Em PF indica que Mendonça acoberta Flávio e persegue “Lulinha”, publicado pelo Brasil 247 nesta sexta-feira (4), Eduardo Guimarães encontrou uma saída para o gigantesco escândalo que envolve Alexandre de Moraes: falar de André Mendonça.
Moraes ocupa um lugar central na política adotada por uma parte da esquerda nos últimos anos. A censura, as prisões e a perseguição aos bolsonaristas foram apresentadas como medidas necessárias à defesa da “democracia”. Agora, quando o ministro aparece comprometido pelo caso Daniel Vorcaro, essa política entra em crise. Para Guimarães, porém, o STF e Moraes continuam sendo instrumentos importantes contra a direita e, em particular, contra Flávio Bolsonaro nas eleições.
Seu artigo deve ser lido a partir desse problema.
O escândalo que interessa a Guimarães
Guimarães abre o texto anunciando que a leitura das 50 páginas de um relatório de inteligência da Polícia Federal mostraria que a corporação imputa vários crimes a André Mendonça:
“Com efeito, o Terrivelmente Evangélico, no dizer da Corporação vilipendiada pelos 10% mais desastrosos de Jair Bolsonaro no Supremo, é considerado suspeito de direcionar investigações, usurpar a competência policial e, pasmem, ADULTERAR PROVAS.”
Depois de reproduzir trechos do relatório, acrescenta:
“Se você acha muito, tem muito mais. Mendonça mandou investigar CINCO colegas de Tribunal, sendo dois deles da sua própria ‘Ala’.”
Mais adiante, apresenta outra acusação:
“A PF ainda denuncia perseguição ao filho de Lula.”
E encerra sem qualquer hesitação:
“A conclusão possível e imperiosa é uma só: André Mendonça é o típico bolsonarista. Todos eles fazem apostas exorbitantes em ações de alto risco e jogadas ‘espetaculares’ ignorando riscos legais e um mínimo de reflexão.”
A sentença vem logo depois:
“Mendonça violou todas as regras regimentais internas do Supremo concernentes a investigação de autoridades com prerrogativa de foro especial. Agora, terá alto preço a pagar. Pode perder o cargo e a primariedade. Simultaneamente.”
Esse encadeamento mostra qual é o objetivo do artigo. Guimarães não está tentando compreender a crise que se abriu no STF. Está montando uma acusação política contra Mendonça e, com isso, oferecendo uma explicação muito mais conveniente para o que está acontecendo: mais uma vez, o problema seria o bolsonarismo.
O que está acontecendo no STF
Só que a crise atual não surgiu porque alguém descobriu que André Mendonça é bolsonarista. O fato novo é que Alexandre de Moraes, depois de anos comandando censura, prisões e perseguições políticas, aparece envolvido num escândalo com Daniel Vorcaro.
Vieram a público as relações do banqueiro com a família do ministro, o contrato milionário com o escritório de sua esposa, mensagens e outros elementos do caso. Moraes já reconheceu fatos importantes relacionados a essas revelações. Ao mesmo tempo, a crise colocou em movimento diferentes setores do próprio regime: Mendonça abriu arquivos, a grande imprensa passou a atacar Moraes e a Polícia Federal reagiu acusando Mendonça de interferir em suas atribuições.
Globo, Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo estão triturando Moraes. Paulo Gonet e Andrei Rodrigues também aparecem na crise e tentam se defender por meio da defesa do ministro. Não se trata de uma disputa entre um ministro bolsonarista e instituições neutras empenhadas em proteger a legalidade. É uma guerra no interior da cúpula do Estado.
Guimarães elimina esse aspecto político e organiza os fatos dentro de uma fórmula conhecida: de um lado, um bolsonarista praticando abusos; do outro, a PF e o STF como instrumentos de defesa das instituições.
É essa versão que permite salvar o essencial da política que produziu a ditadura do Judiciário.
‘Mendonça mandou investigar CINCO colegas’
A vontade de apresentar Mendonça como o centro do escândalo leva Guimarães a ir além do próprio trecho que cita. Ele afirma:
“Mendonça mandou investigar CINCO colegas de Tribunal, sendo dois deles da sua própria ‘Ala’.”
Como prova, reproduz a seguinte passagem:
“em virtude de notícias da existência de relatórios de inteligência, devidamente registrados no sistema da Polícia Federal, envolvendo eventuais atos criminosos tendentes a direcionar a produção de provas para falsa imputação de crime em relação a Ministros do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, com citação expressa dos nomes dos Ministros GILMAR MENDES, DIAS TOFFOLI, LUIZ FUX, ALEXANDRE DE MORAES e NUNES MARQUES, além do Procurador Geral da República e do Diretor Geral da Polícia Federal”.
