Europa

O lado positivo da crise alemã: a ascensão da extrema esquerda

BSW supera cláusula de barreira, conquista cinco cadeiras e mostra que a revolta contra os partidos tradicionais também começa a se expressar pela esquerda

A eleição da Saxônia-Anhalt, realizada no domingo (6), produziu um resultado histórico para a extrema direita. A Alternativa para a Alemanha (AfD) recebeu 43,8% dos votos e conquistou 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual. A União Democrata-Cristã (CDU), principal partido tradicional da direita alemã, caiu para apenas 17,2%.

Esse, porém, não foi o único deslocamento importante das eleições. A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) recebeu 5,3%, ultrapassou a cláusula de barreira e conquistou cinco deputados. O partido chegou a aparecer abaixo dos 5% nas primeiras projeções e esteve perto de ficar fora do Parlamento.

O desempenho do BSW mostra que a crise dos partidos tradicionais alemães não alimenta exclusivamente a extrema direita. Pela esquerda, começa a se desenvolver uma tendência que rompe com parte importante da política seguida pela social-democracia, pelos Verdes e pela velha esquerda parlamentar.

A Alemanha caminha para uma polarização cada vez maior. De um lado, a AfD cresce rapidamente entre trabalhadores e setores arruinados pela política econômica dos últimos governos. De outro, ainda de maneira muito mais limitada, aparece uma força que procura recuperar uma orientação voltada à classe operária e se distancia da esquerda adaptada ao imperialismo alemão.

A comparação mais importante não é entre o BSW e a AfD, mas entre o partido de Wagenknecht e Die Linke. A organização identitária recebeu 8,6%, seu pior resultado na Saxônia-Anhalt.

A diferença foi de apenas 3,3 pontos. O BSW é muito mais recente, possui menor implantação territorial e ficou fora do Parlamento federal nas eleições de 2025. Mesmo nessas condições, aproximou-se de um partido que durante anos ocupou praticamente sozinho o espaço eleitoral à esquerda do SPD.

A origem dos votos ajuda a explicar o fenômeno. Segundo o Infratest dimap, 15 mil votos líquidos conquistados pelo BSW vieram de Die Linke. Outros 15 mil vieram de pequenas legendas. A CDU perdeu 12 mil eleitores para o partido de Wagenknecht.

A migração da AfD para o BSW foi muito menor: saldo de apenas dois mil votos.

Esses números contradizem a caracterização segundo a qual o BSW seria simplesmente uma expressão disfarçada da direita. Seu avanço ocorreu principalmente sobre o terreno abandonado pela esquerda tradicional.

Ao longo dos últimos anos, Die Linke aproximou-se cada vez mais dos setores abastados da classe média, dos governos estaduais e da política oficial da Alemanha. A antiga base operária perdeu importância, enquanto posições defendidas pelo imperialismo europeu passaram a ser apresentadas como política de esquerda.

O BSW nasceu de uma ruptura com esse caminho.

O enorme crescimento da AfD ocorre depois de anos de política econômica e militar que atingiram diretamente a classe operária. O rompimento econômico com a Rússia elevou os custos energéticos de uma indústria fortemente dependente de gás barato. Ao mesmo tempo, o governo alemão destinou enormes recursos ao rearmamento e à guerra por procuração travada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra a Rússia na Ucrânia.

A população ficou com a conta. Empregos industriais desapareceram, a energia encareceu e os gastos militares aumentaram enquanto serviços públicos sofreram cortes.

SPD, CDU e Verdes estiveram diretamente envolvidos nessa política. A antiga esquerda parlamentar não organizou uma oposição à altura. Em questões decisivas, acompanhou a política conduzida pela União Europeia e pela OTAN.

A AfD ocupou grande parte do espaço produzido por essa falência. O BSW começa agora a disputar uma parte dele pela esquerda.

Uma das principais diferenças do BSW está justamente na guerra. O partido se opôs à escalada militar contra a Rússia, às sanções e à transformação da Alemanha numa das principais bases europeias da política da OTAN.

Essa posição toca diretamente numa questão de classe. A política de guerra favorece as grandes empresas de armamentos e os interesses estratégicos do imperialismo alemão, enquanto transfere seus custos para os trabalhadores.

O partido também se afastou da orientação identitária predominante em boa parte da esquerda europeia. Em vez de organizar toda a política em torno de grupos separados por sexo, raça ou outros critérios, voltou a destacar salários, condições de vida, indústria, aposentadoria e guerra.

Os dados sobre os simpatizantes do BSW também são reveladores. Entre eles, 54% afirmam desejar uma mudança fundamental no sistema político. A média entre todos os eleitores do estado ficou em 49%.

O partido ainda não possui um perfil social tão definido quanto seus concorrentes. A AfD apresenta força particular entre operários e pessoas sem diploma universitário. Die Linke obtém resultados melhores entre jovens, especialmente mulheres jovens de escolaridade elevada.

No BSW não aparece uma concentração semelhante. Seu eleitorado atravessa diferentes idades, ocupações e níveis de escolaridade.

Isso é compatível com uma organização ainda pouco consolidada. O partido está reunindo setores diversos que romperam com as forças tradicionais, sem ter ainda uma base social tão organizada quanto a extrema direita.

A votação do BSW também teve efeito imediato sobre a composição parlamentar. A AfD conseguiu 39 cadeiras. A maioria absoluta exigiria 42. Os cinco deputados do BSW impediram que a extrema direita transformasse seus 43,8% numa maioria própria.

O restante do Parlamento também não consegue formar facilmente uma maioria. CDU, SPD, Verdes e Die Linke não alcançam juntos o número necessário para controlar a Casa.

O BSW propôs a escolha de um ministro-presidente sem filiação partidária, sustentado por maiorias variáveis no Parlamento. 

No dia 20 de setembro, o BSW terá duas novas provas. Haverá eleições em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e para a Câmara dos Deputados de Berlim. Os resultados mostrarão se os 5,3% conquistados na Saxônia-Anhalt foram um episódio isolado ou se a crise da esquerda tradicional alemã abriu espaço permanente para uma nova força à sua esquerda.

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