entre os soldados americanos e israelenses.”
Foi também quando utilizou uma expressão celebrizada por Mao Tsé-Tung:
“Os EUA são um tigre de papel.”
A frase expressava a avaliação de que a superioridade material norte-americana escondia uma vulnerabilidade política e moral que poderia ser demonstrada por derrotas e guerras prolongadas.
Há analistas que apontam o estudo, por Bin Laden, de autores militares de diferentes correntes, inclusive revolucionários como Mao. Técnicas de guerra de guerrilha e de combate entre forças extremamente desiguais empregadas pelos grupos que dirigiu são apontadas como indícios desse interesse.
Isso evidentemente não fazia dele um socialista, nem de longe. Mostra apenas que sua formação estratégica não se restringia à religião.
As imagens de 1982
Em gravação divulgada em 2004, Bin Laden voltou aos bombardeios e massacres realizados por “Israel” no Líbano em 1982.
“Não consegui esquecer aquelas cenas comoventes, sangue e membros decepados, mulheres e crianças jazendo por todo o lado.”
A lembrança aparece como uma das explicações para sua decisão de combater os Estados Unidos, responsáveis por sustentar política, financeira e militarmente o Estado sionista.
Dirigindo-se ao governo norte-americano, afirmou:
“Combatemo-vos porque somos homens livres que não dormem sob a opressão.”
Também declarou que queria “devolver a liberdade à nossa nação”.
Frente única contra o imperialismo
A relação de Bin Laden com o Iraque é outro elemento importante.
Ele sempre se declarou inimigo do regime de Saddam Hussein. Quando os Estados Unidos lançaram sua ofensiva contra o país, porém, defendeu uma ação comum contra as forças invasoras.
Em uma mensagem, afirmou:
“Não existe a mínima dúvida de que esta Cruzada é dirigida, primeiramente e acima de tudo, contra a família do Islã, independentemente de o Partido Socialista e Saddam sobreviverem ou não.”
E prosseguiu:
“Apesar da nossa convicção e da nossa proclamação sobre a infidelidade dos socialistas, nas atuais circunstâncias existe uma coincidência de interesses entre os muçulmanos e os socialistas nos seus combates contra os cruzados.”
Bin Laden podia, portanto, considerar Saddam e o regime iraquiano inimigos políticos e religiosos e, simultaneamente, defender uma aliança temporária com eles diante da invasão dos Estados Unidos.
A prioridade era determinada por quem ocupava militarmente um país muçulmano. Ou seja, o centro de sua luta era contra o inimigo imperialista. Uma luta pela libertação nacional. Uma luta política acima da luta religiosa.





