Às vésperas das eleições, o Supremo Tribunal Federal está em pé de guerra. Com um homem a menos desde a saída de Luís Roberto Barroso, os dez se articulam em duas facções, cada vez mais associadas aos principais candidatos à Presidência da República, Lula e Flávio Bolsonaro. O responsável direto pela crise é, naturalmente, o ministro Alexandre de Moraes, que, pego com a boca na botija no caso Master, em vez de se explicar ao povo brasileiro, partiu para o ataque do colega André Mendonça, aproveitando-se do clima de polarização política para tentar ocultar as próprias ações delituosas. A estratégia foi logo compreendida pela esquerda pequeno-burguesa, logo convertida em escritório de advocacia de Moraes.
A imprensa dita progressista, desde a divulgação do contrato de R$ 130 milhões do Banco Master com o escritório da mulher de Moraes, vem tentando tapar o sol com a peneira. De início, acusaram a jornalista que revelou o fato de estar inventando a história, havendo quem duvidasse até mesmo da existência do contrato, ainda que o próprio Alexandre de Moraes não a tivesse desmentido. O próprio escritório, depois de uma semana de silêncio, emitiria nota, via assessoria de imprensa, para explicar qual era, afinal, o serviço regiamente pago pelo banqueiro. Para a nossa surpresa, o escritório Barci de Moraes informou que cuidava da assessoria de compliance do banco de Vorcaro, liquidado por fraude. Ficamos sem saber quais são as valiosas recomendações do Manual de Boas Práticas do Banco Master sobre as relações de executivos com autoridades da República.
Diante da confirmação da existência do contrato, a imprensa da esquerda empenhou-se ainda mais na busca de argumentos favoráveis a Moraes. Ora, eram negócios da mulher do ministro, que tinha todo o direito de exercer livremente a sua profissão. A discussão tomava o rumo da defesa da mulher, afinal uma profissional bem-sucedida, linha que chegou a ser adotada pelo próprio presidente Lula. Muitas e muitas discussões sobre a liberdade de cobrar valores altos no mercado privado. Enfim, Moraes não tinha absolutamente nada a ver com a atividade do escritório de sua mulher e filhos, mesmo diante da movimentação de tão vultosa quantia para um serviço que, para dizer o mínimo, se revelaria muito mal executado.
Estamos nesse compasso, ouvindo os comentaristas da esquerda e lendo seus artigos na imprensa “progressista”, quando o ministro André Mendonça suspende o sigilo de um relatório de investigação do caso Master em que são revelados diálogos comprometedores entre o banqueiro, hoje preso, e o ministro Alexandre de Moraes, que, segundo a Polícia Federal, revisou e editou o referido contrato. Moraes deixou sua digital eletrônica no contrato, que passou a ter tudo a ver com ele próprio. Nem assim mereceu uma crítica dos “progressistas”.
Quanto aos diálogos, ficamos privados de saber em que termos exatamente Moraes respondia a Vorcaro porque ele, malandramente, tomou o cuidado de dificultar o rastreio das próprias mensagens, escrevendo-as no bloco de notas e enviando-as como foto de visualização única. Dessa forma, essas mensagens só podem ser lidas caso o telefone do ministro seja periciado, o que não vai acontecer porque ele destruiu o aparelho, mudou de número e de operadora e… vida que segue. Não é preciso ser muito esperto para perceber que Moraes sabia que o diálogo era impróprio, daí o zelo em dificultar o seu rastreio. O problema é que as mensagens de Vorcaro, por si sós, são suficientes para comprometer o ministro – a menos, é claro, que mais gente pense como Alex Solnik, definitivamente criativo em sua defesa pro bono de Moraes.
Solnik, diante de toda a sujeira espalhada, afirmou que Moraes, por “saber lidar com bandido”, já que foi secretário de Segurança, estaria passando informações de Vorcaro para a Polícia – e Vorcaro teria sido preso graças a mais um ato heroico do próprio Moraes. A sustentar a tese o fato de Vorcaro ter sido preso no aeroporto depois de ter perguntado a Moraes se deveria sair do país. Para considerar essa hipótese, porém, temos de esquecer por completo todas as benesses que Moraes estava recebendo de Vorcaro, inclusive outro contrato, no valor de módicos R$ 50 milhões e cotas de propriedade de avião a jato. O ministro do STF, por óbvio, não tinha interesse em prejudicar a galinha dos ovos de ouro, que lhe dava uma mesada de R$ 3 milhões em apenas um dos contratos.
Outro comentarista concedeu que a coisa toda não era “ética”, mas, ainda assim, garantiu que a legalidade não foi ferida. Ora, a considerar as mensagens de Vorcaro – por exemplo, “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?” –, há claros sinais de tráfico de influência e envolvimento do procurador-geral da República (Paulo Gonet) e do diretor-geral da Polícia Federal (Andrei Rodrigues). Gonet aparece em fotos, diálogos, festas, enfim, está tudo divulgado. E Vorcaro pede a Moraes que “sensibilize” o pessoal para o banco não quebrar. O fato de o ministro não ter conseguido ajudar Vorcaro mostra não a sua idoneidade, como gostaria o imaginativo Solnik, mas os limites do seu poder.
Esse comportamento da imprensa da esquerda pequeno-burguesa, que não solta a mão de Alexandre de Moraes nem mesmo diante de evidências, deve ser uma desajeitada estratégia de defesa de Lula, mas, sinceramente, a única coisa que sentimos diante disso é vergonha alheia. Estão defendendo o Moraes de graça, porque ele próprio, além de não ser nem nunca ter sido de esquerda, como bem se vê, usa o cargo público para fazer negociatas e enriquecer.
Ao mesmo tempo que defendem Moraes com unhas e dentes, esses comentadores criticam Flávio Bolsonaro por ter pedido dinheiro ao mesmo Daniel Vorcaro para custear o filme sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Afinal, o dinheiro de Vorcaro é sujo, limpo ou depende? No caso de Flávio, não se demonstrou até agora uma contrapartida objetiva (mais parece que financiar o filme seria uma forma de manter boas relações com a força política bolsonarista, dentro da estratégia de Vorcaro de distribuir dinheiro para todos os lados); no caso de Moraes, que é juiz na mais alta corte, o dinheiro comprava influência e blindagem. Doar dinheiro para apoiar um político seria pior que doar dinheiro para um poderoso juiz do STF?
Lula, mesmo estando limpo – já que Vorcaro preferiu se acertar com o STF–, é implicado na sujeira por Moraes, que, em vez de se explicar, tenta atribuir a crise do STF à polarização pré-eleitoral. Moraes embola o meio de campo para não cair sozinho, e a esquerda faz o seu jogo, mesmo tendo muito a perder. Moraes está defendendo a si próprio, enquanto Lula pode perder a última eleição de sua vida, caso continue pregando para convertidos numa disputa acirradíssima. Em tempo: a turma da esquerda, que tanto chamou os bolsonaristas de “gado”, está mostrando que também sabe mugir.
É fato que a esquerda está passando vergonha com essa defesa pueril de Alexandre de Moraes, que, espertamente, transformou seu delito em questão política. Na queda de braço, porém, talvez Moraes tenha de enfrentar um inimigo bem mais poderoso que os bolsonaristas do 8 de janeiro, que tratou com mão pesada. Quem não quer Vorcaro e seu esquema são os banqueiros, o pequeno e concentrado grupo que, na prática, dá as cartas no Brasil. Vamos ver quem vai dizer “Perdeu, mané” por último.




