A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 43,8% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, no domingo (6), mais que o dobro dos 20,8% de 2021. A União Democrata Cristã (CDU), principal partido da burguesia alemã, caiu de 37,1% para 17,2%, e o chefe do governo estadual, Sven Schulze, perdeu o próprio distrito para Christian Mertens, da AfD. Com 39 das 83 cadeiras, a extrema direita negocia agora o primeiro governo estadual de sua história.
A AfD é hoje o partido mais popular da Alemanha e vinha ganhando posições nos estados e no parlamento federal havia anos. O que se decompõe é o regime político erguido depois da Segunda Guerra Mundial, no qual CDU-CSU e o Partido Social-Democrata (SPD) se revezaram no governo. A crise estrutural do capitalismo, agravada a partir de 2008, jogou na lona esses partidos, que responderam a ela com socorro aos bancos, cortes, privatizações e gastos militares.
A AfD se apresenta como inimiga desse regime sem ter qualquer política independente diante da burguesia. Defende a propriedade privada, atribui aos imigrantes a miséria produzida pelo capital e disputa o comando do mesmo Estado. Capitaliza o descontentamento porque é a única força que aparece fora do bloco responsável pelo governo.
Contra esse crescimento, os partidos tradicionais recorrem a todo tipo de trapaça: o cordão sanitário, a exclusão de candidatos, a classificação do diretório estadual como “organização extremista de direita” pelos serviços de inteligência e a pressão dos órgãos de segurança. Cada manobra reforça a AfD, porque a população enxerga nelas a defesa do regime contra o próprio voto.
A esquerda alemã se colocou dentro desse bloco. SPD, Verdes e Die Linke compõem o mesmo campo da CDU, e o Die Linke, herdeiro do partido stalinista que governava a Alemanha Oriental, se oferece para sustentar um governo dirigido pelo maior partido da burguesia. Essa esquerda apoiou a censura na Internet, entregou à polícia, aos tribunais e à inteligência o combate à extrema direita e votou as leis de vigilância que hoje alcançam qualquer oposição. Quem responde pelo regime junto com a burguesia não tem como disputar com a extrema direita o descontentamento contra ele.
A Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), formada por dirigentes que romperam com o Die Linke em 2023, obteve 5,3% e se tornou o fiel da balança. Já anunciou que não bloqueará a eleição de um governador da AfD. Sua posição confusa não representa nenhuma ruptura com a burguesia alemã, embora seja uma tentativa de contestação.
Os 43,8% da AfD superam as votações do Partido Nazista em eleições estaduais decisivas de 1932, como a Prússia, com 36,7%, e a Turíngia, com 42,5%. O NSDAP alcançou aqueles números com milhões de filiados, imprensa própria, milícias armadas e um aparato montado para tomar o poder. A AfD chegou perto disso sendo alvo da repressão do Estado e isolada dos demais partidos.
O mesmo se repete no mundo todo. Onde a esquerda se transformou em correia de transmissão da burguesia, como na frente ampla defendida no Brasil, ela perde a condição de se separar dos governos e das instituições que a população combate, e a extrema direita ocupa esse espaço sem esforço. Enquanto a esquerda continuar servindo de fiadora do regime, seguirá empurrando os trabalhadores para os braços dela. Não há cordão sanitário, coalizão ou tribunal que substitua a independência política da classe operária.





