O povo brasileiro quer um país lindão.
As belezas naturais do nosso Brasil são importantes para encher os nossos olhos de alegria e paz. Mas as pesquisas do IBGE mostram que são poucas as pessoas que já tiveram a oportunidade de conhecer o próprio país.
Eu sou uma delas: pouco conheço do meu Brasil.
Seria por quê?
Será que tantas formações — Jornalismo, História, MBA em Arte, Ciências Biológicas, Filosofia, Letras, além de diversas pós-graduações — seriam a razão para que eu não conseguisse ter o direito econômico de conhecer toda a extensão territorial do meu país?
Que contradição é essa?
Um país tão rico em belezas naturais, em cultura, em história e em diversidade, mas cujo próprio povo muitas vezes não dispõe das condições econômicas necessárias para conhecê-lo.
Eu quero um país lindão. Mas não apenas um Brasil bonito para ser visto em fotografias, propagandas e cartões-postais. Quero um Brasil bonito também para quem vive nele. Um Brasil em que o direito de conhecer a própria terra não seja privilégio de poucos.
A plataforma política do candidato à Presidência do Brasil, Rui Costa Pimenta, inclui a proposta de um salário mínimo de oito mil reais, valor que encontra correspondência muito próxima na estimativa do DIEESE para o salário mínimo necessário.
É preciso pensar na situação de um povo que, em muitos aspectos, encontra-se hoje mais sofrido do que aquele que aqui vivia antes da chegada dos portugueses. O povo originário possuía sua própria cultura, suas formas de organização social e suas relações estabelecidas com o território.
Hoje, grande parte da população brasileira encontra-se refugada, socialmente marginalizada e mal representada. E isso acontece, em parte, porque entrega um verdadeiro cheque em branco para que outras pessoas a representem — pessoas que, em sua maioria, transformam a política de representação em um meio de vida.
E é justamente aí que precisamos perguntar: que Brasil queremos construir?
Queremos apenas contemplar um país lindo ou queremos construir condições para que o povo brasileiro possa viver, conhecer e desfrutar da riqueza de seu próprio país?
Eu quero um país lindão.
Um país livre da corrupção que possivelmente habite os bastidores da política — seja no Poder Legislativo, no Executivo ou no Judiciário.
Os bastidores da política estão expostos como veias abertas.
É claro que as distrações — a produção do nada, em boa parte do conteúdo de podcasters e youtubers — vêm distraindo esse pobre povo, que acaba sendo conduzido para conflitos entre si, desgastando-se em uma realidade na qual o feminicídio e outros tipos de delito retroalimentam um sistema injusto e desalmado.
Até quando?
Até quando escândalos como os casos Master e INSS, entre tantos outros, continuarão sendo tratados pelo povo apenas como episódios passageiros, enquanto as estruturas que permitem essas situações permanecem de pé?
O que está acontecendo com as pessoas?
O que é o caso Master? O que é o caso do INSS? O que significam os vazamentos de telefonemas nos quais se revelam relações, tratamentos e proximidades entre pessoas que ocupam posições tão diferentes na sociedade?
Mas e aí?
O que fazer, brasileiro?
O que fazer, professor que dedicou uma vida inteira à educação e chega à aposentadoria recebendo tão pouco? O que fazer diante de uma velhice em que o salário mal permite sobreviver?
Como sobreviver?
Como conhecer o próprio país? Como viajar? Como contemplar suas belezas? Como ter acesso à cultura, ao lazer, à saúde, à alimentação digna?
Porque a pobreza também mata.
Morre-se cedo no país não somente de doenças. Morre-se também de abandono, de falta de condições materiais, de precariedade e de pobreza.
Por isso, quando digo “eu quero um país lindão”, não estou falando apenas de paisagens.
Estou falando de um país em que o povo possa viver com dignidade. Um país em que o trabalhador possa conhecer a sua própria terra. Um país em que o professor possa envelhecer sem medo.
Um país em que a aposentadoria não seja uma sentença de pobreza.
Um país em que a política não seja um meio de vida para poucos, mas um instrumento de transformação para muitos.
Eu quero um país lindão. E quero que o povo brasileiro também possa vivê-lo. Os números ajudam a responder a essa pergunta.
Segundo dados do IBGE, em 2023, dos 77,4 milhões de domicílios estimados no Brasil, apenas 19,8% registraram a ocorrência de viagem de algum morador nos três meses anteriores à pesquisa. Isso significa que, em aproximadamente quatro de cada cinco domicílios, não houve viagem nesse período.
E a razão econômica aparece de maneira contundente: entre os mais de 62 milhões de domicílios em que nenhum morador viajou, cerca de 24,9 milhões apontaram a falta de dinheiro como motivo — aproximadamente 40,1% dos domicílios sem viagem.
A desigualdade fica ainda mais evidente quando observamos a renda. Nos domicílios cuja renda domiciliar per capita era inferior a meio salário mínimo, somente 11,6% registraram alguma viagem em 2023. Portanto, em quase 90% deles não houve viagem. Já entre os domicílios com renda per capita de quatro salários mínimos ou mais, a ocorrência de viagem chegou a 46%.
Não estamos, portanto, falando apenas de turismo. Estamos falando de acesso à própria pátria.
E não é uma fantasia imaginar que uma família precise de uma renda muito superior ao salário mínimo oficial para viver com dignidade. Em junho de 2026, o DIEESE estimou em R$ 8.110,92 o salário mínimo necessário para uma família de quatro pessoas, considerando despesas com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e Previdência.
O número é revelador.
Enquanto milhões de brasileiros lutam para sobreviver com rendimentos muito inferiores a esse valor, o próprio país permanece, para muitos, como uma paisagem que existe, mas que não pode ser alcançada.
Eu quero um país lindão.
Mas quero um país em que o brasileiro tenha dinheiro para viajar, conhecer sua história, contemplar suas paisagens, desfrutar de sua cultura e, sobretudo, viver com dignidade na terra que é sua.
Porque um Brasil realmente lindão não pode ser apenas aquele que os nossos olhos conseguem admirar.
Tem que ser aquele que o povo brasileiro consegue viver.




