Polêmica

O ‘leninismo’ criado pela OTAN — parte 1

Autor transforma a autodeterminação em princípio abstrato e apaga a expansão da OTAN, o Euromaidan e o papel do imperialismo na guerra

Nazistas na Ucrânia

Em Vladimir Putin contra Vladimir Lênin, publicado neste domingo (6) pela Revista Movimento, Eric Toussaint procura transformar uma divergência entre Vladimir Putin e Lênin sobre a questão nacional numa explicação para a guerra na Ucrânia. Putin representaria uma concepção imperial da Rússia, enquanto Lênin representaria o direito dos povos à autodeterminação. A conclusão é que a guerra atual seria fundamentalmente uma agressão russa contra uma nação que procura exercer seu direito de existência independente, o que é, evidentemente, uma falsificação.

Putin é sabidamente um político de direita e já atacou publicamente decisões fundamentais tomadas por Lênin durante a formação da União Soviética. Mas transformar a posição reacionária de Putin diante da Revolução Russa numa explicação para o caráter da guerra travada cem anos depois é outra coisa.

Putin esta errado sobre Lênin e, ainda assim, foi levado pelas circunstâncias a enfrentar o imperialismo. É justamente essa possibilidade que Toussaint precisa eliminar.

A Ucrânia de 1922 não é a de 2022

Toussaint dedica grande parte do artigo à polêmica de Lênin contra o chamado “chauvinismo grão-russo”. Recorda que o dirigente bolchevique combatia a opressão das nacionalidades submetidas pelo Império Czarista e defendia seu direito de separação.

Cita Lênin: “O direito das nações à autodeterminação significa exclusivamente o seu direito à independência no sentido político, o direito à livre separação política a respeito da nação que a oprime”. Mas a situação de 1922 é simplesmente transportada para o século XXI.

Naquele momento, os bolcheviques organizavam sobre novas bases um território que havia pertencido ao Império Czarista. Lênin procurava impedir que o novo Estado reproduzisse a dominação nacional da velha Rússia e isso forçasse conflitos internos e desnecessários.

Em 2022, não existe Império Czarista e muito menos União Soviética. Existe uma Federação Russa capitalista, surgida da destruição da URSS, que passou mais de três décadas assistindo ao avanço da principal aliança militar imperialista em direção às suas fronteiras. Essa transformação desaparece praticamente por completo da análise.

E a OTAN?

O Pacto de Varsóvia e a União Soviética acabaram, mas a OTAN não acabou. Ao contrário, avançou sistematicamente para o leste, incorporando países que pertenciam ao antigo bloco soviético e aproximando sua estrutura militar da Rússia.

Em 2008, na cúpula de Bucareste, a própria OTAN declarou que Ucrânia e Geórgia se tornariam membros da organização. Como é possível explicar a guerra sem colocar esse fato no centro da análise?

Se uma aliança militar comandada pelos Estados Unidos passa décadas avançando em direção às fronteiras russas, a reação da Rússia não pode ser explicada pelo nacionalismo de Putin ou por suas opiniões sobre Lênin.

Toussaint precisa retirar a OTAN do centro da história para colocar em seu lugar o “chauvinismo grão-russo”. O resultado é curioso: a maior força militar imperialista do planeta aparece como elemento secundário de uma guerra que ela preparou durante anos.

O que fazer com o Euromaidan?

A mesma abstração aparece quando Toussaint fala da autodeterminação ucraniana. Ignora quem dirigiu politicamente o processo iniciado em 2014 e os interesses de classes envolvidos. Ignora o papel dos Estados Unidos e da União Europeia e que relação o novo regime estabeleceu com a OTAN.

O governo de Viktor Ianucóvitch foi derrubado depois de uma mobilização que recebeu apoio aberto das potências ocidentais. Representantes norte-americanos discutiam a composição do futuro governo e mantinham contato direto com dirigentes da oposição. Organizações de extrema direita desempenharam papel importante nos enfrentamentos e, posteriormente, setores dessa direita foram incorporados ao aparelho militar.

Como resultado, a Ucrânia foi incorporada ao dispositivo político e militar utilizado pelo imperialismo contra a Rússia. Toussaint chama o problema simplesmente de autodeterminação.

Mas Lênin nunca tratou a autodeterminação como uma regra jurídica independente da luta entre as classes e do imperialismo. Uma reivindicação nacional precisa ser analisada concretamente: quem a dirige, contra quem é utilizada, quem a financia e quais forças se fortalecem com sua vitória.

Sem isso, “autodeterminação” vira uma palavra que pode justificar qualquer operação política.

Lênin não definiu imperialismo como país grande

Esse é outro ponto fundamental. Para Toussaint, a concepção “imperial” de Putin serviria para caracterizar a própria Rússia atual como uma potência imperialista.

Mas imperialismo, para Lênin, não significava simplesmente um país poderoso que possui um grande Exército ou invade um vizinho. Tratava-se de uma etapa determinada do capitalismo, marcada pelo predomínio dos monopólios e do capital financeiro, pela exportação de capitais e pela divisão do mundo entre as principais potências.

Onde a Rússia ocupa essa posição? Quem controla o sistema financeiro mundial? Quem possui as moedas dominantes? Quem organiza bloqueios econômicos internacionais, confisca ou congela reservas de outros países e possui uma rede de bases militares espalhada pelo planeta? Não é a Rússia.

A Rússia possui armamento nuclear e enorme força militar, mas isso não a coloca na mesma posição dos Estados Unidos e das grandes potências da Europa Ocidental. É um país cercado militarmente, submetido a sanções e pressionado pelo sistema financeiro dominado pelos países imperialistas.

Toussaint utiliza Lênin para falar durante páginas sobre a autodeterminação, mas abandona a definição leninista precisamente quando chega ao imperialismo. Na guerra atual, é preciso perguntar quem expandiu uma aliança militar durante décadas em direção ao adversário, quem transformou a Ucrânia em plataforma militar e quem fornece armas, dinheiro, inteligência e treinamento para prolongar o conflito.

A Ucrânia está sendo utilizada como bucha de canhão numa guerra por procuração destinada a enfraquecer a Rússia. Toussaint inverte a relação. A potência cercada passa a ser o principal imperialismo; a expansão da OTAN desaparece; o Euromaidan perde seu conteúdo internacional; e a Ucrânia integrada ao dispositivo militar norte-americano reaparece como se fosse simplesmente a nacionalidade oprimida pelo czarismo sobre a qual Lênin escrevia cem anos atrás. É ridículo

A comparação entre Putin e Lênin serve, não para esclarecer aspectos da Revolução Russa, mas para esconder o papel do imperialismo na guerra atual.

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