O trecho fala da existência de relatórios em que aparecem possíveis acusações contra essas autoridades. Ele não demonstra, por si só, a afirmação anterior de que Mendonça teria mandado investigar os cinco ministros.
Pode haver outros elementos no caso que sustentem essa acusação. O problema é que Guimarães apresenta uma frase categórica e, na sequência, oferece uma citação que não comprova exatamente o que acabou de afirmar.
O mesmo método aparece quando fala de uma determinação entregue inicialmente sem assinatura:
“Mais grave: inicialmente, a investigação de Moraes e outros ministros, do PGR e do chefe da PF foi uma ordem informal, sem assinatura.”
O próprio trecho citado depois informa que a decisão estava registrada nos autos e que posteriormente foi disponibilizada assinada. Isso pode revelar irregularidades ou procedimentos anormais, mas Guimarães apresenta de saída a interpretação mais grave possível e conduz toda a leitura nessa direção.
De ACM Neto para Flávio Bolsonaro
Há ainda um problema evidente entre a manchete e os argumentos apresentados.
O título afirma que Mendonça “acoberta Flávio e persegue ‘Lulinha’”. No corpo do texto, porém, a passagem destacada para provar a perseguição ao filho de Lula diz:
“Em reunião presencial de 13/8/2026, o relator manifestou percepção de que ACM Neto, candidato ao Governo da Bahia, aparentaria estar exercendo atividade de representação de interesses dentro dos limites do permitido. A situação fática apurada quanto a ele guarda similaridade relevante com a de Fábio Luís Lula da Silva, o que sugere a adoção de standards probatórios distintos conforme o espectro político da pessoa envolvida nos fatos.”
A comparação apresentada é entre ACM Neto e Fábio Luís Lula da Silva.
Guimarães, porém, introduz o trecho dizendo:
“A PF ainda denuncia perseguição ao filho de Lula.”
Até aí, a frase corresponde ao que o relatório pretende sustentar. O salto ocorre no título, onde ACM Neto desaparece e entra Flávio Bolsonaro.
Isso não é um detalhe. Flávio Bolsonaro é muito mais útil para a tese política do artigo. A manchete recoloca imediatamente o episódio na disputa eleitoral: Mendonça estaria protegendo o filho de Bolsonaro e perseguindo o filho de Lula.
Assim, uma crise que compromete o STF inteiro é novamente apresentada como um capítulo da luta entre o bolsonarismo e as instituições que supostamente defenderiam a democracia.
O medo das eleições
É justamente aí que aparece a política de Guimarães.
Uma parte da esquerda está aterrorizada com a possibilidade de Flávio Bolsonaro avançar eleitoralmente. Depois de anos apoiando a concentração extraordinária de poderes no STF, esse setor continua olhando para Moraes como uma arma contra a direita.
O raciocínio é simples: se Moraes cair, enfraquece-se também o mecanismo judicial que foi utilizado contra Bolsonaro e seus apoiadores.
Por isso, em vez de tirar da crise a conclusão evidente de que o STF se transformou num poder monstruoso e sem controle, Guimarães tenta preservar a velha divisão entre “democracia” e bolsonarismo.
Não é que ele não perceba o que está acontecendo. Sua política é outra. Entre denunciar a podridão do regime e conservar Alexandre de Moraes como instrumento contra Flávio Bolsonaro, ele escolhe a segunda opção.
O problema não termina em Moraes
A burguesia pode perfeitamente tentar resolver a crise sacrificando Alexandre de Moraes e preservando o STF. O ministro cai, a instituição continua com seus poderes intactos e tudo segue como antes.
É justamente contra essa saída que é preciso colocar outra política.
O caso Master mostra até onde chegou a ditadura do Judiciário: ministros não eleitos, sem qualquer controle popular, acumulando poderes para interpretar as leis, conduzir investigações, censurar, prender e interferir diretamente no processo político. O escândalo de Moraes não deve servir para substituir um ministro por outro, mas para colocar em discussão todo esse sistema.
É preciso defender o fim do STF, a eleição dos juízes, a ampliação do tribunal do júri e uma revisão geral das leis e procedimentos para restringir o poder do Estado contra a população.
Guimarães vai na direção oposta. Seu artigo tenta reduzir uma crise geral do regime a mais um caso de “bolsonarista cometendo abusos”. Dessa maneira, protege não apenas Alexandre de Moraes, mas a política que transformou o STF num poder acima da população e apresentou essa ditadura como defesa da “democracia”.
Continua…





